A Jigsaw | Entrevista

João Rui | Entrevista

“Não concebemos a canção sem a palavra”. Conversámos com João Rui, o vocalista, sobre ilusão, morte e literatura, temas bem presentes no disco “No True Magic” lançado ainda em 2014, mas que tem muito para dar neste novo 2015

É inevitável ouvir A Jigsaw e não ser automaticamente transportado para um bar escuro onde ouvimos Tom Waits, encavalitado sobre o piano a tocar o «Rain Dogs» ou para o quarto onde já chorámos um amor perdido ao som do «Dance Me To The End of Love» do Leonard Cohen. Comparações à parte, a verdade é que o duo de Coimbra tem-se distinguido como um dos mais interessantes projectos de música portuguesa. E já lá vão quinze anos, acreditemos ou não.

Após quatro álbuns de estúdio e mais uns quantos EPs, os A Jigsaw continuam fiéis à sonoridade que os caracteriza, a folk, e a contar histórias de homens perdidos pela condição humana ou a fazer pactos com o diabo numa qualquer encruzilhada. Conversámos com João Rui, o vocalista, sobre ilusão, morte e literatura, temas bem presentes no disco “No True Magic” lançado ainda em 2014, mas que tem muito para dar neste novo 2015.

“No True Magic”… Porquê este título, significa que já não acreditam na magia?

O que nós estamos a falar é sobre a forma como encaramos a nossa própria mortalidade, que já em si é mantermo-nos suspensos nessa ilusão, e é uma pena. A verdadeira magia é algo que não existe.

Todos os vossos discos têm um conceito associado e neste último exploram o conceito da imortalidade…

Sim, da suspensão da mortalidade. É sempre complicado explicar o conceito em poucas palavras, mas nós falamos da aceitação dos termos da imortalidade. Quem fala muito bem sobre isso é o Samuel Colridge, da «suspensão do julgamento da implausibilidade de uma determinada narrativa», ou seja, da suspensão da mortalidade. E ele falava disto nos últimos dias do romantismo, em que ele sentia que as pessoas estavam a perder o seu encantamento pelas coisas, pelo imaginário fantástico, estavam a perder a capacidade de acreditar. E o que nós, seres humano,s fazemos muito é isso, acreditar que vamos viver para sempre. E o “No True Magic” é uma metáfora para isso.

Como é que o tema consegue espelhar-se nas canções?

Nós criamos os álbuns como se fossem livros; então, cada canção é como se fosse um capítulo do livro, ainda que por vezes possa parecer aleatório ou desordenado. São pequenas narrativas. Há canções que são histórias, há outras que são vivências desses personagens que criámos. Uma das músicas do disco chama-se «The Greatest Trick» e que tem a ver precisamente com o tema da magia e da ilusão. Conta a história do primeiro truque de magia a aparecer na televisão em que curiosamente a emissão caiu a meio e muitas pessoas pensavam que a rapariga que estava envolvida no truque tinha morrido. Essa canção é construída em torno dessa história e desse truque de magia, o primeiro a ser transmitido na televisão.

E o que vos levou a esse tema?

Quando já estávamos para entrar em estúdio para gravar o “No True Magic” começámos a pensar no que queríamos fazer a seguir e a nossa ideia era criar um álbum ainda mais negro que o anterior. E decidimos ir mais fundo. Foi aí que surgiu o tema da morte. Por norma, as nossas histórias acabam por estar mais centradas no indivíduo e há sempre um manancial imenso para explorar que é o nosso interior. E a morte é mais uma daquelas temáticas que diz muito respeito a nós e à nossa identidade enquanto indivíduos.

A música também acaba por ser uma forma de vocês, enquanto músicos, suspenderem a vossa mortalidade?

Sim, no sentido de deixarmos a nossa marca (risos). Também enquanto formos ouvindo as canções elas estarão vivas, não necessariamente o autor. Podemos gostar imenso de uma canção e depois o autor ser um canastrão! E isso acontece. Autores de peças lindíssimas que depois são doidos varridos! Mas é a canção que sobrevive e será ainda mais imortal do que a própria pessoa.

O vosso universo musical tem muito a ver com o final de século XVIII e todas aquelas crenças populares que naquela altura estavam tão presentes nas vidas das pessoas. O que vos fascina nesse ambiente?

Creio que essa imagem que passa esteja mais relacionada com o cariz das fotografias que acompanham este álbum, mas não era nossa intenção recriar essa atmosfera. Obviamente que para nós, e dado à musica que fazemos, essa época nos encanta. E nota-se isso, mesmo pelos nossos instrumentos que são quase todos muito antigos e extremamente frágeis. Isso remonta também a essa época e existe um certo romantismo em relação a ela. Os meus escritores favoritos são também dessa altura.

A Jigsaw

Há pouco dizias que os vossos álbuns são construídos como se fossem livros. De que forma os livros que estão a ler no momento da criação dos discos influenciam o vosso processo criativo?

A literatura para nós é tudo. Nós não concebemos a canção sem a palavra. Para nós é algo de extrema importância e já o Saramago dizia que quem quer escrever tem que ler ainda mais. O que acontece muitas vezes nos projectos musicais é ouvir-se mais música e depois falta a parte da literatura. Mas ainda assim há músicos que o fazem muito bem como é o caso do Leonard Cohen, Tom Waits ou Nick Cave, em que a parte da palavra é tão importante como a música. E para nós foi sempre aquilo que distinguiu o que é uma boa música. A partir do momento em que decidimos escolher o tema da morte para o disco fui investigar bastante sobre o assunto em termos literários. No caso da magia, li “The History of Magic”; outro livro que tive que consultar foi o “Fausto” de Goehte para compreender a forma como ele lida com a morte. Ou o “As I lye dying” do William Faulkner e tantos outros. Para além de que eu sou um ávido leitor (risos).

Também noutros discos têm sempre colaborações com vozes femininas, como a Tracy Vandall e agora com a Carla Torgenson (Tindersticks, Walkabouts). Como é que surgiu essa oportunidade sendo ela norte-americana, foi difícil?

Obviamente foi difícil porque nos separa um oceano. E é importante explicar a razão pela qual convidamos mulheres para cantar algumas das nossas canções. Não é à toa. São canções cuja narrativa tem um papel feminino que deve ser interpretado por uma mulher, e é por essa razão que as escolhemos. No caso da Carla, é uma paixão já muito antiga e que surgiu quando ouvi a música «Travelling Light» do segundo álbum dos tindersticks em que ela acompanha o Stuart Staples. Quando começámos a escrever o álbum disse para mim mesmo que a canção «Black Jewelled Moon» era para a Carla Torgenson e se ela não cantasse aquela musica mais ninguém a iria cantar.

Quando terminei de a escrever comecei a pensar como iria convidá-la. E era um problema porque não sabia como encontrá-la. O único perfil que eu consegui encontrar foi o de Chris Heckman que na altura do “Like a Wolf” nos tinha enviado uma mensagem a dizer que tinha gostado muito da música. Então entrei em contacto com ele e pedi-lhe o contacto da Carla. Passados uns dias, vejo no meu wall do Facebook uma mensagem da própria Carla a dizer que já tinha ouvido a música e que aceitava o convite. E para mim foi uma surpresa. A canção foi gravada no Wakatake Studio em Seattle e quando ela nos enviou a gravação foi um momento tremendo. Foi como que um sonho tornado realidade.

Como é que vêem a vossa evolução enquanto banda até aqui?

Com este álbum, finalmente sou apenas eu e o Jorri que estamos juntos desde o princípio e é entre nós os dois que temos que encontrar aquele equilíbrio. Não há o terceiro elemento que havia nos álbuns anteriores. Estamos numa altura de promoção do álbum e como somos só dois decidimos criar uma banda de suporte para salas maiores que são os The Great Moon Shiners Band do qual fazem parte o Vitor Torpedo na guitarra eléctrica, o Pedro Serra no contrabaixo, a Tracy Vandall na voz, Guilherme Pimenta na bateria, e Maria Côrte no violino. Tentamos sempre recriar os sets das canções e em 2015 a nossa tour pelos auditórios contará sempre que possível com a presença de The Great Moon Shiners Band. Queremos celebrar esta passagem de tempo com o público que vai aos nossos concertos e dar-lhes também alguma coisa diferente.



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