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João Onofre @ Galeria Cristina Guerra Contemporary Art

"Ghost", entre o documentário e a ficção

De Londres a Nova Iorque, de Barcelona a Paris, João Onofre tem vindo a apresentar o seu trabalho destacando-se não só em exposições individuais mas também colectivas. Agora, em Lisboa, o artista dá a conhecer “GHOST” (2009-2012), uma exposição a inaugurar dia 27 de Setembro pelas 22h e patente até 7 de Novembro, na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art.

Inserido na vertente cinematográfica do artista, “GHOST” está entre o documentário e a ficção; retrata a viagem a uma ilha com uma palmeira tropical (Howea Forsteriana) de 11 metros de altura. Ilha que atravessa a cidade de Lisboa até à foz, de oriente a ocidente e ao longo do rio Tejo, é palco de projecções do imaginário humano. Mas a presença de um elemento dificilmente reconhecido neste ambiente – a Howea Forsteriana –, torna-o somente um espectro, um local fantasma.

A visão contemplativa ao que acontece na ilha confere à viagem de “GHOST” uma dúvida: é ou não real? Essa dicotomia, que desde sempre ocupou um lugar na história do cinema, é um conceito e uma referência na obra de Georges Méliès e David Lynch.

O real e o irreal: a fronteira que muitos desejam conhecer na íntegra, aborda o inesperado, anula a ficção e liberta a realidade.

“GHOST”, de João Onofre está no limite dessa fronteira.

Preparados para a viagem?

Sobre João Onofre

Ao percorrer os desenhos, os vídeos e as fotografias que constituem a sua obra “(…) delicadamente violenta, perturbadora e indiscernível”, como já foi caracterizada, leva-nos a pensar sobre o objecto e a sua interpretação. Em “Untitled (green running dry)”, 2007, as palavras “green running dry”, em papel de algodão, são levadas à letra: a acção acompanha a linguagem, e a significação desta cede ao sentido único da frase. O mesmo acontece em “Five Words in a Line (Injection Extended Version)”, 2006, a descrição daquilo que se vê encontra-se detalhado no suporte físico da obra, onde João Onofre não deixa lugar às interpretações alheias do espectador – é aquilo e nada mais. “Duration, Variable and Location Piece (Unnumbered Extended Version)”, 2006, é mais uma demonstração desta característica do seu trabalho; a linguagem cumpre a sua função, representa e descreve um determinado momento, um determinado período de tempo.

Mas nem só nos suportes físicos o artista utiliza e representa a linguagem no espaço; também nas imagens em movimento que capta está patente esta caraterística. Exemplo disso mesmo acontece quando um barco é transportado por uma grua para a piscina privada de uma casa. A visão interior e exterior do acto de deslocação do barco alerta-nos, não só para a estranheza do acontecimento, mas também para a desconstrução do pensamento-comum que por meio da identificação do objecto acaba por o descontextualizar. “Untitled (Sun 2500)”,  2010, é, assim, sinónimo de desmaterialização.

Algo que também é visível em “Box sized Die featuring Sacred Sin”, 2007/2008, uma performance de João Onofre, que coloca uma banda de Death Metal no interior de um cubo de aço maciço. Limitados à resisitência física, os elementos da banda tocam o máximo de tempo possível, de “porta fechada”, como se pode observar no vídeo de apresentação da obra. Um teste à condição humana e um cruzar de culturas: uma sub-cultura musical e a cultura da imagem que, representada por um cubo, assume a simplicidade e a perfeição das formas geométricas. Tal como no vídeo onde uma ave solta voa limitada ao espaço fechado – o estúdio do artista. “Untitled (Vulture in the studio)”, 2003, não se trata de um grupo musical, mas sim de uma espécie animal. Ainda no vídeo, a obra “Thomas Dekker an Interview”, 2006, trata-se de uma entrevista ao actor norte-americano Thomas Dekker que no filme “A Cidade dos Malditos” desempenhou o papel de uma criança alieníngena que sentia afecto pelos humanos. Fora da narrativa cinematográfica, João Onofre interroga o actor como se este ainda fosse um alien. Durante 16 minutos são revelados os hábitos de vida de um extraterrestre, a viver no nosso planeta desde então. É um passar para o outro lado, uma tentativa de cruzar e confundir os termos ficção e realidade.

Adaptação, interpretação e documentação, contrastes e analogias, representação e acontecimento físico, espaço e linguagem, significado e tautologia – termos que expressam a mesma ideia de formas diferentes – tudo isto é João Onofre.



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