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Jorge na Cruz

Todas as histórias têm vários capítulos, pequenas estórias na história final. Entrevista com o autor de "Barra 90".

Fomos vasculhar o baú de Jorge Cruz. Quisemos saber muito mais do que as biografias têm mostrado, e aqui está o resultado final. Depois de várias viagens, experiências e passagens por algumas bandas, Jorge Cruz editou “Barra 90”, o seu quarto álbum a solo, que foi o mote para a entrevista, mas não só…

Como vês “Barra 90”, o último filho?

Vejo como um disco à parte, no universo dos meus discos. Porque, para mim, é um disco sobre fazer canções. É olhar para trás mas ao mesmo tempo tem aspectos mais à frente do que qualquer outra coisa que eu já tenha feito.

As músicas foram escritas há já algum tempo. Qual é a tua favorita?

Talvez o «Lugar privado».

Porquê um álbum a solo?

Porque habituei-me a fazê-los. Este já é o quarto. E, se tiver tempo para mais, não será o último.

Aveiro tem alguma coisa a ver com isto tudo?

Só se for de uma maneira muito remota. O facto de ter acabado por fazer um disco que homenageia o local onde nasci foi uma espécie de efeito secundário.

Que sabe Jorge Cruz do que é o sofrimento?

Menos do que muita gente e mais do que era preciso.

Porque é que só agora decidiste lançar as músicas?

Foi uma boa altura porque, se calhar, era a coisa menos óbvia que alguém podia esperar de mim neste momento. E eu detesto expectativas por parte de outros. Já me basta as minhas serem tão difíceis de corresponder. Este disco permitiu-me sentir-me livre numa altura de pouca liberdade, por isso e pelo seu resultado final que me surpreendeu, porque não sabia o que ia fazer, valeu a pena.

Foram escritas na década de 90, ainda têm o mesmo significado?

Imagino que não. Parecem ter muito mais significados agora, distantes da realidade que as viu aparecer. Essa foi uma das motivações principais para fazer o disco.

O álbum tem alguns duetos. Como se processou a “escolha”?

Foi uma escolha fácil de amigos próximos. A Márcia, o B Fachada, o Samuel Úria que participou numa canção que acabou por ficar de fora, são convites mais ou menos evidentes a pessoas com quem já tinha feito umas quantas coisas antes.

Como foi a receptividade por parte do público?

Não tenho uma noção muito clara. Tenho estado sempre a trabalhar no disco novo de Diabo na Cruz. Imagino que não tenha chegado a muita gente mas espero que seja um trabalho que sobreviva ao tempo e possa ir sendo conhecido por uma pessoa de cada vez. Acho que tem sumo para isso.

A agenda está muito preenchida?

A minha agenda tem estado sempre cheia de Diabo na Cruz. Nem para a família há o tempo que eu desejaria. Neste momento, estamos a gravar o segundo disco. Entre tudo o que há para fazer, talvez em Março tenha uns dias para descansar. Depois, volta a montanha russa.

Poderemos contar com um “Barra XXI”?

Barra XXI não faria sentido. Se calhar um Porto’00 é que pode ser uma ideia.

Andaste num colégio de freiras. O lado religioso, a fé, persiste?

Sim, fiz a primária no Colégio do Sagrado Coração de Maria, mas penso que foi por razões de qualidade educativa e não religiosas. A fé é algo poderoso. De certo modo, as pessoas vivenciam a sua fé e são pessoas fiéis, independentemente de reconhecerem um Deus ou não. Nesse sentido, julgo que sempre fui alguém em quem a fé desempenha um papel determinante.

Havia alguém na família ligado à música?

Não exactamente. O meu pai sabia tocar uns acordes na guitarra e fez uma música para nos cantar à noite quando éramos crianças. De resto, tocava músicas sobre o ultramar e um ou outro clássico dos anos 60. De qualquer modo, havia uma estranha sensação, ao ouvirmos em casa com frequência os discos do Zeca Afonso, do Sérgio Godinho, do José Mário Branco etc., de que eles seriam uma espécie de outra família, pelo menos era o tipo de ligações que um miúdo fazia naquele tempo.

Quando escreveste as primeiras canções?

Primeiros esboços na cabeça, terá sido com 9 anos. Primeiras no papel, com 11 ou 12. Primeiras na guitarra com 15 anos. Mas foi aos 9/10 anos que tomei consciência que a minha vida ia ter de vir dar a qualquer coisa parecida com o que faço hoje.

O que recordas de Angola?

Muita coisa. Recordo-me das pescarias. A relação com o mar e o peixe recordo com especial saudade. O mar e a vida marítima em África são de outra escala, comparando com aquilo a que temos acesso na Europa.

A passagem por esse país está presente nas tuas músicas?

Se estiver não será de forma muito evidente. Só da mesma maneira que todas as experiências marcantes acabam por enformar o que somos e o nosso trabalho.

E o basquetebol, como é que aparece na tua vida?

Fui grande fã e praticante. Era o tempo do Michael Jordan. A única altura em que eu tive dúvidas sobre se a minha vida seria ou não fazer canções foi essa. Tive de escolher entre um desporto para o qual não tinha altura suficiente e uma arte para a qual não tinha voz suficiente.

A leitura dos existencialistas contribuiu para o nome dos Superego?

Não tanto, para isso terá contribuído mais a leitura dos psicanalistas. De qualquer modo a ideia era a banda chamar-se Id ou Infra-ego, alguém me convenceu de que Superego era mais nome de banda, se calhar tinha razão. Embora não fosse um nome recebido com simpatia.

Superego era um manifesto?

No início não, mas a certa altura tornou-se em algo parecido com isso. Com três ou quatro anos de existência e experiência adquirida a tocar em Aveiro, Lisboa, Braga ou Porto, guardávamos essencialmente a estranheza pelo contraste que a nossa música desempenhava na comparação com a das outras bandas do mesmo circuito. Nós percorríamos caminhos mais crus e cantávamos em língua portuguesa, o resto do pessoal parecia apresentar algo de fantástico, bem desempenhado e longe da sua realidade. Isso fazia-nos confusão. Parecia-nos estranho que não houvesse mais gente a fazer coisas que tivessem a ver com a realidade, do dia-a-dia, do sítio de onde se vem.

Porque a licenciatura em Psicologia? Era, realmente, uma área que te interessava?

Bom, na altura tinha que ir estudar alguma coisa. Não podia candidatar-me ao emprego de roqueiro. Acabei por escolher um curso onde iam parar algumas pessoas que se interessavam por arte e pela sociedade. E acabei por estudar e ler algumas coisas marcantes para quem está a formar a sua maneira de ver o mundo.

Como foi a experiência de andar a tocar por Barcelona e Santiago de Compostela?

Foi enriquecedora. Após um período de concertos em Portugal, as oportunidades esgotaram-se, e os bares e as ruas espanholas foram um bom escape para manter o sentido das coisas. Se ali um tipo podia cantar umas músicas portuguesas e relacionar-se com um público então as coisas ainda faziam algum sentido. Quando não há espaço nos circuitos oficiais as ideias caem na rua e isso não é necessariamente mau.

Estas “viagens”, que influências têm nas tuas músicas?

Não sei. Se calhar permitiram-me escrever depois de algo, logo, antes de muita coisa. É fundamental relativizar aquilo que estamos a passar em cada momento. Atrás dos tempos vêm tempos, lugares e pessoas diferentes. É importante manter isso em mente se aspirarmos a alguma coisa que queira ter alguma chance de perdurar.

Já trabalhaste com músicos do rock, do jazz, do reggae e da música tradicional. Há algum estilo com o qual mais gostes de trabalhar?

Nem por isso. Os estilos são apenas linguagens, importará mais ter alguma coisa para dizer independentemente da linguagem que se usa. É óbvio que as linguagens também são mensagens, eu prefiro visitá-las à procura de qualquer coisa de que me consiga apropriar. Correndo o risco de falhar redondamente, na maioria das vezes.

Quando começaste a produzir João Só e os Abandonados, achaste que chegariam a ter a aceitação que tiveram por parte do público?

Quando conheci o João percebi rapidamente que é uma pessoa com muitas canções dentro de si. Parece-me natural que tenha uma vida pela frente cheia de canções.

Como surge o “Diabo na Cruz”?

Surge da vontade de pôr em prática ideias antigas para um roque português enraizado no legado musical que nos é específico. Dei com as pessoas certas para pôr um projecto desses em andamento. Foi também estimulado pela produção do primeiro disco dos Golpes que estava a fazer na altura e me deixou de novo com o bichinho do roque, que era algo que eu julgava que já me tivesse abandonado.

Disseste um dia: “Acho que a história vai estar do lado daqueles que fazem canções em Português”. Achas mesmo?

Em Portugal estará sempre. De qualquer modo, acho perfeitamente possível que surja alguém em Portugal a fazer música internacional em Inglês que conte para as contas do panorama mundial. Até hoje não se tem percorrido um caminho suficientemente original para que isso aconteça.

Nas tuas músicas, há uma vontade de discutir assuntos mais sérios?

Depende do que se considere assuntos sérios. Em última análise, toda a gente faz música para ser ouvida por outros, pelo que antes ela tem de ser gostada, e que portanto acaba por ter uma componente de entretenimento que lhe é essencial. O que não significa que as canções estejam condenadas à superficialidade. Se considerarmos assuntos sérios a busca de reflectir uma realidade qualquer, ou necessidade de expressar algo que possa ter origens mais profundas do que um pequeno-almoço, ou uma ida à bola, se calhar a resposta é sim. De qualquer modo talvez exista grande potencial em canções sobre pequenos-almoços e idas à bola.

Vitorino é o maior?

É com certeza dos maiores.



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