Julilana Barwick @ Teatro da Trindade (29.11.2016)

Juliana Barwick @ Teatro da Trindade (29.11.2016)

Neblina vocal.

Três anos após a última passagem por palcos lisboetas, a norte-americana Julianna Barwick regressou, desta feita ao bonito Teatro da Trindade, trazendo um novo trabalho na manga: “Will”.

O concerto seria desde logo especial pelo facto deste terceiro disco ter sido parcialmente escrito na capital portuguesa, mais concretamente no HAUS, estúdio pertencente aos PAUS. A faixa de abertura de “Will”, intitulada «Apolonia», poderia indiciar a tal ligação.

A moça do Luisiana, radicada em Brooklyn, apresentou-se sozinha em palco com o seu teclado moog, sequenciadores e groovebox humildemente pousados na caixa do próprio teclado. E, desde o início, foi notória a maior participação do moog nas mais recentes composições, facto que não ocorria nos trabalhos inciais que recorriam quase exclusivamente às camadas de voz.

Por detrás da sua figura foi projectada de quando em vez a imagem duma camisa, sem que se visse corpo nela. Como se a presença humana tivesse evaporado que nem as ondas de som que a voz de Julianna Barwick vai emanando, que nem uma maré que enche e vaza, mantendo sempre o inconfundível aroma a frescura.

Foi apenas ao terceiro tema que Barwick recorreu aos sequenciadores para edificar as suas tradicionais camadas de vozes, relegando as teclas para um plano menos preponderante. É precisamente esse o bastião de canções como «Same», ao passo que «One Half», que fechou a fatia de leão do concerto, contém o refrão mais standard que a norte-americana apresentou num Teatro da Trindade com pouquíssimas cadeiras por preencher.

O facto das melodias de voz serem praticamente imperceptíveis, sendo que muitas não utilizam sequer palavras, remete-nos de forma ligeira para o universo Sigur Rós, onde também não conseguimos descodificar o que é dito durante as canções. Julianna Barwick fica algures ali entre o colectivo islandês e os cantos dominicais entoados em igrejas gélidas cuja acústica produz aquele eco belo e misterioso.

Após as sete canções que interpretou de forma ininterrupta, colando os temas de forma ininterrupta, Julianna Barwick voltou para um encore formado por um único tema, «Cloudbank», que dedicou ao senhor seu pai, que marcou presença especial na plateia deste anfiteatro do Bairro Alto, anunciando-a como uma das canções preferidas dele.

Foi mais um passo na caminhada de Julianna Barwick, presenciado pelo público português, numa relação já duradoura (em 2007 Lisboa tornou-se a primeira cidade europeia onde a compositora actuou ao vivo) e que teima em estreitar-se progressivamente. Que continue a ser essa a vontade de ambos os lados.



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