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John Zorn + Cyro Baptista

Ao vivo na Casa da Música.

John Zorn é uma personagem única do mundo da música contemporânea e, de entre os muitos rótulos que poderíamos escolher, optamos agora apenas por estes: figura máxima do jazz avant-gard, compositor entusiasta dos mais variados géneros musicais, criador da editora Tradik, prolífero colaborador em um sem-número de projectos e com um sem-número de gente importante (que vai de Marc Ribot a Mike Patton, passando pelos Napalm Death) e claro, mentor dos míticos Naked City.

No entanto, se em vez de John Zorn + Cyro Baptista, o concerto do passado dia 26 de Fevereiro, na Casa da Música no Porto, tivesse sido apresentado ao contrário, certamente ninguém se teria importado. É que a actuação do músico brasileiro foi tão impressionante que, em certos momentos, John Zorn poderia muito bem ser o músico convidado.

Quando às Ttukunak, a discrição só se deu mesmo na ausência do seu nome do cartaz e na forma tímida e humilde com que comunicavam com o público e o resto da banda. Fora isso, a presença musical das duas irmãs gémeas bascas foi tão intensa quanto o espectáculo que proporcionaram ao público de Sines, em 2007, no Festival Músicas do Mundo. Exímias tocadoras de txalaparta, instrumento de percussão de madeira que consiste numa sucessão de vigas de madeira ou metal apoiadas paralelamente, as Ttukunak foram o elo de ligação mais telúrico que apertaram as rédeas à improvisação free de Zorn e à improvisação mais mística de Baptista. Mas já la vamos.

Sempre com um ar de percussionista doido (uma variante do esteriótipo do cientista doido), Cyro Baptista apresentou-se na Casa da Música equipado com um sem número de instrumentos, uns mais convencionais que outros. Desde pedais de loops, apitos para pássaros, correntes ou berimbaus, tudo serviu para que o percussionista extraísse os mais belos sons, numa composição melódica cuja base trazia remeniscências do outro mestre brasileiro, Hermeto Pascoal, raízes fantasmáticas dos seus antepassados indígenas e até da tradição sertaneja.

Ao seu lado, John Zorn apresentou-se mais contido do que habitual, deixando por várias vezes o seu saxofone-alto de fora, beneficiando assim os jogos melódicos entre Cyro Baptista e as Ttukunak. No entanto, sempre que entrava em jogo, John Zorn parecia aprisionar no seu saxofone décadas de jazz, do bop ao klezmer, passando pelo rock mais hardcore, que depois esmagava e delicerava, obrigando o instrumento a cuspir os sons sempre com o beat dos grandes mestres. Noutras vezes, atacava o jazz clássico das big bands, funcionando como a banda-sonora mais improvável para os seus companheiros tribalistas, como que numa versão noir de Os Deuses Devem Estar Loucos.

Mas foi sempre Cyro Baptista quem se destacou, parecendo retirar grande satisfação de cada segundo de música. Revelando grande ecletismo, conseguiu colar-se à percussão tribal das Ttukunak, dando-lhe um toque pós-moderno e pouco convencional (e até ritualista, pela forma como não se furtou a entoar alguns cânticos e outras danças da chuva), assim como embarcar nos jogos de John Zorn, semelhante à técnica de condução de Butch Morris, sem que isso pusesse em causa o carácter libertário da música.

A actuação durou pouco mais de uma hora, mas o tempo voou tão baixinho que poucos deram por ele passar. John Zorn e Cyro Baptista, depois do encore e da ovação de pé por parte do público, ainda deram a possibilidade às Ttukunak de encerrarem o concerto, com mais uma demonstração exímia na arte da improvisação na percussão da txalaparta. Porque o concerto também foi delas, mesmo não estando o seu nome no cartaz.



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