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João Viana

“Primeiro vem a juventude, depois a idade adulta”.

O nome é João Viana. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra em 1994 e tendo estudado Cinema no Porto, surge em nome próprio em 2004 com a sua curta-metragem “A Piscina”. Realizada em colaboração com Iana Viana, a película revela-se um hipnótico ensaio acerca do mundo que nos rodeia ou, em última instância, acerca da Vida. Em contenção no espaço de uma piscina pública, é percorrendo este que brotam os sentidos: as crianças que brincam atrás do muro e tentam trespassá-lo, as imposições de uma vida adulta e o mergulho na água, para voltar à superfície.

Este percurso é contado sem interrupções: João Viana filma “A Piscina” em plano-sequência.

O plano-sequência de “A Piscina” surgiu de uma exigência conceptual ou de uma vontade de uma perspectiva particular de abordar o Espaço?

“”A Piscina” podia ter sido filmada em qualquer recinto. No início estava para ser em Tróia, num complexo belíssimo, fechado a sete chaves. Só não se filmou lá, porque à ultima hora os proprietários tiveram medo das condições de segurança ou lá o que era… Mas é evidente que quando filmas há sempre adaptação. A matéria é como uma mulher, resiste invariavelmente às tuas ideias mas com trabalho, amor e paciência deixa-te filmar.”

Assistimos a este contínuo fluxo de personagens que vêm e vão e é daqui que nasce a inquietação: ouve-se música e esta é física (existe um músico que toca num amplo espaço exterior), perde-se a inocência (os vícios e imoralidades materializam-se perante a câmara) e culmina-se numa simples fotografia.

“A Piscina” culmina com uma fotografia que se desvanece até aos créditos, um pouco à semelhança de “Wavelenght” (de Michael Snow), em que a câmara se vai deslocando até uma fotografia na parede de uma sala. Esta sugestão de ligação umbilical entre o Cinema e a sua origem transporta consigo a ideia de que o futuro desta arte deve ser procurado no seu passado?

“O que me inquieta n’a fotografia de “A Piscina”, é aquela história que toda a gente conta numa situação de perigo: “Eh pá! Vi a minha vida a passar toda à minha frente!” A Piscina é assim, uma longa viagem que no final nunca deixou de sair de uma só imagem. Mas só se descobre isso no final. A ligação à fotografia é também a viagem pelos três estados da matéria: o estado sólido (o muro inicial atravessado por uma grua), o estado liquido (a câmara subaquática), o estado gasoso (montagem do filme à fotografia). O futuro do cinema deve ser procurado em todas as outras artes além da fotografia. “A Piscina”  faz ligação à  pintura (“A Dança” de Matisse) que já estava ligada, desde 1913, à música ( “A sagração da Primavera” de Stravinski) à dança (do Niginski). Alguém disse que dançar, leia-se pintar ou filmar, é “estabelecer um contacto visceral com as forças misteriosas da natureza”. Inspirador, não?”

Seria, contudo, com “Alfama” que o realizador viria a marcar a sua posição no panorama audio-visual nacional. Estreada em 2010, “Alfama” não foi poupada a elogios a nível internacional: esteve em competição na 33ª edição do Festival Internacional de Curtas Metragens de Clermont (França), venceu o Grande Prémio no Festival Internacional de Aubagne (também em França). Também a nível nacional ganhou o Prémio Ficção do Festival Curtas Sadinas, Melhor Filme Experimental no Ovarvídeo 2010, Melhor Fotografia no Festival Arouca Film 2010 e menção honrosa na categoria de Vídeo Ficção no Festival Black & White, entre vários outros. Filmada num comboio em andamento, o filme acompanha uma história de amor e traição contada em tempos modernos.

Calculo que filmar num comboio em andamento (“Alfama”) seja um dos maiores desejos de um cineasta, não só pela metáfora entre a maquinaria e o Cinema, mas também por todo um universo de ritmos e movimentos. Consideras que o “Alfama” só faria sentido neste contexto?

“A humanidade variou ao longo do tempo mas não muito. Quando surgiu o fogo assustámo-nos. Quando surgiu o cinema assustámo-nos. Pensávamos que o comboio ia sair da tela. Perante o telemóvel o medo é igual. Basta que o telemóvel toque inoportunamente e assustas-te mesmo. Filmar a traição ou o medo no nosso tempo só faz sentido neste universo, que dizes, de ritmos e movimentos que é o da nossa arte, e o cinema é a borboleta ferida a dançar em torno da lâmpada, não é?”

João Viana usufrui das peças de “Alfama” para se referir também aos nossos tempos e ao Cinema em si.

O nome da curta “Alfama” surge quando o enredo é passado num comboio em andamento que parte da estação de Santa Apolónia. Será esta memória do ponto de partida matéria de Cinema, ou procura-se alguma relação entre isto e o percurso e a chegada?

“A tua pergunta é mais interessante do que o que te vou dizer. A traição amorosa não é de hoje, no “Alfama” há, pelo menos, três tempos: O tempo do fado (O “Alfama”), nascido há 200 anos, o tempo dos comboios, nascido há 100, e o tempo dos telemóveis, que é o nosso. Mas a traição é a mesma. Será que faz parte do amor? Isso faz medo. Só depende de ti.”

Mas o realizador acaba por ser bastante mais específico do que isto, quando questionado relativamente à implantação do seu Cinema e respectivas raízes.

Assistimos a vários referências a algum apreço pela tradição: pela bandeira hasteada no início de “A Piscina” ou pela fadista Carminho a participar da trama em “Alfama”. Como surgem estas referências?

“Tu fazes o cinema com o que tens, com os percursos, com os sons da janela, com o que aconteceu no dia anterior. Entramos todos na morte às arrecuas. O que vês diante de ti é a tua vida, no lugar onde ela decorre. Na tua rua. Na minha, até há pouco tempo, só via bandeiras e ouvia a Carminho. O que vale é que ela não canta mal”.

O ponto-chave de “Alfama” passa exactamente pela decomposição da Mulher: se de início somos levados a encontrar na personagem feminino uma pureza e inocência inerente à sua condição, depressa somos confrontados com um paralelismo que a deixa a nu. João Viana trabalha neste território instável onde as suas dúvidas, arrependimentos e desespero saltam directamente para primeiro plano.

A figura feminina é decomposta ao longo de “Alfama”, projectando o complexo de Perséfone. Interessante será notar que a transição se dá à medida que o comboio avança. Consideras que esta mutação é matéria-prima do teu Cinema?

“Agradeço a questão. Acho que sim. Essa transformação estava indiciada no guião. A Inês Fouto fez tudo o resto. Era espantoso ver a Inês ao lado do “marido” ou do jovem “amante”. Ora ela envelhecia ora ficava outra vez jovem. É a meia idade e o talento da Inês. Ela tanto pode fazer de jovem como de mais velha. Eu limitei-me a fazer com ela o que já tinha feito n’ “A Piscina”: Ordenar as coisas, primeiro vem a juventude depois a idade adulta, justamente”.

Conscientes das dificuldades económicas e criativas de criar Cinema em Portugal, interessámo-nos por saber como lida o jovem realizador com esta realidade.

Como cineasta tens algum objectivo definido para a tua carreira? Como têm surgido as oportunidades e qual o trilho que pretendes percorrer?

“Acho que isso da carreira vem por acréscimo e não pode ser vista a olho nu, muito menos pelos próprios. Em 30 anos fica tudo no sítio. Mas é preciso que o tempo passe. No meu caso não me queixo. Sempre que tens um projecto em que acreditas verdadeiramente o dinheiro aparece. Se a torneira fechar para mim paciência. Volto ao meu primeiro emprego no cinema: ler livros para os produtores. Se ainda os houver. Sabes? Gostava que o mundo ficasse melhor. Isso é que era.”

O que podes revelar sobre os projectos em que estás a trabalhar?

“Estou a terminar a rodagem da minha primeira longa. Para já tenho a equipa doente. Metade está com paludismo a outra está com febre tifóide. O barco onde viajámos com a equipa e equipamento afundou com 109 pessoas a bordo. Ainda não sei se conseguiremos que nos tirem deste filme. É uma ficção contra a guerra onde trabalho o meu absoluto e velho respeito pelo povo mandinga. Há 4500 anos os mandingas inventaram a agricultura. Há 2000 com o Sundjata criaram a boa governação dos reinos. Há 1000 criaram o chão do reggae e do jazz. Hoje estou convencido que eles estão, em plena áfrica subsariana, a inventar a paz. Para o ano mostro-te.”



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