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José Belo

Joining the dots

José Belo foi outro, entre um núcleo restrito de Djs que estimo e prezo pelo seu considerável percurso e expressão no meio, com quem falei, aprendi e até esclareci algum do modo de agir, e (sub)entender a noite, a cena electrónica, as gentes que circundam esses espaços e o que nele procuram, o investimento e apreensão dos meios ligados à senda musical de dança/electrónica (para os menos dados ao primeiro dos desígnios) nas suas mais distintas e/ou complementares derivações (jungle, house, dubstep, etc.)

O percurso de José Belo iniciou-se exactamente na pista de dança. “Não há outra maneira de se perceber o que faz um set a não ser entendendo-o enquanto ouvinte ou a dançar. Não conheço nenhum óptimo DJ que não saiba o que é estar de olhos fechados no meio de uma pista de dança, arrepiado dos pés à cabeça. Que não entenda a força que a música de dança tem em quem está na pista. A partir daí, pensei: será que sou capaz de fazer isto? Começei a comprar discos primeiro, era mais barato do que comprar o resto. Depois, já tinha discos suficientes para começar a pensar no resto. Comprei a mesa, depois os pratos e quando dei por mim, em vez da parede do meu quarto, tinha gente à frente”, relembra.

Lembro-me de José Belo das noites conimbricenses. Uma cidade que vive e convive de e com nichos maioritários (ancorados nas tunas, nas serenatas estudantis e carisma de Hilário) e minoritários (as bandas que surgiram num ápice nos 90, após a libertinagem duns É M´as Foice e o rock abrasivo de uns Tédio Boys e tantas outras que se lhes seguiram e continuam) ou um grupo concentrado de Djs, improvisadores e experimentalistas (que vagueavam expondo a sua multifacetada arte entre uma Via Latina , Quebra Costas, Teatro Académico Gil Vicente,entre outros). Ainda hoje, já longe da minha cidade, sinto que prevalece o nicho mais baladeiro de todos e de que subsiste todo o traço quase caricatural da Cidade do Mondego.

É nesta ampla visão da minha cidade natal, que me lembro de José Belo, num desses nichos marcados por um espaço e gente característica, e o questiono sobre essa cidade onde iniciou o seu percurso como DJ e aquela em que agora vive (Lisboa) e como dá continuidade ao seu desempenho nas noites de festa, descontracção, divertimento e, lógico, gosto pela música.

José, numa espécie de incontestável correlacção, lembra que: “Coimbra tem uma noite estudantil, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Com os estudantes a irem a casa no fim-de-semana, é quinta-feira a noite forte. Há lá gente boa que está a tentar fazer com que o público estudantil queira mais da sua música. E grande parte dos nomes da electrónica actual passou por Coimbra; a cidade não se pode queixar nesse aspecto. Porque nem é na oferta cultural que a cidade está mal, é na procura. Já que se fala tanto no deficit, sente-se esse défice de procura por coisas novas na cidade. O estudante médio não quer saber disso para nada, quer é acabar o seu curso e sair nas suas quintas-feiras”.

O DJ reforça ainda que “o grande problema deste tipo de pensamento é que são estes os gestores, os directores, os ministros de amanhã. E não há qualquer exigência cultural quando se fazem estas contratações, interessa pouco o que esta pessoa sabe para além da parte técnica. É que é a cultura que temos que nos diferencia dos nossos colegas de curso, que aprenderam exactamente a mesma coisa que nós. É na sensibilidade que só a música dá, a criatividade que só ver a abstracção permite ou na mundividência que viajar abre que a nossa personalidade se define melhor. Mas para isto não há qualquer requisito. Interessa é a média de 15”.

Na capital a história é outra “em Lisboa funciona tudo mais para o fim-de-semana, que é a ordem natural das coisas. E há clubes óptimos na cidade que atraem um público fiel e exigente. Casos do Lux ou do Europa, clubes que dão apoio à Bloop desde o momento em que nasceu”, esclarece na sua óptica sobre estas diferenças, sensoriais e interpretativas, entre as duas urbes onde mais desenvolve os seus sets.

A Bloop é claramente um dos alfobres mais expressivos no que concerne à música electrónica mas não só e para o José ”felizmente, a Bloop conseguiu juntar à sua volta um grupo de gente incrível. Gente que entra nas nossas festas e começa logo a dançar. Confiam em nós e no nosso gosto. Não tem preço isso” referiu satisfeito.

Um dos aspectos mais interessantes nesta conversa foi assimilar como o próprio, entusiasta e esclarecido, sente e manuseia ou cruza as diferentes línguas ou géneros musicais que o inspiram de modo a criar o seu som.

”Quando ouves discos novos, não é difícil perceber como muitos deles são parecidos a coisas que já conheces de há 10 ou 20 anos. Olhas para um “Face it” de Master C & J e percebes o que é que uns Art Department ou um Seth Troxler andam a fazer. Olhas para um “You’re the one for me” do D-Train e encaixas muito de onde vêm as linhas de baixo dos Soul Clap ou do Jamie Jones. Não acho que já não haja nada para inventar, basta olhar para a história da música recente e perceber que só nos últimos 20 anos apareceram géneros como o hip hop e o techno que mudaram para sempre a maneira como se faz música. E tenho muito respeito pelo passado da música de dança.”

“Gosto de tentar fazer essas pontes nos sets, de colocar um disco antigo que ache que faça sentido. A verdade é que os próprios músicos percebem essa vontade que os DJs têm de mostrar discos antigos e fazem edits mais apropriados para o ritmo rápido a que vivemos agora. E uso-os, constantemente.
Um tipo que me influenciou muito para esta abordagem à música de nunca esquecer o que está para trás é o Gilles Peterson. Era incrível ouvir o programa dele e ver a maneira como ele cruzava discos de um e de outro género e conseguias, por mais abstracta que fosse, ver uma linguagem comum em todos eles. Vinha um disco de rumba dos anos 50, que tinha ligação com um disco de salsa dos anos 70, que tinha ligação com um disco de house latino de Nova Iorque dos anos 90, que tinha ligação com um disco de jazz dos anos 60… E ele fazia aquilo todas as semanas, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. “Joining the dots”, como lhe chamava. Revejo-me muito nesse tipo de pensamento”, referiu.

A diferença mais visível na Indústria Musical no que diz respeito à música electrónica foi José Belo quem a referiu :”A principal diferença é a mais óbvia : existem muito menos pessoas a comprar discos. Quando vês um puto de 14, 15 anos, o mais certo é ele nunca ter dado um euro por um disco. E explicar-lhe que não é por o preço dos CDRs serem de 10 cêntimos que os CDs não custam 15 euros vale de pouco. Outra coisa que notas é a quantidade de música que sai todos os dias. Há uns anos atrás, era mais fácil acompanhar o que se está a passar. Hoje em dia, com as edições em digital, é anormal o fluxo de discos novos que saem para o mercado. Mas o que é engraçado é que mais tecnologia não significa melhor qualidade. Já dei o meu tostão à luta do mp3 vs vinil e hoje sou um DJ que usa digital com cerca de 10 mil discos de vinil em casa, o que me faz, julgo eu, mais do que capacitado para falar das vantagens e defeitos de um e de outro. O grande problema da música que sai hoje em dia não é ser em mp3. Para poupar custos, não é masterizada ou é masterizada de forma artesanal. O vulgar “vou ligar a um amigo”. Faz toda a diferença na maneira como o disco sai do PA e notas logo quando um disco está bem ou mal masterizado. E isso acontece tanto no vinil como no digital: em ambos se cortam custos cortando na masterização. E isso só acontece porque ninguém compra discos. Na Bloop, esforçamo-nos para que essa parte seja bem feita mas compreendo, sinceramente, quem pura e simplesmente salta esta parte. Todos temos de pagar a renda”, reflectiu.

Mas, como uma espada de dois gumes, há um, indiscutivelmente, mais risonho e até vantajoso, o lado bom da coisas. “A internet veio permitir que mais gente chegue aos artistas e às editoras mais rapidamente. Eles podem não comprar o disco mas se gostam, estão lá na festa. E é este paradigma novo que aparece e ao qual ainda estamos todos a tentar perceber como lidar com ele. Isto de não venderes discos mas de venderes eventos. O que, convenhamos, faz com que muitos produtores tenham que se tornar DJs à força para pagar a renda”.

Saber sobre outros géneros musicais é para o Dj como “aprenderes uma língua diferente, consegues falar com mais gente. Mas mais do que isso, consegues exprimir melhor aquilo que tu sentes em relação à música de dança”.

Para José Belo não faz qualquer sentido tendo uma coisa para dizer dizê-la sempre da mesma maneira e por isso: “Tento sempre que os sets trilhem caminhos diferentes. Fazer a coisa fazer sentido, parecer coerente, é que é o mais difícil. Umas vezes consegue-se, outras não, faz parte do jogo”, disse.

“Tomo muito a atitude do Andy Kaufman em relação a isto de mostrar música. O Andy dizia que queria que as reacções das pessoas ao seu trabalho fossem tudo menos neutras. E concordo totalmente. Que gostem, que detestem mas que sintam alguma coisa. Prefiro mil vezes que não gostem de um set em que arrisquei do que dar-lhes um set neutro, sem altos e baixos, todo cheio de acordes de Chicago. Um set todo bonitinho mas que ao fim de uma hora soa sempre à mesma coisa e já não sabes bem que música é que estás a ouvir. Claro que prefiro que gostem, estou ali muito para fazer dançar e para fazer as pessoas se divertirem. Mas também quero que saibam quem eu sou, da música que gosto, que me faz dançar.
Quando aquilo que diverte as pessoas é aquilo que te diverte a ti também, tens uma noite do caraças”, concluiu.

José Belo é licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. A um indivíduo menos perspicaz ou pouco dado a escrutínios, se lhe colocasse numa situação de possíveis semelhanças ou convivialidades com áreas aparentemente díspares escudar-se-ia numa qualquer noção menos sequencial, mas José Belo é tão peremptório e conclusivo que é prazeroso de escutar “Cada vez mais a música e o Direito se interligam. Aprendi muito sobre direitos de autor enquanto ia fazendo a loop e a bloop. Coisas que me pareciam muito abstractas e que, por lidar com elas directamente, se tornaram mais claras. O publishing, por exemplo. Acho que foi dos conceitos que mais me demorou a assimilar. Continua a ser um mistério em muitas coisas mas aquilo, no início, era o meu buraco negro da razão, não fazia sentido. Agora, faz todo o sentido. Mas são direitos muito abstractos que só com a prática e cem explicações teóricas consegues definir. Sei que só o meu trabalho na Bloop e na loop permitiu chegar tão longe, entender conceitos tão complicados. Quem sabe, um dia, não faça carreira como advogado de direitos de autor…”, deixou em aberto.

É agradável desenvolver e partilhar um número de ideias considerável que me possibilitam até ter uma visão mais interna do meio, mas será possível viver-se exclusivamente da música nestes desvios? “Ser DJ ou produtor exige tanto de ti como trabalhar das 9 às 5 excepto na parte de teres de trabalhar obrigatoriamente das 9 às 5. Tens de trabalhar como qualquer outra pessoa e esse trabalho não se limita às duas ou três horas de set que fazes sexta e sábado. Nessas horas de set estão condensadas muitas horas de procura de música. São centenas e centenas de discos que têm de ser filtrados todos os dias para que tenhas sempre algo de novo para dizer em cada set. O mesmo se passa na produção. Conheço muitos produtores que se obrigam a ir para o estúdio de manhã e sair a horas certas, como se fossem para o escritório.

E depois há toda a parte burocrática e administrativa que precisa de ser tratada. Marcar datas, falar com o distribuidor para meter os discos na rua, definir masterizações, promover as festas, etc, etc. A Bloop tem um escritório onde vamos para tratarmos desta parte. Acaba, no fundo, a ser semelhante a trabalhar em qualquer outra empresa. E é a música que editamos e as festas que fazemos que fazem com que isto tudo funcione. Mas tenho plena noção de que somos muito poucos em Portugal a funcionar desta forma”.

O que melhor define o house e techno “hoje em dia é permeabilidade. Qualquer um dos géneros é maleável o suficiente para dentro da sua estrutura bem definida ser capaz de incorporar todas essas influências e muitas mais. E é isso que mais me fascina na house e no techno, essa sua capacidade para olhar para o mundo musical à sua volta e incorporá-lo. Nos anos 90, eram os discos de discosound que serviam de base para tanto e tanto disco de house, hoje em dia é o boogie dos anos 80 que faz mossa nos doze polegadas de house. E é essa a vantagem de seres DJ de música de dança. Vale tudo desde que faça dançar. Consegues incorporar tudo isto num set, desde que consigas metê-los a velocidades semelhantes. Não é tão verdade para o jungle ou drum n’ bass, que com os breaks de bateria torna a coisa completamente diferente do pulsar constante do bombo no house. Já o dubstep, tem tido temas que fazem o crossover para os sets de house ou de techno. Exemplo recente é o «Claptrap do Joe»”.

Dos desejos e projectos ainda a acontecer este ano José recordou que “é um ano importante para a Bloop e para mim pessoalmente. Na editora, vamos continuar a editar discos, mesmo que tudo à nossa volta, e principalmente o nosso contabilista, nos diga para não o fazer. Mas, que querem? É o vinil que nos preenche. Vamos lançar também a nossa editora digital e tratá-la como se fossem discos de vinil que estão a sair. Acho que se facilita muito nas edições em digital, por não envolver os custos das edições em vinil e a bloop não vai seguir esse caminho. Vamos editar nomes fortes no digital e nomes novos em que apostamos em vinil.

Ao nível das festas, a Bloop vai continuar com as nossas residências no Lux, Europa e Gare, clubes que têm sido pivotais para o crescimento da Bloop. Qualquer um deles, está connosco desde o dia zero e isso é coisa que nunca vamos esquecer. Vamos devolver-lhes todo o apoio cego que colocaram em nós. E vamos continuar a convidar para tocarem connosco pessoas com quem temos a maior afinidade musical. Acho que o nosso passado recente reflecte isso mesmo quando vemos nomes como o do Ryan Crosson, Motor City Drum Ensemble, Anja Schneider, Dyed Soundorom ou Anonym nessas mesmas festas. E as matinées. São festas que nos têm deixado muito contentes e não queremos, de todo, que mudem. E com o sol a aparecer cada vez mais tempo, as matinées vão ser cada vez mais festas para celebrar a tarde. O mesmo para as festas no barco que fazemos sempre todos os Verões. Num país como Portugal, não podia ser de outra maneira.

No dia 9 de Abril, vou tocar na primeira festa oficial do CircoLoco em Portugal, num Bloop showcase. Gostava também de consolidar o meu lado da produção quer em nome próprio quer enquanto Lisboa City Orchestra, que faço a meias com o Kaesar Galiano. Soube-nos bem ver aquele que foi o nosso primeiro tema, uma remix para o Anonym, aparecer em charts, ser tocado por DJs que ambos respeitamos e ser um dos temas mais vendidos desse mês. Já temos várias músicas iniciadas em conjunto e ‘mais dia menos dia’ sai qualquer coisa”.

Será então um resto de ano bem preenchido para José Belo, que deixou aos leitores RDB o seguinte recado: “Façam aquilo em que acreditam. Nada mais”.

Ilustração por Rui Teixeira



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