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Joaquim Monchique (16x) Paranormal

Este “Pai Adamastor”, fora de si, desempenha dezasseis personagens em palco, fora do sério.

A RDB foi ao Teatro Estúdio Mário Viegas, em Lisboa, assistir a “Paranormal“, uma adaptação de Joaquim Monchique ao texto de Miguel Falabella, em cena há mais de um ano, um pouco por todo o país.

Quase a medo e, mais ainda, contagiados pela exaustão, arriscámos ir ao encontro de um Joaquim Monchique zombie, nos bastidores, depois do desempenho nonstop das dezasseis personagens que interpreta em palco.

Não acredita no que tenta fazer crer ao público. Vida extraterrestre sim, “paranormalidades” não. Fenómenos fora da realidade que conhece ou já viu são coisas que “só” representa, mas com a vivacidade e fé de um pastor (o Pai Adamastor) que convence o seu público, em duas horas, a prestar-lhe a vassalagem incauta de um “rebanho” bem amestrado e disposto. “O bom desta profissão é fazer-vos acreditar no que nós quisermos!”, diz ele.

Filho único e mimado assumido, Joaquim Monchique foi uma criança “muito feliz. Sempre me deixaram fazer tudo o que queria”. Aos seis anos já sabia que ia ser actor: “Ouvi palmas e risos no teatro da escola. E pronto”.

Já “papou” as biografias de quase toda a gente que admira e “Cinema Paradiso” é um dos seus filmes de referência. O “Hamlet é chatíssimo”, os papéis mais interessantes são sempre de mulheres, e pagava para poder representar num filme do Almodôvar.

Agora é “O” senhor das dezasseis caras, só mostra uma, e a sua farpela branca de professor esotérico assenta-lhe na mesma medida do ajuste que dá à troca desenfreada das suas personagens: como uma luva.

“O grande segredo da vida é a vida”, por isso, Joaquim Monchique anda à procura…

Um ano em cena, mais de 100.000 espectadores. Como é, não te cansas?

Acabo morto. Acabo sempre todo “oxigenado”. Às vezes penso antes de entrar “Meu Deus! Falta tanto… Ainda vou ter de estar para aqui duas horas a dizer coisas!” São 90 páginas de texto, esta peça é muito violenta fisicamente. E psicologicamente também, porque temos de estar umas horas alheados do mundo, da nossa vida. Procuro sempre descansar um bocadinho à tarde mas, nesta época festiva, com Popotas e bonecas… é muito cansativo. Mas é também bom porque nós, quando somos pequenos, gostamos que nos contem histórias, e é essa a função de um actor: contar histórias. Pode ter interesse ou não, não é a base que interessa, mas o que se pode apanhar de toda a história, de todos os defeitos e qualidades das pessoas. É um texto muito bem escrito do meu amigo Miguel Falabella. Teve um milhão de espectadores e cinco anos em cena. Obviamente não sempre seguidos, parava para descansar e depois voltava. Como eu: estive um ano em cena, depois fui para o Brasil fazer uma novela, e agora, quando voltei, um ano e dois meses depois, voltei com frescura. Voltei a estrear em Bragança numa sala maravilhosa, fiz um ensaio à tarde e não me lembrava de algumas coisas. Na noite da estreia, com as luzes e com a música a que estava habituado, parece que entramos numa redoma, saiu-me tudo. É muito engraçado, mas foi um processo duro. É uma peça que me tem dado muitas alegrias. Mas é muito cansativa também…

Ainda cometes gafes?

Gafes… acontecem às vezes, quando o público ri em sítios onde não é suposto rir. Tenho tudo cadenciado na minha cabeça, até o riso. Eu sei os tempos em que as pessoas vão rir, onde vão rir, quanto tempo vai durar… Numa sala com muitos lugares já sei que vai demorar muito mais tempo, porque eles riem mais. O riso tem uma função que aniquila e faz nevoeiro sobre o resto, porque é uma coisa que anda para trás e tem pernas e a pessoa deixa de ouvir, por isso temos que deixá-los rir. Quando riem fora do tempo, às vezes baralho-me. Ando ali às voltas, mas depois lá os apanho. Gosto de salas grandes porque fico numa redoma de concentração e ganho uma distância que aqui não tenho. Em salas pequenas oiço o público falar e rir.

Acreditas no Paranormal?

Não acredito em nada disso. A única coisa que acredito é que há extraterrestres, a partir daí não há mais nada. Acredito que nós somos o discernimento duma civilização avançadíssima que nos pôs aqui e que nos está a observar. É tão redutor pensar que num universo tão grande só nós é que cá andamos… Portanto devem haver umas civilizações mais avançadas, outras menos, e nós somos um instrumento para ver “como é que é isto”. Talvez haja coisas paranormais mas eu, como nunca vi nenhuma, sou como o Frei Tomás: só vendo para crer. Mas o bom desta profissão é fazer-vos acreditar no que nós quisermos.

Com qual das tuas dezasseis personagens criaste mais afinidade?

Criei com todas elas. A peça é geográfica. Em Lisboa gostam muito da velhota que vive em Mem Martins. No porto da tripeira bairrista. Gosto de fazer a “tia rica”, a Ilda. Tem um discurso que eu gosto, está a borrifar-se para tudo. Ela já é muito rica e, como diz o Miguel (Falabella) com muita sapiência “só os pobres e os ricos é que se divertem neste mundo”. Os do meio, os da classe média, passam a vida inteira a tentar ser interessantes, a ir à igreja, a tentar que tudo pareça bem… Os pobres divertem-se muito mais. E os ricos também. Gosto da cozedura do texto que o Miguel faz, estão sempre a acontecer surpresas. Conheci-o há oito anos e tivemos logo uma afinidade muito grande. Vemos o mundo pelo mesmo prisma, usamos o mesmo binóculo, gostamos das mesmas coisas, da mesma loucura do mundo…

A que atribuis o sucesso que a peça tem tido?

A base de qualquer sucesso é como a de um cozinhado: ter bons ingredientes. Um bom Cozido à Portuguesa se tiver umas boas couves, umas boas batatas do campo, boa carne, e se for feito com carinho, sabe melhor. No teatro é igual: um bom texto, talento para cozinhá-lo, bons actores para o fazer e tudo embrulhado num cenário engraçado. Esta peça pode ser feita em qualquer parte do mundo, o humor é geográfico, os sentimentos são globais, a perda, o amor, o ódio… Ela resulta em qualquer parte do mundo; é boa. Depois, se tiver alguém muito enlouquecido para a fazer… Este é, realmente, um trabalho de loucura. E é ver cada personagem por um “canal” de modo a que vocês fiquem todos…“apanhados”.

“Paranormal” já esteve em quase todo o lado. Houve alguma situação que te tenha marcado mais?

Houve uma situação no Porto em que uma senhora se urinou toda, e foi muito engraçado… Eu consegui ver, porque há sítios em que a luz é tanta, conforme a sala, que cegamos completamente. Eu gosto disso, para me concentrar. Mas por acaso vi, naquela que foi a última noite de representação no Porto, a sala estava esgotada, vendemos bilhetes extra, devia ter umas mil e tal pessoas… Davam a volta à praça. Estar no hotel e ver as pessoas em fila a comprar bilhetes, é muito engraçado isso. Faz muito bem ao ego, nós somos egocêntricos, e é por isso que os actores estão no palco e as pessoas sentadas. Ter uma sala a urrar faz todo o sentido.

Concordas com a crítica que te confere, por este trabalho, o estatuto de “génio”?

Acho que tive sorte. Nós não temos “bitola”, temos uma ligeira noção mas, nesta profissão, nunca sabemos o que o público gosta. Se tivermos um bom texto, se o soubermos embrulhar bem, se gostarmos do que fazemos… Eu acho que sei embrulhar bem as peças. Já a peça do Miguel que eu encenei cá, “A partilha”, com a Teresa Guilherme, foi um êxito brutal pelo país, e voltou e tornou a voltar, e deu na televisão, e teve 60 mil espectadores… São duas forças que se juntam, o Miguel e eu, e as pessoas percebem que somos os dois doidos e que aquilo resulta bem.

E a seguir?

Espero que a próxima peça seja um êxito também. Comprei na Argentina, chama-se “Mais respeito que sou tua mãe”, o título é maravilhoso. Sou eu mais onze pessoas, já estou farto de estar sozinho; vou encenar, vou adaptar, faço o cenário e dirijo os actores. É uma família da Baixa da Banheira, completamente enlouquecida, acontece-lhes de tudo, e é um êxito na Argentina. Deve estrear em Março ou Abril num teatro grande…

O que te dá mais entusiasmo fazer?

Representar. E viajar. Gosto de tudo por igual. Não tenho aquela preferência. Quando faço muita televisão tenho saudades do teatro. Quando estou a fazer teatro tenho saudades da televisão. Embora eu ache que a nossa casa mãe é o teatro, pelo menos para mim que sou muito teatreiro. Gosto dos corredores, do cheiro do palco, de ver o público a entrar e sentar-se… Acho tão bonito. Eu tenho de agradecer em primeiro lugar às pessoas, porque é cada vez mais difícil tirá-las de casa. Temos tantas coisas à nossa disposição, Internet, filmes, DVD… portanto, arrancá-las de casa com frio, fazer com que tomem banho, que se arranjem para ir ao teatro… Não é como ir ao cinema; acho que ainda é um culto, vão ver o artista ao vivo e comentar sobre ele. Oiço as coisas mais díspares na plateia. O teatro é mágico, é uma experiência que fica na nossa memória para sempre. Uma das coisas que gostava muito de ter, já não há-de ser no meu tempo, era uma máquina do tempo. Que uma pessoa pudesse programar uma data e um sítio, ir lá e voltar. Eu iria visitar a Beatriz Costa que era genial, e ainda hoje é moderna. O Vasco Santana que era um actor extraordinário. O teletransporte deve ser tão bom… Ver o Frank Sinatra ao vivo… Eu não parava um bocadinho!

Sentes retribuição pelo teu trabalho?

Uma senhora agarrou-me pelo braço e disse: Já posso dizer aos meus netos que o vi representar ao vivo!. Esta é uma paga que o dinheiro, em Portugal, não nos dá. É um elogio muito bonito. Não é?

Quando sais à noite o que te faz dançar?

Gosto muito de House Music, para conduzir e para dançar. Sou muito eclético, gosto de tudo, e tenho um Master Degree em música dos anos 50 mas, para dançar, House.

Gostavas de entrar num filme do Almodôvar?

Até pagava! Ainda por cima conheço-o. Ele veio a Lisboa, havia pouca gente que soubesse falar espanhol e eu sei muito bem. É claro que ele aglutinou-me e eu disse-lhe que até lhe pagava para entrar num filme seu, entregar flores… o que fosse só para ficar lá o meu nome na ficha técnica.

Os teus maiores defeitos e qualidades?

Sou muito impaciente, quero tudo para ontem. Sou muito ansioso, quero que as pessoas que trabalham comigo sejam muito rápidas, muito inteligentes, muito espertas… É difícil lidar com isso, sou muito rápido e consigo fazer muitas coisas ao mesmo tempo, isso é uma qualidade, mas tenho os defeitos de um filho único. Quero vassalagem, quero entourage, muita gente à minha porta. Acho que sou um bom amigo, sei que as pessoas querem estar ao pé de mim para se divertir. É uma situação de palhaço que às vezes me agrada, mas outras vezes…

Como achas que vais estar daqui a vinte anos?

Não sei… Espero estar todo enxuto. E já ter um teatro meu.

Um dia perfeito para ti?

O dia todo de pijama em casa. E que ninguém me diga nada!

O “Pai Adamastor” muda de face sem avisar, e leva tudo atrás. Para quem nunca imaginou “fiéis” a rir desenfreadamente de seu “Mestre Monchique”, durante 180 minutos, Paranormal é “aquela” oportunidade. Aos que gargalham fácil e aos que não vão em comédias; aos crédulos e aos cépticos… encasqueta tudo e todos.



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