Jean Rouch

A Cinemateca presta homenagem a uma das figuras mais originais do cinema. Dois dias para conhecer os seus filmes essenciais.

Jean Rouch, que morreu no passado dia 18 de Fevereiro, aos 86 anos, num acidente da viação no Níger, país a que estava muito ligado, é uma das figuras mais originais da história do cinema. A Cinemateca presta-lhe uma breve homenagem, com alguns dos títulos mais conhecidos e importantes da sua vastíssima obra.

Formado em engenharia, Rouch descobriu a África em 1941 e depois da guerra estudou antropologia no Museu do Homem e no Collège de France, em Paris. Ao fazer a sua segunda viagem a África, em 1947, os seus mestres sugeriram-lhe que filmasse e foi assim que realizou o seu primeiro filme. Rouch fez-se conhecer fora dos círculos etnográficos a partir de “Les Maîtres Fous” (1954-55), que suscitou imensa polémica e imensa admiração. A partir da sua primeira longa-metragem, “Moi, Un Noir”, que aboliu as fronteiras entre documentário e ficção, coexistem na obra de Rouch os filmes etnográficos propriamente ditos e os filmes “narrativos”, ficcionais. Rouch, que realizou o trabalho de câmara de todos os seus filmes, começou a filmar antes da existência das câmaras e dos gravadores leves e soube tirar partido destas contingências, com grande criatividade.

À roda de 1960, foi considerado uma das figuras centrais da revolução que então conhecia o cinema documentário. Antropólogo entre os artistas, artista entre os antropólogos, ao mesmo tempo informal e erudito (era membro do CNRS, foi professor em Harvard e na Sorbonne), Rouch tinha um espírito extremamente aberto. Nas aulas livres que ministrou durante anos na Cinemateca Francesa, aos Sábados pela manhã, ao lado de clássicos do cinema, Rouch também mostrava qualquer filme que lhe fosse proposto por um estudante ou um amador, que aparecesse com a cópia debaixo do braço e a projecção era sempre seguida por um debate.

Completamente francês, mas profundo conhecedor de muitas culturas tradicionais africanas, Rouch gostava de se situar entre duas culturas. A sua posição insólita no seio do cinema fez com que fosse adoptado por alguns representantes do moderno cinema francês, ao ponto de realizar um dos episódios do único filme-manifesto da Nouvelle Vague, “Paris Vu Par…” A sua obra, cujo período mais importante vai de meados dos anos 50 a meados dos anos 70, irritou os militantes políticos e desconcertou os documentaristas tradicionais.

Nos dias 26 e 27 de Abril, a Cinemateca vai exibir as obras mais importantes deste cineasta, numa oportunidade única para conhecer um dos génios de sempre do cinema europeu. Aqui fica o cardápio:

MOI, UN NOIR
com Oumara Ganda, Touré Mohammed, Alassane Maiga, Mlle. Gambi
França, 1959 – 80 min / legendado electronicamente em português

Primeira longa-metragem de Rouch, filmada na Costa do Marfim, esta obra-prima do cinema moderno mistura ficção e realidade, através da rotina de três jovens do Níger que emigraram para Abidjan

LA PYRAMIDE HUMAINE
com Nadine, Denise, Alain, Jean-Claude e alunos do Liceu de Abidjan
França, 1961 – 80 min / legendado electronicamente em português

Mais uma vez, Rouch mistura ficção e realidade, depois de ter abandonado o projecto de fazer um documentário sobre os estudantes brancos e negros num liceu de Abidjan. Os papéis ficcionais dos estudantes são baseados nas suas próprias experiências, numa história fictícia, mas plausível. Sala Luís de Pina

segunda-feira dia 26 de Abril às 19:30

LA GOUMBÉ DES JEUNES NOCEURS
França 1965 / 30 min / sem legendas

EN UNE POIGNÉE DE MAINS AMIES
França/Portugal, 1996 – 30 min

A abrir a sessão, LA GOUMBÉ DES JEUNES NOCEURS, sobre uma sociedade recreativa num bairro de lata de Abidjan, com os seus minuciosos estatutos. O outro filme é um “aperto de mãos amigas” entre dois cineastas que se conheceram tardiamente. Foi realizado no Verão de 1996, para celebrar os cem anos do cinema português. Rouch e Manuel de Oliveira filmam a quatro mãos um percurso pelo rio Douro, rio abaixo e regresso. O pacto entre os dois cineastas é atravessado por referências à poesia e ao cinema, em que pairam as sombras de DOURO FAINA FLUVIAL e de ANIKI BOBÓ, num filme que também é a celebração de um espaço e de uma amizade.

segunda-feira dia 26 de Abril às 22:00

PETIT À PETIT
com Damouré Zika, Lam Ibrahim Dia, Safi Faye
França, 1971 – 230 min / legendado electronicamente em português

Rouch conta a história de um habitante do Níger, cuja empresa vai construir o primeiro prédio de Niamey e vem a Paris ver como vivem as pessoas nas “casas de andares”. Isto é pretexto para uma divertida excursão de antropologia invertida, em que o africano observa com surpresa os estranhos hábitos dos parisienses, numa crítica implícita ao modo como os antropólogos franceses estudam os seus compatriotas. O filme também é um retrato dos espíritos da Paris dos primeiros anos do período pós-68.

Terça-feira dia 27 de Abril às 22:00



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