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“MIENTRAS DUERMES” de JAUME BALAGUERÓ

Um provocador de emoções controversas

No passado dia 21 de Novembro tivemos o prazer de voltar a receber o reconhecido realizador espanhol Jaume Balagueró em terras lusas. Jaume visitou a capital para apresentar o seu último filme, “Mientras Duermes”, na abertura do CineFiesta 2012, Mostra de Cinema Espanhol. A Rua de Baixo foi conversar com este realizador controverso, que confessou encantar-se com as reacções emocionais que os seus filmes provocam no público.

“Mientras Duermes” foi a tua última longa-metragem e é sem dúvida diferente daquilo em que tens trabalhado em todos os teus outros filmes. Arrisco-me a dizer que talvez seja um pouco mais realista. Poderias falar um pouco deste teu último filme?

Não foi nada premeditado, simplesmente recebi um guião, a história agradou-me muito e queria contá-la. E sim, realmente este filme é diferente de todos os anteriores que, de alguma forma, eram de terror. Havia uns mais realistas do que outros, dramas com elementos sobrenaturais, outros não tanto, mas havia sempre uma relação com o sobrenatural, e com o fantástico.

“Mientras Duermes” aborda questões do quotidiano e do super-realismo. O objectivo era inquietar os espectadores, contando uma história, que poderia de alguma forma ir ao encontro dos seus próprios mundos, do seu quotidiano. A história foi baseada nas coisas mais banais com que nos deparamos no nosso dia-a-dia: a nossa casa, o nosso porteiro, o nosso piso, as nossas escadas, coisas muito próximas de todos, e que toda a gente reconhece.

Querias de alguma forma fazer do espectador cúmplice do assassino?

Sim, a ideia era essa. O que me fascinou neste guião foi que, apesar de ser uma história muito clássica, em que o vilão atormenta uma vítima inocente (isso já vimos muitas vezes), desta vez o ponto de vista retratado não era o da vítima, mas sim do vilão. E, sem querer, este guião fazia com que o espectador estivesse do lado do vilão. O filme leva o espectador a empatizar e participar em tudo o que o vilão faz. Como estamos a participar, estamos a ver tudo o que ele prepara, ficamos na expectativa, se funciona ou não, tornamo-nos de alguma forma cúmplices. Esta é uma ambiguidade que me agrada muito. Obrigar, forçar o espectador a tomar uma posição, justamente do lado onde normalmente não estaria.

Qual é a tua cena preferida do filme ”Mientras Duermes”?

Bom, eu penso que todas. Foi muito agradável de realizar. Há cenas que estão muito calculadas, há cenas de suspense que estão rigorosamente desenhadas na minha cabeça, para que funcionem de uma forma muito forte. Essas cenas, que de alguma forma têm um ponto de “malabarismo”, de jogo de mãos e de magia, agradaram-me muito. Por exemplo, quando o vilão está debaixo da cama da vítima, e ela está em cima com o seu namorado. Em toda esta parte era muito importante que o suspense estivesse presente, e sobretudo que o espectador se pusesse na posição do vilão.

Porquê o terror psicológico?

Bem, isso foi uma opção que também não foi premeditada. Via filmes de terror desde muito pequeno, tudo o que envolvia mistério ou fantasia. Era uma criança obcecada com estes temas, como muitas crianças.

Tens algum filme de terror preferido?

Sim, “Alien”, de Ridley Scott, por exemplo, e houve um filme que me marcou muito, vi quando era adolescente, que se chamava “The Other”, de Robert Mulligan. É um filme curto, muito aterrador, que é extraordinário, e que eu uso sempre como referência, mas há muitos mais.

Qual é a diferença entre trabalhar um guião escrito por ti, ou por outra pessoa?

Na realidade não há diferenças, porque quando realizo um filme com um guião de outra pessoa, antes de começar, há um grande trabalho de equipa com o guionista. Eu decido ir para a frente com um guião, porque gostei muito da história, e passo a senti-la como minha. Ainda que não seja a minha história, é como se passasse a ser. De alguma forma, acabo por compartilhar emocionalmente a autoria do guião. Há um grande trabalho com o guionista, de forma a melhorar o guião, e estruturá-lo da melhor forma para concretizá-lo num filme.

O que é que te agrada provocar no espectador?

Depende do filme. Basicamente, a mim agrada-me emocionar o público. Gosto muito de ver os espectadores a rir quando há algo que eu queria que provocasse o riso. Qualquer emoção agrada-me. Há emoções que são especialmente agradáveis de ver que o espectador sente, como o terror. Quando o espectador está inquieto, tem medo, dás-te realmente conta que a “maquinaria” funciona, e é muito satisfatório. Quando o espectador se emociona e sente algo, isso é muito bonito para mim.

“Alicia” foi a tua primeira curta-metragem. O que querias provocar na altura?

Basicamente, surpresa e controvérsia. Era a minha primeira curta, eu tinha 22 anos. A intenção era chamar a atenção. Queria que as pessoas se questionassem sobre o que era aquilo. Sobretudo, queria provocar impacto. Não tem muito significado. Muita gente me pergunta qual o significado, e eu não sei. Não importa, era suposto provocar emoções estranhas.


Tens planos para outro filme, em breve?

Sim, estamos a preparar o “REC 4”, a quarta parte e última da saga “REC”, que será de imediato, e depois tenho mais um projecto para o futuro.

Quais são as tuas inspirações para o teu trabalho?

Cada filme vem de uma inspiração diferente. Muitas vezes vês ou ouves algo que te inspira. Na realidade o que inspira é a vida. Tudo o que vês, tudo o que ouves. Filmes que vês, canções que ouves, algo que vês na rua, tudo é inspirador.



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