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Cais do Sodré Mexefest

Uma correria pelo Cais do Sodré para ver e ouvir Jon Spencer Blues Explosion e Elysian Fields

Este título encontra explicação simples. Depois do confronto entre o Sporting e o Manchester City, o Cais do Sodré patrocinou uma noite de música, nas suas duas mais importantes salas – a TMN ao Vivo e o Musicbox. O Lounge ficou de fora, a oferta já era demasiado farta.

Primeiro as Pega Monstro – não chegámos a tempo. Esta, aliás, parece ter sido uma decisão que teve como base a agenda futebolística – o jogo terminou por volta das 22 horas, a hora a que Jon Spencer deveria entrar em palco com a sua Blues Explosion. Infelizmente não chegámos a tempo de ver e ouvir este duo que é um dos pontas-de-lança da Cafetra, a editora que está a criar uma linguagem só sua, uma linguagem em que as guitarras gritam alto e em que as letras, embora escondidas, são o mais importante. As Pega Monstro, assim como os Passos em Volta ou os Kimo Ameba, andam atentos, passaram os últimos anos a ouvir discos de outra juventude imatura, miúdos como os Wavves, os The Pains of Being Pure at Heart e os Best Coast e, eventualmente, os papás que já contam cabelos brancos, os My Bloody Valentine e os Dinosaur Jr.

Depois de uma sequência de canções rock suado, as colunas da sala largam uma canção hip hop, a preparar a entrada do carismático Jon Spencer e a sua guarda de honra. A ligação ao hip hop é inegável, de modo que nem tivemos tempo para estranhar, apenas para anotar. Solta-se, por fim, um riff blues e está dado o mote para a entrada demolidora deste power-trio que, sem baixo, mas com duas guitarras, anda nisto desde 1991 – embora não edite nada há mais de oito primaveras. Este foi o concerto ideal para um adepto do Sporting Clube de Portugal (SCP), ou de outro qualquer adepto de futebol que, nestas jornadas europeias, deixe os clubismos de parte a favor da patriotismo – a adrenalina gerada durante a vitória épica do SCP frente aos milhões de Manchester merecia ser descarregada assim, num concerto de rock, sem travões.

Esta é a banda que influenciou gente como os Black Keys e os White Stripes e os Kills e tudo o que é duo rock do século XXI. Bandas como os Black Keys apenas tiveram que perceber que, com menos uma guitarra, a coisa também se fazia. “Who wants some hell?”, pergunta Jon Spencer. E sabemos que a resposta tem que ser afirmativa – porque este inferno é o mesmo dos White Stripes, o inferno em que um riff vale um alma, mas esse riff é um riff do caraças e, mais do que a alma, vale tudo, porque, porra, estão ali milhares de almas a adorar esse enviado chamado Jon Spencer, o homem que trouxe a chuva e a trovoada com ele.

A sala está cheia, o concerto decorre sem pausas, o baterista, Russell Simins, conduz tudo, sempre de cabeça baixa. Lembramo-nos de uma data de bandas quando vemos os Blues Explosion. Lembramo-nos, por ordem aleatória, dos Stones, dos Hold Steady, dos Primal Scream, dos Queens of the Stone Age, dos Arctic Monkeys, dos Sex Pistols, dos Clash, dos Stooges, dos Grinderman e, claro, dos já mencionados, The Black Keys, The White Stripes e The Kills – uns terão influenciado, os outros terão sido influenciados.

Ouvimos, ainda antes do encore – que é mais do mesmo (nada contra) -, “E vêm-me [eles] com o indie rock? Eu quero é que o indie rock se foda!”. O indivíduo parecia alcoolizado. O Sporting eliminou os bifes, Jon Spencer deu-nos cabo do corpo. Noite perfeita. Mudamos de sala.

Chegámos ao Musicbox no final do concerto de Pedro e os Lobos. Passados, mais coisa menos coisa, 20 minutos, Jennifer Charles e Oren Bloedow entram de mansinho, ocupando posição. Os Elysian Fields, resumindo a coisa muito sucintamente, são uma Lana Del Rey sem a faceta femme fatale, sem vestígios de farsa e sem as batidas trip-hop que conferem personalidade à nova princesinha da pop. Não são tão interessantes, certo, mas esta é a coisa mais honesta que vimos nos últimos tempos. No Musicbox, jurámos ter visto Jennifer encarnar Nancy Sinatra e Jessica Rabbit. Brooklyn é quartel-general de uma data de bandas frescas e que correm todas para o mesmo lado, o futuro – mesmo que esse futuro esteja bem lá atrás, no passado. Os Elysian Fields não querem disfarçar absolutamente nada. Não têm canções para tanto tempo, uma hora, mas os (fieis) seguidores não os deixam cair.

O bombom estava guardado para o encore, para o fim, um cover de «The Beautiful Ones», do maior, de Prince. Na rua, ainda conseguíamos sentir a aura de Jon Spencer.

Fotografia por Graziela Costa. Galeria aqui.



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