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Jim Jarmusch & Jozef van Wissem | “The Mystery of Heaven”

Espaço sideral

Longe de ser um novato nestas coisas da música, Jim Jarmusch, muito bem acompanhado por Josef van Wissen, lança “The Mystery of Heaven”, um disco fantasmagórico, repleto de tour de forces e que reforça o intimismo entre a música e a sétima arte.

Figura de proa da cena underground nova-iorquina dos anos 1980, Jarmusch, à época um realizador de cinema emergente, fez parte de algumas bandas locais onde o espírito punk era a filosofia. Pisou o palco do mítico CBGB e muita da inspiração que aí reuniu abriu-lhe as portas para os terrenos do cinema. Nesse campo Jarmusch era perentório: preferir a expressividade a qualquer laivo virtuoso.

Para além dessas premissas, Jim Jarmusch sempre quis fazer a ponte entre a imagem e o som, entre o cinema e a música. Para isso, desde sempre convidou alguns dos seus heróis musicais a participar nas suas películas. Joe Strummer, Iggy Pop e Tom Waits trocariam o palco pela tela ao serviço do realizador.

Estas escolhas não eram de todo inocentes. Músicos e realizador tinham em comum a luta contra o lado comercial da arte e para a história ficaram filmes como “Down by Law” (1986), “Dead Man” (1995), ou mais recentemente “Ghost Dog” (1999).

No que toca a “The Mistery Heaven”, segunda colaboração entre Jarmusch e van Wissen em 2012 (também editaram “Concerning, the Entrance Into Eternity”), estamos perante mais um interessante capítulo na carreira deste multifacetado artista. Tocante e bastante experimental, este disco vem um pouco no seguimento da anterior referida experiência musical entre os dois protagonistas e oferece meia dúzia de músicas intimistas, alicerçadas nos fantasmas cinematográficos de Jarmusch.

A primeira faixa do disco, «Etimasia», uma dolente e progressiva introdução, transporta a nossas mentes para atmosferas acústicas envolvidas por uma singela parede de distorção e reverberação muito bem conseguida, ainda que tímida, o que intensifica uma doce camada dramática e soturna.

A seguir, os cerca de onze minutos de «Flowing the Light of the Godhead» empurram-nos para um diálogo vibrante e sónico entre as guitarras de Jarmusch e van Wissen. Aqui, a distorção e o feedback resultam na perfeição e facilmente atingimos um patamar longínquo, um espaço sideral qualquer.

Em «Mystery of Heaven (Long Version)», a faixa seguinte, o som abre ligeiramente diferente, mais acústico, mais escuro, mas, aos poucos, somos levados para a mesma espiral minimal, em constante debate sobre si mesma. Estamos próximos de num ambiente western spaghetti de características drone.

Talvez a experiência mais “cinematográfica” do disco chegue com «The More She Burns the More Beautiful She Glows», um exercício que mistura os já referidos ambientes escuros do disco com um spoken word da responsabilidade da actriz Tilda Swinton que nos recita um texto medieval que tem a sua origem no distante século XIII. O resultado é um momento lírico assente no feedback de Jarmusch e no registo minimal e hipnótico de van Wissen.

A seguir da tempestade, a bonança. Em contraponto com os quase 11 minutos da faixa anterior, «Etimasia (reprise)» descansa ouvidos e mente ao longo de breves, mas muito bem-vindos, 104 segundos.

O disco termina com «Flowing Light of the Godhead (Eternal Sun)», a faixa mais longa do registo e é, no fundo, um eterno retorno ao ambiente minimalista e belo de todo o disco. Jarmusch e van Wissen, criam, mais uma vez, um disco intenso, delicado, escuro, belo.

Ao ouvirmos estas músicas somos transportados para um universo paralelo que tem como base um diálogo musical próprio. A música de Jarmusch não é “fácil”, claro, mas é profunda e sincera. A linguagem utilizada resulta de uma espécie de viagem espacial, poética e sónica. A nós, simples ouvintes, basta-nos sentar e seguir o caminho a que o som nos leva. Senhoras e senhores, estamos a flutuar no espaço, diriam alguns.



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