Jazzanova The pool

Jazzanova | “The Pool”

Melhor do que nunca.

Os Jazzanova já andam no mundo da música há uns valentes e bem-sucedidos anos, décadas, se quisermos, e apetece perguntar qual o segredo para um casamento tão duradouro, já que as primeiras sonoridades remontam ao já longínquo ano de 1995. Ao longo de tanto tempo, têm sido reis e senhores das pistas de dança e têm desenvolvido não só as suas capacidades e interesses como músicos como também têm trabalhado como produtores e donos de estúdios de gravação e pós-produção, para além dos afazeres da vida familiar. A liberdade criativa poderá ser a grande responsável para que há tantos anos o colectivo ainda não se tenha separado mas a autonomia individual em determinados momentos também ajuda, segundo afirmam os próprios membros do grupo – nem tudo pode fazer parte de um grande bloco de movimentos democráticos. Entre muitos outros exemplos, o facto de os alemães Jazzanova serem tão requisitados para tocar um pouco por todo o mundo levou a que se separassem nesse aspecto para poderem actuar em Dj sets como representantes do colectivo. Aí, cada membro pode e deve decidir como dar forma à música que vai passar, até porque o espírito deste conjunto de músicos, produtores e djs começou por ser o de um espaço comum para editar a sua música e depois acabou por alargar-se a outros universos e músicos e editar os respectivos trabalhos (basta lembrar que são os fundadores da lendária Sonar Kollektiv).

Incrivelmente, com tantos anos de actividade, os alemães lançaram há pouco o seu quarto álbum de originais, o que poderia levar a pensar que pouco teriam feito em todo este tempo. O que é certo é que o material que têm acumulado em gravação daria para editar 8 álbuns, o que significa que tudo o que têm feito é concretizado ao sabor da vontade, característica plenamente assumida pelos membros do colectivo. A música é feita em consonância com aquilo que a banda quer ver em resultado da sua evolução técnica, de gosto, de influências, aquilo que trazem de outros músicos, outras bandas, as próprias influências da intensa troca cultural e musical da grande metrópole que é Berlim, onde estão baseados.

Em muitos casos, mesmo com colectivos de artistas ou músicos, o tempo acaba por não ser bom conselheiro e mesmo quando cada um não acaba por seguir o seu caminho individual, a sonoridade acaba por cair no esquecimento ou queda-se no passado e deixa de fazer sentido de acordo com as novas tendências. O novo trabalho de Jazzanova, “The Pool”, vem provar que com eles se passa exactamente o contrário e que até se podem dar ao luxo de ser ambiciosos e convidar uma voz diferente para cada uma das 12 faixas do álbum. Apesar disso, conseguiram dar forma a um coeso e eclético trabalho que mostra que passadas duas décadas os Jazzanova ainda dão cartas na música electrónica. Talvez por não se aterem a um estilo específico e explorarem uma enorme paleta de sonoridades explique como mesmo misturando novo jazz e hip hop conseguem que no seu todo “The Pool” não soe como um corpo estranho de música. Pelo contrário, este seu quarto disco é fluido, criativo, descomplexado, livre mas ao mesmo tempo profissional e muito bem ponderado e muito bem produzido. Se inicialmente pode parecer um pouco falho em personalidade, é um álbum que cresce em pormenores e riqueza à medida que o ouvimos e vamos percebendo a quantidade de bom gosto que ali se encontra. O facto de navegarmos pelas águas mornas do easy listening pode fazer com que se julgue levianamente este “The Pool” e isso é injusto porque é muito mais do que um simples disco de Jazzanova, é muito possivelmente um dos melhores trabalhos deste ano e nem sequer podemos na verdade dizer que é deste ou daquele género musical. Aquilo que os Jazzanova fizeram aqui é música universal, flexível, criativa e que reflecte sem complexos o percurso individual de cada um dos membros mas também o percurso que fizeram durante todo este tempo como um colectivo de indivíduos.

Com o estatuto que ainda detêm no âmbito de um nicho musical que reunirá algumas das bandas, duos ou colectivos de djs/produtores mais queridos pelos portugueses, como Krüder & Dorfmeister, 4hero, St. Germain, Koop, Fila Brazilia ou Dzihan & Kamien, não querendo sequer obviamente comprar nenhum destes nomes mas apenas contextualizar, os Jazzanova não têm nada a provar a ninguém. Mais depressa quereriam provar a si mesmos que conseguem editar um álbum novo, diferente de tudo o que fizeram anteriormente mas mantendo a sua personalidade e conseguindo aglomerar à sua volta outros nomes, outros músicos e cantores, conferindo novos elementos sonoros sem perder características próprias. É desta massa que se fazem os grandes álbuns e o próprio título deste trabalho é a prova de que escolheram precisamente dar destaque a esta espécie de sopa criativa que aglomera sons e conceitos tão díspares que quase se poderia pensar numa piscina de música primordial. Passados dez anos desde que editaram o seu último trabalho, os Jazzanova regressaram (“The Pool” viu a luz do dia no final de Junho passado) como um refresco para a cena musical global, iguais a si mesmos no que toca ao experimentalismo mas mais diversificados e independentes que nunca. Muito longe de pretenderem marcar uma posição política ou de qualquer outro tipo, a música de Jazzanova continua a representar a liberdade criativa de um conjunto de djs e produtores que se divertem a gravar drum sets próprios para servir de base às melodias (sem ponderar sequer uma parceria com um baterista, por exemplo) ou a dar uso ao seu estúdio de Berlim para “brincar” ao “corte e costura” de uma miríade de blocos sonoros construídos para dar forma a “The Pool”. Um pouco como uma enorme manta de retalhos ou caos primordial a que aos poucos se dá forma, cinzelando os vários diamantes em bruto que têm entre mãos.

O inesperado neste novo trabalho de Jazzanova é precisamente não existirem fronteiras nem muros que obstem à criação e as sonoridades deambularem pelo acid jazz, pelo jazz clássico, pelas samples mas não se ater às matrizes a que estávamos habituados com este colectivo. Assim, por exemplo, estabelecem parcerias vocais com rappers como o norte-americano Oddisee e fundem esse fluir das palavras do rap tradicional de rua com samples de espirituais negros e as batidas do jazz que estão sempre presentes, dir-se-ia que são mesmo a base de quase todos os temas (o que faz algum sentido sabendo que é partir da bateria que os Jazzanova desenham o esqueleto da maioria das suas faixas). Se essa fusão de sons poderia tornar-se estranha com outros músicos, em “The Pool” é um bálsamo para os ouvidos, sobretudo se atentarmos no facto de que a seguir a uma faixa mais voltada para o rap, como é “Now (L.O.V.E. and You & I – Pt. 2)”, surge a etérea e rica “Rain Makes The River”, uma parceria de espírito indie quase shoegaze com a cantora de origem escocesa Rachel Sermanni, normalmente associada ao movimento mais folk e indie, e que funciona na perfeição com a estrutura simultaneamente poderosa e sensível da segunda faixa do álbum (que é também um dos seus pontos altos). É pura poesia musical que se suporia eventualmente insuperável mas o que é certo é que “The Pool” está repleto de faixas luxuosas e ricas, camadas e camadas de mestria e experiência na manipulação sonora, de que é um grande exemplo a “No. 9”, que vai buscar influências mais próximas dos finais dos anos 90, do trip hop e do nujazz, remetendo para os primeiros anos da carreira da banda, mas atira-lhe o groove incrível do também rapper KPTN.

“The Pool” não se fica apenas por juntar influências e sons que aparentemente não resultariam bem juntos e viaja com igual perfeição nas ondas da soul e do R&B, como é o caso da faixa “Sincere”, que conta com a colaboração de Noah Slee, músico de origem Neo Zelandesa/Tonganesa baseado em Berlim,  e soa a uma incrível fusão de sonoridades funk e soul de tendência quase tropical, fresca, solta, fluida. É uma das faixas mais dançáveis e contagiantes do álbum apesar de não ser definitivamente a única. Aliás, uma das enormes particularidades deste trabalho é ser incrivelmente dançável e cheio de groove, mesmo que na maioria das faixas as vozes convidadas não estejam propriamente habituadas a dar corpo a música apontada para as pistas de dança, como é o caso de Jamie Cullum, um dos ilustres convidados em “The Pool”. Numa altura em que a maioria das bandas e das tendências musicais se foca na especialização e no abrandamento da sua sonoridade quase como se houvesse a necessidade de racionalizar ou intelectualizar a expressão criativa, os Jazzanova seguem no percurso inverso e geram um dos mais inventivos e frescos LPs de 2018, provando que ao invés de se cristalizarem se sabem e querem reinventar. Mostram também que não estão interessados em comparações ou seguir as linhas criativas de outros músicos e estão prontos para pegar nas suas armas e criar o seu próprio espaço.

Tal como haviam feito há duas décadas atrás, continuaram a romper barreiras ao longo da sua carreira e chegam ao seu 4º trabalho de originais mais maduros que nunca, quase alheios a tudo o que se passa à sua volta mas sabendo compor uma sonoridade que não corrompe as suas tradições e gostos e traz ao mesmo tempo renovação e frescura (pode parecer contraditório). Mostram que são exímios na composição técnica da sua música mas que, ao mesmo tempo, o fazem por pura devoção à criatividade musical e nada mais. Quem chegasse só agora ao planeta Terra, poderia questionar-se como é que os Jazzanova só têm 4 álbuns mas a verdade é que por trás destes trabalhos está uma carreira ampla a produzir música para outros artistas e uma enorme experiência na estrada a ouvir constantemente música nova, a ir buscar elementos aos clássicos, a pôr clubes e discotecas por esse mundo fora a dançar nos seus sets. É essa cultura musical que acaba por ecoar em “The Pool”, uma deliciosa sopa primordial de música em estado puro, um deleite para ouvir em qualquer circunstância, soando sempre novo a cada vez que é ouvido. Não há muita gente a fazer música como os Jazzanova e este é um dos mais surpreendentes, renovados e ecléticos trabalhos deste ano musical, arriscamos mesmo ser de audição obrigatória mas muito atenta e próxima.



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