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“Tabâto” e “A Batalha de Tabâto” em Berlim

Entrevista com João Viana, realizador que leva dois filmes à 63ª Berlinale

João Viana desde cedo se entregou ao Cinema, mas só em 2004 realizou, por fim, a sua primeira curta-metragem, “A Piscina”, a qual esteve nomeada no Festival de Veneza. Depois ainda veio Alfama”, que competiu em Clermont-Ferrand.

Chega agora a vez da 63ª Berlinale em Fevereiro, com dois filmes seus em competição; “Tabâto”, que integra a categoria de Curtas-metragens e “A Batalha de Tabâto”, a primeira longa-metragem do realizador, que concorre na categoria Forum, a secção mais maluca e artística.

Relembremos que o ano passado João Salaviza conquistou o Urso de Ouro em Berlim, com a curta-metragem “Rafa”. E Miguel Gomes também, no mesmo festival, venceu os prémios da crítica e da inovação com a longa-metragem “Tabu”. Antes disso, os portugueses não passavam pelo dito festival há cerca de 20 anos.

João Viana esteve com a RDB no Centro Cultural Malaposta, onde será exibido o seu documentário “Ó Marquês anda cá abaixo outra vez!”, no próximo dia 25 de Janeiro. Este filme fez parte da programação do DocLisboa 12, Secção de Cinema de Urgência. Pretende alertar para a situação actual e grave em que o Cinema português se encontra e a mensagem deste filme de 60 minutos deveria chegar ao maior número de pessoas, principalmente aos que nos governam. O elenco está formado por cerca de vinte realizadores, tais como João Salaviza, Edgar Pêra, Manuel Mozos ou João Pedro Rodrigues.

 

 

Fala-nos um pouco destes dois filmes em competição na Berlinale

Os filmes são o “Tabâto” e A Batalha de “Tabâto”. Com nomes similares, pouco têm a ver um com o outro, contudo, complementam-se. Ambos foram filmados em Tabâto, na Guiné-Bissau, contam com o mesmo elenco principal, Mutar Djebaté, Fatu Djebaté e Mamadu Baio. Mas centram-se em argumentos diferentes e exploram durações distintas, um tem 13 minutos e o outro 80.

Qual o parentesco entre os Djebaté?

São tio e sobrinha.

Nasceste e viveste em Angola, mas escolheste a Guiné-Bissau para filmar estes dois filmes

A verdade é que estou um pouco chateado com Angola, vivi lá até aos 8 anos. Por outro lado, a Guiné é o terceiro País mais pobre do mundo. Há 12 anos houve uma guerra (apareciam crianças mortas nas ruas e tudo) e desde aí todos os anos morrem pessoas assassinadas, há golpes de Estado e os direitos humanos estão completamente em risco. O País está de rastos e a escravatura ainda está muito enraizada. A Guiné é uma plataforma de droga e está entregue à desgraça.

Conheci um músico alemão que me comentou que gostaria de ir uma temporada para uma aldeia aprender a tocar djambé, na Guiné-Bissau, chamada Tabâto. Era uma aldeia só de músicos. O que me surpreendeu, sendo eu africano, foi que um alemão quisesse viajar para África para aprender música, quando ao longo de anos me lembro de ser ao contrário, os miúdos partiam de África para a Alemanha para, precisamente, estudarem música.

Cheguei a Tabâto e fiquei maravilhado com o que vi, pareceu-me um oásis no meio de África. É uma aldeia de reis e príncipes, são aristocratas, nobres, de sangue azul.

Estes dois filmes tiveram um custo elevado?

Um décimo do “Tabu”.

Esperas que os Tabâtos sejam premiados em Berlim?

Sim, pelo facto de dois portugueses terem ganho no ano passado as expectativas das pessoas e do publico são que eu tenho obrigatóriamente que ganhar. Há uns ano estar em Berlim era uma maravilha. Portugal não esteve lá representado durante 20 anos, por isso este ano é obrigatório ganhar, tal como o ano passado, para este trabalho fazer sentido.

Como surgiu o Cinema na tua vida?

Fiz um pouco de tudo antes de realizar o meu primeiro filme em 2004, “A Piscina”. Passei pelos vários campos, produção, som, story-board e por último escrevia argumentos. Depois de trabalhar com muitos realizadores e em vários filmes, acabei por realizar o meu próprio filme, mas já desde os sete anos que sonhava em ser realizador.

E tiveste formação em Cinema?

Não, estudei Direito porque o meu pai me incentivou a isso. Como não estudei Cinema, fui fazendo um pouco de tudo, acontece aos autodidactas, depois fica-se ligeiramente desfocado. Não percebo muito de técnicas cinematográficas, apenas por isso acho importante frequentar a escola de Cinema, porque de resto não a percebo. O mais importante para fazer um filme não se aprende numa escola de Cinema.

Em relação ao direito, o meu pai dizia que um artista tinha que ter uma profissão dita “normal”, para ter os pés assentes na terra, porque senão perde-se o Norte. Ainda não tenho a certeza até que ponto isso é totalmente verdade, ando a reflectir e a descobrir ao longo da vida.

Fala-nos um pouco sobre o teu documentário “Ó Marquês anda cá abaixo outra vez”!

O Cinema tem um poder fortíssimo na sociedade, funciona como uma arma. Se for bem orientado, torna-se muito útil para divulgar as realidades actuais. Os tempos que correm são terríveis, começam a ser um pouco assustadores até, as coisas estão muito complicadas e o Cinema pode representar essa realidade e consciencializar as pessoas, por isso é bom ter os pés na terra e ter o tal Norte na vida.

Não há subsídios para o Cinema, não nos querem deixar expressar o importante por isso nos cortaram as asas. No filme “Ó Marquês anda cá abaixo outra vez!” retrato bem este problema actual. Apesar de ser um documentário, tem um lado ficcional. É importante que este filme seja visto pelo maior número de pessoas, a mensagem precisa de correr. O filme foi acabado há três meses atrás, tem uma enorme actualidade e desde aí a situação só se agravou. Os concursos não abrem, prometeram que abriam em Janeiro, mas nada acontece. Não há dinheiro, só há promessas não cumpridas. Há dois anos que não há subsídios. A situação do Cinema não é nenhuma brincadeira, o governo só nos está a iludir.

Em relação “A Batalha de Tabâto” dizem:

“Há 4500 anos, enquanto tu fazias a tua guerra, criámos a agricultura.

Há 2000 anos, enquanto tu fazias a tua guerra, criámos a boa governação dos reinos.

Há 1000 anos, enquanto tu fazias a tua guerra, criámos o chão do reggae e do jazz.

Hoje, perante a tua guerra, criaremos contigo a tua paz.”



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