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Terá o dia mais do que 24 horas?

Uma espécie de BI de João Miguel Fernandes.

João Miguel Fernandes é um rapaz muito ocupado. No último ano do curso de Comunicação e Cultura, depois de uma passagem por um limbo que incluiu alguns anos à deriva no mundo das leis e da senhora que segura a balança de olhos fechados, divide o seu tempo entre o site cultural Artefactos, a Associação Cultural Ecos, os amigos, a família e a namorada. Ainda por cima diz-se um mau gestor do tempo, o que nos faz pensar que conseguiu um acordo secreto com o Deus Cronos para acrescentar mais algumas horas ao dia de um comum mortal.

A Ecos, associação cultural responsável por grande parte dos concertos musicais que vão acontecendo em Setúbal, vive dos apoios que alguns dos espaços locais como o ADN vão dando, ou de uma competição saudável com a Experimentáculo, com quem a Ecos tem realizado inclusivamente alguns eventos em parceria. Apesar disso, só por uma vez os músicos não receberam cachet, o que significa que há aqui uma grande ginástica em termos de organização de eventos – para não falar de uma lista de contactos que faria inveja a muito bom promotor. O lema é mais ou menos este: arriscar sem contrair dívidas ou então, como nos disse João, “a brincadeira acaba”.

Se pudesse organizar um festival sem ter de estar preocupado a contar os tostões convidaria os Linda Martini: “a banda nacional de que gosto mais, muito pela presença em palco. Também gosto imenso dos Wraygunn”. Quanto a bandas de exportação, decidir-se-ia pelos Smashing Pumpkins e pelos Tool. Se pudesse desencadear um revival, tão na moda nestes dias que correm, não hesitaria um segundo: “os Genesis, com o Peter Gabriel a cantar. A minha banda favorita”.

O primeiro disco que comprou com o seu dinheiro foi o “These Days” dos Bon Jovi: “Marcou a minha entrada no rock, apesar de ser assim um rock mais soft. Ouvi-o quando tinha cerca de dez anos”. Outras rodelas sonoras que mais contribuíram para a sua atracção fatal pela música terão sido “Selling England by the Pound”, dos Genesis, e “Mellon Collie & the Infinite Sadness”, dos Smashing Pumpkins.

João Miguel Fernandes está a organizar o Festival Ecos, que vai decorrer em Setúbal entre os dias 28 e 30 de Outubro. Não existia qualquer cachet mas, contra todas as expectativas, o cartaz já está fechado e inclui nomes como Lydia’s Sleep, Ella Palmer, Moe’s Implosion, Filho da Mãe ou Azevedo Silva. João diz-nos que isso apenas é possível porque “os músicos têm noção de que é complicado ganhar da música. Muitas vezes vêm tocar por uma ninharia ou sem receber nada, apenas para ganhar popularidade ou porque as pessoas insistem. Apanhámos uma geração em que é possível fazer coisas deste género, se fosse há uns anos atrás se calhar não dava para fazer nada sem dinheiro”.

Se procuramos por concertos em Setúbal, o mais provável é que à sua organização esteja ligado o nome de João Miguel Fernandes. Pode com isso dizer-se que temos aqui uma espécie de Dom Sebastião da cena musical setubalense – ainda que não tenha saído para comprar cigarros para nunca mais voltar? “A minha referência em Setúbal, o meu exemplo, será sempre o Pedro Soares e a Experimentáculo. Porque existem há mais tempo e porque fazem mais coisas – e coisas mais a sério. Sinceramente, se Setúbal ainda tem alguma coisa é graças a ele e à sua equipa. O que acontece é que em Setúbal há poucas pessoas a organizar coisas, a dar a cara. A nível independente teremos a Câmara, a Ecos e a Experimentáculo. Recebemos propostas do país inteiro de bandas que querem vir cá tocar, mas por vezes não é possível – o eterno problema do cachet”.

Um dos objectivos para 2012 será organizar também alguns concertos em Lisboa: “em Setúbal é sempre uma incógnita. Uma banda que pode ser muito boa a nível nacional pode vir a Setúbal e não trazer ninguém”. Isto porque, apesar de se notar uma maior participação desta geração em relação a anteriores, “as pessoas  continuam a preferir gastar dez euros numa noite a beber cerveja do que dar três euros por um bilhete. As pessoas queixam-se muito mas depois também não vão. Há mais jovens interessados em cultura, isso é verdade, mas isso não quer dizer que vão a todos os concertos”.

Depois de se lançar na realização do documentário “Setúbal tem alma musical – um retrato sobre a música underground em Setúbal”, não faltam ideias para projectos no reino do audiovisual: “Gostava de fazer um documentário só sobre uma banda, que levasse aí uns dois anos a fazer. Acompanhar um grupo que fosse lançar um álbum daqui a um ano, que estivesse numa fase de composição inicial. Pensei nos Ella Palmer, mas não sei se o projecto irá para a frente com eles ou não. Gostaria também de fazer alguns episódios, coisas pequenas, sobre pessoas ligadas à cultura em Setúbal, fora da música também. E mais projectos hão-de sair de certeza. Não consigo estar parado”.

Fotografia de Raquel Silva



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