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[JOANA] MORA NA FILOSOFIA #3

«Agora o senhor vai para casa e toma 10 gotinhas de Concentrado Kantiano, 3x ao dia. Daqui a um mês repetimos as análises ao sangue, para verificar como estão os níveis de ética»

«O conhecimento filosófico não vale nada», escreveu um senhor, a propósito do comportamento de um filósofo da nossa praça. Ora, isto é coisa para arreliar Sócrates (o grego, atenção!) e para fazer o Santo Agostinho dar voltas no túmulo.

Procurei esclarecer o sentido daquelas palavras. Acrescentei um «por si» e eis que o resultado fica, parece-me, mais próximo da verdade. Vejamos:

«O conhecimento filosófico, por si, não vale nada»

Deixem o «por si, não vale nada» e completem a frase à vossa vontade. Por exemplo:

«Dizer 10 vezes ao dia “sou muito boa pessoa”, por si, não vale nada»

«Comprar muitos livros e guardá-los na estante, por si, não vale nada»

«Imprimir o plano alimentar e colá-lo no frigorífico, por si, não vale nada»

«Ter uma ideia, por si, não vale nada»

«Ir à missa, por si, não vale nada»

Há ideias e actos que, por si, não têm valor algum. Vivemos muito iludidos com a noção de que podemos criar realidade através das palavras, por exemplo. Mas consta que esse carácter criacionista, pela palavra, só a deus pertence. Podemos também falar do aspecto altruísta (ou egoísta) das boas acções e discutir se isso basta para que nos tornemos seres humanos melhores. E aí, nesse momento, questionamos o bem e o mal e a forma como um e o outro interferem – à partida ou à chegada – no nosso olhar sobre aquilo que está à nossa volta.  (Sim, a filosofia é muito isto, caminhar de interrogação em interrogação, em modo non stop – infelizmente, estas caminhadas não contribuem para a melhoria do porte físico, apenas do intelectual).

Tal como os sinais de trânsito – que se limitam a dizer «tem que seguir por aqui», mas nunca vão a lado nenhum – também o conhecimento, o saber acumulado poderá não ser o motor para coisa alguma. Conhecemos tantos casos de professores, autênticas “enciclopédias humanas” incapazes de dar uma aula com o mínimo de competências pedagógicas. Médidos com um passado académico acima de 19 que são autênticas nulidades no trato com os doentes. E filósofos que, por muito que leiam ou escrevam, vão DE encontro àquilo que estudam e defendem em neverending ensaios. E todos sabemos que ir DE encontro às coisas pode ter efeitos secundários: hematomas ao nível do intelecto e distância entre o que se diz e faz. Verdadeiras nódoas negras indetectáveis a olho nu.

Talvez os filósofos sejam apenas seres humanos, que confudem o “ir ao encontro” com um “ir de encontro”. Que têm dúvidas, porque as certezas podem tornar-se pesos insuportáveis nos ombros e causar hérnias discais. Talvez a filosofia não esteja assim tão distante da vida de todos os dias. Talvez todos nós tenhamos morada nessa rua, que se chama Filosofia.

Texto de Joana Rita Sousa
Ilustração de Ruaz

 

Crónicas anteriores: #1 // #2



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