Johnny Cash

A vida, a obra e o filme "Walk the line".

Well, you wonder I always dress in black,
Why you never see bright colors on my back,
And why does my appearence seems to have a somber tone,
Well, there’s a reason for the things that I have on.

Man In Black

Chamavam-lhe o Homem de Negro. De facto, o trajar de negro tornou-se na imagem de marca de Johnny Cash. Mas não era apenas a sua roupa que era negra: a sua música era o espelho desse negrume, tal como era o espelho da sua vida e da sua fé.

Johnny Cash foi uma figura incontornável da música da segunda metade do século XX. Cash asssitiu ao nascimento do rock’n’roll e interviu decisivamente no seu desenvolvimento: foi ele o elo de ligação entre o old time country e o rockabilly.

A sua voz de barítono – quiçá a mais carismática de sempre na história do rock, com a qual apenas a de Elvis Presley se atreve a rivalizar – casava na perfeição a honestidade do folk com a rebeldia do rock, a tradição do country e a atitude interventiva do punk.

“A sua vida dava um filme”, certamente pensou James Mangold. De facto, a vida indissociável da carreira de Johnny Cash, de altos e baixos, de sucessos estrondosos, de dependência de drogas ou de condenações à prisão foi o mote de partida para “Walk The Line”, o bio-pic que o realizador norte-americano assinou. Mas como o próprio confessou em entrevista, os objectivos não passaram apenas por fazer um filme “quando fazer música era sobre fazer música e não sobre dinheiro e vídeos”; foi também a oportunidade de filmar “uma das grandes histórias de amor” – a de Johnny Cash e a da sua mulher June Carter.

Johnny Cash, tal como Skip James certo dia afirmou, precisava tanto de sair ao sábado à noite para beber e conhecer mulheres como da missa ao domingo: a sua vida pautou-se nessa linha ténue entre a destruição e a redenção.

A Rua de Baixo alia-se orgulhosamente à Castello Lopes na estreia nacional de “Walk The Line”, no dia 16 de Fevereiro (depois de uma primeira data no final de Janeiro ter sido alterada), prestando tributo à lenda da música contemporânea Johnny Cash, com um especial sobre a sua vida, a sua obra e o filme sobre a sua vida.

ACTO I – A VIDA

I keep a close watch on this heart of mine,
I keep my eyes wide open all the time,
I keep the ends out for the tie that blinds,
Because you’re mine, I walk the line.
I Walk The Line

JR Cash nasceu em 1932, em Kingsland, Arkansas, bem no centro da grande depressão. No entanto, parecia fadado para outro destino – aos três anos, os seus pais são realojados no delta do Mississipi, ao abrigo do Plano Marshall. O destino parecia querer dizer-lhe algo. Cash rapidamente travou conhecimento com o blues que nascia nos campos de algodão do Mississipi, enquanto ouvia no rádio – o seu companheiro inseparável de infância – o country e o gospel que tanto admirava.

Mas em 1944 a tragédia abateu-se sobre a sua família, com um acontecimento que iria marcar a sua vida. Cash tinha 12 anos quando o seu irmão mais velho faleceu num acidente no trabalho da quinta onde viviam. Como o próprio confessou mais tarde, esse acontecimento acabou por lhe moldar a alma: foi razão determinante no seu negrume, mas também na sua fé.

Esse episódio acabou também por despoletar a sua verdadeira vocação: Cash começou a compor as primeiras canções nessa altura e a aprender a tocar guitarra. Mas foi só em 1952, quando se alistou na Força Aérea e foi destacado para terras germânicas, que Cash comprou a primeira guitarra e começou a aperfeiçoar a sua técnica. Na tropa – onde passou a ser chamado de Johnny –, formou a sua primeira banda, os The Landsberg Barbarians, na qual interpretava os primeiros temas que escrevera.

Quando voltou das forças armadas, em 1954, Cash, parecendo fazer jus ao ditame “enquanto não encontrares a mulher ideal, diverte-te com a errada”, casou pela primeira vez com Vivian Liberto, que havia conhecido durante a recruta. E foi já nessa condição que Cash se mudou para Memphis, para trabalhar como vendedor.

Mais uma vez, o destino parecia querer dizer-lhe algo – Cash voltava a estar no local certo, na hora certa. Memphis estava em ebulição, fomentando uma revolução musical no seu âmago que ameaçava explodir a qualquer momento. E Johnny Cash foi o interruptor que faltava. Em 1955, num momento-chave da cultura musical norte-americana, Johnny Cash entrou nos estúdios da Sun Records, berço do rock’n’roll, para prestar audições. Depois de ter cantado uma canção gospel, Sam Philips pediu-lhe para voltar com algo mais inovador, cansado da música conservadora das rádios – e Cash fez-lhe a vontade, cantando «Hey Porter», que viria a ser o lado B do seu primeiro single, «Cry Cry Cry».

A partir daqui o resto é história, como se costuma dizer. Os singles de sucesso sucediam-se e em 1957 surgiu o primeiro álbum, intitulado “Johnny Cash With His Hot And Blue Guitar”. Os seus dotes de compositor também não passaram despercebidos e rapidamente Cash passa também a escrever para estrelas como Elvis Presley, Roy Orbinson ou Jerry Lee Lewis.

A pressão era demasiada: aos trezentos concertos por ano, à pressão e ao ritmo diabólico dos anos 60, Cash acrescentou-lhe ainda problemas familiares com a sua esposa e caiu na dependência do álcool e das anfetaminas, numa época em que eram vendidas sem prescrição nas farmácias (quiçá responsáveis pelo surgir do “louco” speed-up tempo do rockabilly?).

Tal como os seus dois ídolos de infância, os músicos country Jimmy Rodgers e Hank Williams (falecidos precocemente devido aos excessos da bebida e das drogas), Johnny Cash parecia seguir o caminho da destruição. Seria o fim do “Homem de Negro”?

ACTO II – A OBRA

The taste of love is sweet
When hearts like our’s meet,
I fell for you like a child
Oh, but the fire went wild.
I fell in to a burning ring of fire.

Ring Of Fire

Johnny Cash parecia estar na rota inevitável da auto-destruição, um caminho que começava a ser comum aos músicos dos loucos anos 60. O ritmo e a pressão levaram-no à dependência de drogas e trouxeram-lhe problemas pessoais. Além disso, a sua popularidade vinha a baixar e, consequentemente, a sua carreira passava por um mau momento. Mas mais uma vez, o destino ajudou-o. Desta feita, num acto de ironia, fazendo-o cruzar com June Carter, filha do seu companheiro de copos, o músico Carl Smith.

June Carter era uma conhecida cantora country que começou a partilhar o palco com Johnny Cash em plenos anos 60. Apesar de todos os problemas na sua vida pessoal, a relação entre ambos começou a desenvolver-se no palco. E em conjunto compõem o tema de sucesso «Ring Of Fire», que relança a carreira de Cash.

Ambos enfrentavam problemas pessoais que exorcizavam no palco e na ligação cúmplice que começava a ser construída. E quando ambos se divorciaram, a relação tornou-se inevitável. Anos mais tarde, Cash confessou várias vezes que foi June Carter que o salvou, redefinindo-lhe a sua música, a sua vida e a sua fé.

Johnny Cash tinha uma visão muito particular da vida. Para ele, não havia culpados nem inocentes perante os olhos uns dos outros, apenas perante os olhos de Deus. Além de isso lhe ter valido o rótulo de rebelde – ao qual ajudavam as prisões e as dependências de drogas – Cash aliou o estatuto de ídolo ao de ícone da contra-cultura. Começou inclusive a dar concertos nas prisões, o que o elevou a um novo patamar de veneração.

Não era só o facto de ir tocar às prisões: era a própria atitude com que o fazia. No álbum de 1968, “Johnny Cash At Folsom Prision”, Cash diz às tantas: “Antes de começar a tocar disseram-me que não me devia comportar assim ou assado, que devia tocar isto e aquilo e que não podia tocar esta ou aquela canção. O que eles não percebem é que eu estou aqui para tocar para mim e para vocês. Por isso, o que querem ouvir?” Eram atitudes como esta que o elevavam a um nível superior de galvanização: já não era só o músico de excepção, era também o ídolo venerado.

Os anos 70 trouxeram-lhe um novo pico de popularidade, graças a álbuns de sucesso como os dois registos ao vivo “Johnny Cash At Folsom Prision” e “Johnny Cash At San Quentin”. Johnny Cash, seguindo o exemplo das grandes estrelas da música da altura como Elvis Presley ou Frank Sinatra, também experimentou o cinema mas, tal como Elvis, o sucesso não quis nada com ele. A única excepção terá sido o western “A Gunfight”, ao lado de Kirk Douglas. Mas Cash torna-se estrela de televisão, com o programa de sucesso, “The Johnny Cash Show”, em 1970.

Música, cinema, televisão. O público começa a cansar-se da imagem de Cash, que não acompanhara a evolução dos tempos. Apesar de se ter tornado no mais novo músico de sempre a ter o nome inscrito no Country Music Hall Of Fame, distinção que compartilhava com a inscrição no Rock And Roll Hall Of Fame, a popularidade de Cash começou a decrescer. Nos anos 80 ainda tentou o regresso ao formar duas super-bandas, os Survivors e os Highwaymen, ao lado de outras estrelas do country, como Carl Perkings ou Willie Nelson, mas aproximava-se perigosamente do esquecimento.

Pontualmente, haviam músicos que o resgatavam, quer fosse com colaborações pontuais – como a que protagonizou com os U2 em “The Wanderer” -, quer fosse com versões actualizadas de clássicos seus do passado – como Nick Cave e o seu «Wanted Man» ou os Alien Sex Fiend e «I Walk The Line».

Mas o destino voltaria a interpor em seu benefício, num último fôlego da sua carreira. Nos anos 90, o conceituado produtor Rick Rubin resgata-o para a sua produtora, American Recordings, na qual enceta uma série de quatro álbuns, já sob precárias condições de saúde, devido a um crónico problema de diabetes. Em quatro álbuns, Rick Rubin rejuvenesceu os seus clássicos, dando-lhes novas roupagens para um público mais jovem, intercalando-o com versões de êxitos contemporâneos, de bandas como os Soundgarden ou Beck. Em 1994 Johnny Cash recebe ainda um Grammy e em 2003 arrecada um MTV Music Award, para melhor vídeo, graças a «Hurt».

Mas a vida voltaria a pregar-lhe uma rasteira, quando a 15 de Maio de 2005 a sua esposa June Carter Cash morre com complicações cardíacas. O seu coração fragilizado não resiste ao desgosto e, privado da centelha de vida que vinha a impedir a sua de se apagar desde os anos 60, Cash falece quatro meses depois, deixando ainda um último testemunho de vida, a obra-prima “The Man Comes Around”.

ACTO III – “WALK THE LINE”

When I was a baby my mama told me, son
Always be a good boy, don’t ever play with guns.
But I shot a man in Reno, just to watch him die.

Folsom Prision Blues

Depois da vaga de bio-pics que assolou Hollywood em 2004, com filmes biográficos sobre Ray Charles (“Ray”) ou Cole Porter (“De-Lovely”), James Mangold assinou “Walk The Line”, o filme sobre a vida de Johnny Cash que servirá de ponto de partida para o segundo assalto, que vai trazer ainda bio-pics sobre Janis Joplin ou Nina Simone, por exemplo.

Apaixonado desde há muito pela ideia de realizar um filme sobre a vida do cantor, o realizador de filmes como “Cop Land” e “Identity”, conseguiu finalmente assinar “Walk The Line”, baseado nas biografias oficiais de Cash e com a aprovação do próprio cantor, antes de desaparecer. Consta que fora o próprio Johnny Cash e a sua esposa June Carter Cash os responsáveis pela escolha da dupla de protagonistas: Joaquin Phoenix (“Gladiator” e “Signs”) e Reese Witherspoon (“Election” e “American Psycho”).

Segundo James Mangold, o filme retrata a vida de Johnny Cash desde a sua origem modesta até ao reconhecimento internacional, passando, claro, pela crise dos anos 60 e pela maravilhosa história de amor com June Carter.

Num filme como este, um dos aspectos que vai criar mais expectativas será obviamente a banda-sonora. Para isso, Mangold escolheu T-Bone Burnett, produtor reconhecido, para compor a partitura original. Esta será baseada nas canções de Cash e vai ter os próprios Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon a cantar.

Nos Estados Unidos, “Walk The Line” já estreou, de forma a estar pronto para o assalto à edição da entrega dos Óscares deste ano, e as críticas têm sido avassaladoras. Em terras lusas a estreia está marcada para o próximo dia 16 de Fevereiro, depois de uma primeira data cancelada em Janeiro. A Rua de Baixo tem a honra e o prazer de se aliar à Castello Lopes no lançamento nacional de “Walk The Line”.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This