José de Almada Negreiros no Museu Calouste Gulbenkian
Pel'os olhos adentro.
O que mais me fascina em José de Almada Negreiros é o facto de ter convivido e sobrevivido aos seus companheiros Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Guilherme de Santa Rita e Amadeu de Souza-Cardoso. O facto de ter convivido com eles transforma-o num mito; o facto de ter sido entrevistado no programa “Zip-Zip” certifica que viveu entre nós.
Almada cruzou sete décadas do século XX, exposto às inúmeras correntes que o atravessaram, a duas guerras mundiais, à Guerra Fria e à Revolução dos Cravos. Assistiu à introdução no quotidiano da esferográfica, dos electrodomésticos, da rádio, televisão e cinema, da fotografia, da publicidade, do automóvel, do comboio a diesel e a electricidade.
Para o espírito de Almada estas conquistas tecnológicas são motivo de celebração, para o Homem de Vanguarda que era, são motor para as suas manifestações artísticas.
Imagino Almada em 2017 com 23 anos. Teria uma conta de YouTube e realizaria filmes com o smartphone? Faria uma instalação na pala do Pavilhão de Portugal ou uma performance com milhares de pessoas convidadas por um evento no Facebook? Os seus prints estariam à venda na Tictail e na Underdogs? Ou escolheria outra coisa para surpreender, para assaltar os sentidos do público?
Almada fez tudo e foi tudo.
Romances, peças de teatro, poesia, manifestos, pintura, escultura, tapeçaria, design gráfico, publicidade, murais, vitrais, cinema, cenografia, fotografia, ilustração (e devo ter esquecido alguma coisa)… E sempre que podia misturava os meios para alcançar uma obra mais completa.
Monumento na Ribeira das Naus em Lisboa, a partir da obra “Auto-reminiscência de Paris” (1949) que se encontra na exposição “José de Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno”.
O Museu Calouste Gulbenkian, até dia 5 de Junho, apresenta “José de Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno”.
São 400 obras, algumas delas inéditas, organizadas em oito núcleos/temas que ocupam a Galeria Principal e a Galeria do Piso Inferior.
É uma experiência imersiva, em que se começa por ser Visitante e quando se termina já se é Íntimo.
O percurso da exposição começa com pinturas abstractas de características geométricas e temas matemáticos. Próximo destas está o “Retrato de Fernando Pessoa” pintado em 1954 para o restaurante Os Irmãos Unidos.
É a melhor recepção que um visitante pode ter: abrirem-lhe a porta de casa e darem-lhe as chaves.
As cores e a geometria que encontramos nas obras abstractas (talvez mais “difíceis” para alguns), estão presentes no “Retrato de Fernando Pessoa” (um dos trabalhos mais conhecidos do grande público): as esquadrias e as diagonais; a luz e a sombra.
Assim as linguagens geométricas tornam-se mais claras para o visitante e na continuidade da exposição ajudam a descodificar algumas obras.
Voltando ao “Retrato de Fernando Pessoa”. Se no início desta galeria está o quadro de 1954, no ponto oposto do espaço está a “quase réplica” que Almada fez em 1964 a pedido da Fundação Calouste Gulbenkian.
Além do diálogo, parece que o visitante é interpelado uma segunda vez “e agora, depois de ver mais da obra de Almada, já tem mais “chaves” para ver este quadro?”
A curadoria de Mariana Pinto dos Santos com Ana Vasconcelos é brilhante, porque ao colocar as obras em diálogo estimula este lado de detective.
A exposição tem mais momentos de convite à interpretação e aos diálogos, que permitem ao visitante conhecer ou interiorizar melhor a obra de Almada. Na surpresa de encontrar uma imagem conhecida e que agora se sabe que é de Almada, ou descobrir histórias que ficaram esquecidas em rascunho.
Se os olhos de Almada são os olhos do século XX, então Almada hoje entra-nos pelos nossos olhos adentro. Viva Almada, viva sim! Poeta D’Orfeu, Futurista e Tudo.
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