João César Monteiro

2003 foi um ano negro para o cinema português. A última viagem de JCM.

Um dos maiores génios do cinema português faleceu este ano. Depois de um percurso imensamente reconhecido, vai ser lançado um pack de 11 DVD’s com toda a sua obra. Está previsto para Dezembro e, como tal, decidimos expôr aqui a sua biografia.

É complicadíssimo opinar sobre a sua obra ou mesmo sobre a sua pessoa pela controvérsia que poderia originar, pelo que tentarei cingir-me apenas a factos da sua vida e obra para de certa forma ser feita uma homenagem a este grande artista que marcou para sempre o cinema português.

Esta sua frase retrata todo o seu pensamento acerca do cinema: – “Não faço parte de grupos e não tenho quaisquer afinidades culturais com colegas meus. Sinto-me, portanto, à margem daquilo a que se chama o novo cinema português (…). sou um tipo ferozmente individualista que a si mesmo se toma pelo centro do mundo e está profundamente convencido que estas coisas de cinema, ou do que quer que seja, se atravessam sozinho.” [J. César Monteiro – in Morituri Te Salutant]

Nasceu a 2 de Fevereiro de 1939, na Figueira da Foz. Como o próprio afirma, passou uma infância caprichosa, numa família dominada pelo espírito da 1ª República.
Com 16 anos, fixa-se em Lisboa, para ingressar no liceu, mas depois de uma doença venérea é expulso do colégio. Aquando da morte do pai, viu-se obrigado a passar por inúmeros empregos. Depois dessa experiência, segue para Paris para testar os seus próprios limites, não durou muito. Voltou repatriado pouco depois.

Em 1960, junta-se a Seixas Santos para que este lhe ensinasse o que sabia de cinema. No ano seguinte, trabalha como assistente de realização de Perdigão Queiroga.
Segue para Londres em 1963 para frequentar a London School of Film Technique. A experiência não foi a melhor e João César Monteiro não se adapta. Dois anos mais tarde, conhece Paulo Rocha e Fernando Lopes apaixonando-se pelo filme do primeiro e ficando amigo do último. Tenta dar vida a um projecto em 16 mm, que tinha o nome de “Quem espera por sapatos de defunto morre descalço” mas não o consegue fazer. Tenta também terminar um filme publicitário, mas deixa-o a meio e é internado num hospício. Quando regressa, trabalha durante um ano como escriba dos Filmes Castello Lopes, Lda.

Em 1968, é recomendado ao produtor Ricardo Malheiro e realizou o filme sobre Sophia de Mello Breyner Andresen. No ano seguinte regressa ao projecto “Quem espera por sapatos de defunto morre descalço”, filmando-o por dois anos. Farto do filme, recebe um subsídio da Fundação Gulbenkian e viaja para Itália e França. Acabado o dinheiro, volta para terminar o filme, receber a última prestação do subsídio e voltar de novo para a estrada rumo a Barcelona, Marselha, Florença, Milão, Como, Cernobbio e Paris.
O filme não foi muito bem recebido por parte da Fundação, nem pelos críticos presentes no Festival de Nice. Não se preocupou muito e continuou a aproveitar a estadia por terras francesas.
De seguida, iniciou “A sagrada família” que serviu para “justificar” o anterior e prenunciar o seguinte, “A tempestade”.
Em 1975, realiza a longa-metragem “Que farei eu com esta espada?” com claras referências à situação política então vivida e onde surge Nosferatu, o vampiro de Murnau. Dois anos mais tarde, realiza “Veredas” abordando lendas e contos da mitologia popular portuguesa.
A sua odisseia pelo cinema continua revelando actores como Luís Cintra ou Maria de Medeiros e, mais recentemente, voltou à polémica com “Branca de Neve”, o seu filme de ecrã negro a partir do conto de Robert Walser, que o encurralou devido ao facto de não ser o que os seus patrocinadores esperavam. Voltou a surgir a questão se se devia investir dinheiros públicos no cinema português que não atrai muito público.

Em 2003, surge a última obra de João César Monteiro. “Vai e vem” é um filme que se passa muito em volta do bairro onde Monteiro viveu nos seus últimos anos de vida.
A personagem João Vuvu retrata Monteiro nesses anos, de chapéu de panamá e bengala.
Viúvo, sem família, a não ser o filho que se encontra a cumprir pena de prisão por duplo homicídio e assalto a um banco à mão armada, vive sozinho em casa sozinho, num bairro antigo de Lisboa. Pouco dado à socialização, efectua diariamente o seu passeio no autocarro nº. 100, entre a praça das Flores e o jardim do Príncipe Real. Apenas alguns acidentes de percurso podem episodicamente alterar este quotidiano que parece corresponder à vontade de isolamento do protagonista.
A saída do filho da prisão e a decepção que o seu desejo de regeneração provoca no pai, desencadeia uma série de sombrios acontecimentos em que a vertente criminosa do protagonista se manifesta e o condena a um destino definitivamente fora da lei e da comunidade.
Neste filme, aparecem as enormes preocupações que motivavam a vida e a obra do realizador, na filosofia, no sexo, na religião, na música e no cinema.

Todas estas obras, incluindo outras e as suas curtas-metragens, estarão incluídas no lançamento deste pack especial sobre João César Monteiro

Filmografia
– Sophia de Mello Breyner Andresen (1968)
– Quem Espera Por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1970)
– Fragmentos de um Filme-Esmola: A Sagrada Família (1972)
– Amor de Mãe (1975)
– Que Farei com Esta Espada? (1975)
– Veredas (1978)
– O Amor das Três Romãs (1979)
– Os Dois Soldados (1979)
– O Rico e o Pobre (1979)
– Silvestre (1982)
– À Flor do Mar (1986)
– Recordações da Casa Amarela (1989)
– O Último Mergulho (1992)
– O Bestiário (1995)
– A Comédia de Deus (1995)
– Lettera Amorosa (1995)
– Passeio com Johnny Guitar (1995)
– Le Bassin de John Wayne (1997)
– As Bodas de Deus (1999)
– Branca de Neve (2000)
– Vai e Vem (2003)

Livros
– Morituri Te Salutant (1974, & ETC) – Textos publicados na & ETC, Tempo e Modo, Diário de Lisboa
– Uma Semana Noutra Cidade (2000, & ETC)



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