Jorge Cruz

O "Pequeno Aquiles" regressa com um registo sonoro que promete matar a "sede" de uma ansiada revisão do fado.

O Português não pode ser uma língua difícil. Não pode ser essa eterna instituição de difícil trato, intratável mesmo, como um dia terá sido rotulada não se sabe onde, nem por quem. O Português não é um problema. Não pode ser. Não para Jorge Cruz. De outra maneira as canções de “Sede” não soariam assim, a poesia.

Ex-Superego, um trio de Aveiro fundado em 1995, o músico do Norte mostra agora a solo, e desde 2004, quanto vale um ego por si só e uma guitarra, num álbum chamado “Sede”, que na crueza, mas ao mesmo tempo intimidade própria do acústico, é a uma humilde e sincera exposição, extensão até, de Jorge Cruz.

E ainda que a musicalidade e a harmonia sejam intocáveis, sobretudo em momentos como o “Fado de uma Rua Qualquer”, “Canção da Tua Rua” e “Adriana”, é para as palavras que a atenção insiste em desviar-se o tempo todo. Palavras que são jogadas em sequências pensadas e bem estruturadas, de forma a dar ao todo uma sensação de melodia própria de quem mais aposta na música do que no verbo. Com a mais-valia de que aqui não é esse o caso. Tal como o não era nos casos das referências mais visíveis de Jorge Cruz. Aqui também o verbo vem primeiro.

Com uma vida ligada à música há cerca de quinze anos, aquele a quem também chamaram “O Pequeno Aquiles” num outro disco a solo editado em 1999, é um profundo conhecedor da vida e obra de Bob Dylan, também fã de jazz, mas é na sua língua materna que traduz o que lhe vai dentro e o que vê do lado de fora. A mesma em que se expressaram todos os grandes que hoje ecoam nas palavras de Jorge Cruz, e que o cantautor do norte cita musicalmente em “Sede” como referências óbvias, mas sem a sofreguidão vocabular dos antecessores – Zeca Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Jorge Palma.

No final, a constatação de que a denominada nova música portuguesa não tem de todo de querer à força fugir a fórmulas musicais já antes utilizadas por outros para soar a nova, para soar bem. O novo também se faz da reinvenção, do restauro, da recuperação. Do mesmo modo que o fado para ser contado às crianças não tem obrigatoriamente de ser disfarçado com sintetizadores. Com a força que Jorge Cruz tem na palavra, a simplicidade sonora será sempre o melhor trunfo.



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