Jurassic Park / Jurassic World

De Jurassic Park a Jurassic World

Dinossauros à solta!

Lembra-se de como ficou de queixo caído ao ver pela primeira vez os geniais dinossauros pré-históricos de Spielberg, em Jurassic Park?

O filme, estreado no cinema em 1993, é baseado num Best Seller de Michael Crichton. A história reza assim: o bilionário John Hammond (Richard Attenborough), dono da empresa InGen, idealiza um jardim zoológico único no mundo, numa ilha próxima da Costa Rica. As atrações são dinossauros vivos, criados com recurso a uma inovadora técnica de clonagem de ADN.

Hammond recorre a um grupo de especialistas para determinarem se o parque é seguro para receber visitantes: o Dr. Alan Grant (Sam Neil), a Dra. Ellie Sattler (Laura Dern) e o Matemático especialista em teoria do caos Ian Malcolm (Jeff Goldblum). A eles juntam-se os dois sobrinhos menores de Hammond (Ariana Richards e Joseph Mazzello).

Escusado será dizer que a coisa corre mal. Devido a uma falha de energia e muita estupidez natural da parte de um técnico ganancioso, as violentas atrações conseguem fugir e tornam-se ameaças à solta, desatando a caçar e ingerir todos os desgraçados que encontrem pela frente.

Jurassic Park / Jurassic World

O filme é uma montanha-russa de efeitos especiais e cenas espectaculares. Inovador e tecnicamente irrepreensível, deu-nos a conhecer o assustador T-Rex e os temíveis Velociraptors, protagonistas de cenas que ficaram firmemente implantadas na cultura popular até hoje. Jurassic Park foi um enorme sucesso global – ainda hoje está na lista dos 20 filmes mais rentáveis de sempre. É considerado um marco na história dos efeitos especiais, muito pelo trabalho fantástico da Industrial Light and Magic, e dos dinossauros em tamanho real construídos por Stan Winston.

Pressionado pelo êxito do filme e pelo próprio Steven Spielberg, Michael Crichton escreveu a sequela literária. Quatro anos volvidos, em 1997, Spielberg estreia Jurassic Park 2 – The Lost World, com argumento de David Koepp baseado no livro de Crichton.

Jeff Goldblum regressa ao papel do matemático Ian Malcolm, que víramos no primeiro filme. Quatro anos após a tragédia no Parque Jurássico, Malcolm é contratado por Peter Ludlow, o sobrinho de Hammond, para investigar a Isla Sorna, uma ilha deserta onde os dinossauros teriam sido inicialmente criados. A contracenar com Goldblum estão agora Julianne Moore, como sua namorada, e o veterano Pete Postlethwaite como o caçador Roland Tembo, entre outros.

Novamente os dinossauros são criações fabulosas, e The Lost World arrasou nas bilheteiras, apesar de a crítica se ter dividido quanto à qualidade do argumento. É um filme eficiente, em que as sequências de acção continuam a espantar, mas a história parece escrita em piloto automático, um mero pretexto para ver os bichos em acção.

Fast forward para 2001 – Joe Johnston ocupa agora a cadeira de realizador em Jurassic Park III, passando Spielberg para a produção. Sam Neil está de volta como o paleontologista Alan Grant. Contratado por um casal de milionários para lhes dar uma visita aérea sobre a Isla Sorna (retratada em Jurassic Park 2), Grant descobre tarde demais que a intenção é aterrar na ilha para uma missão de salvamento do filho de ambos, que tinha desaparecido ao fazer parasailing perto da costa.

Jurassic Park III é unanimemente considerado o mais fraquito do franchise. Spielberg passou para a produção, e Michael Crichton não esteve envolvido no argumento. A fasquia criativa desce ainda mais, e o filme dá ares de fita manhosa série B – apesar de os dinossauros terem novamente muito bom aspecto.

Os rumores acerca da produção do quarto filme da franchise começaram ainda em 2001, mas o filme andou mais de uma década no limbo da pré-produção. Durante o seu longo e tortuoso período de gestação, dezenas de argumentistas tentaram pegar na história, e uma série de guiões foram abandonados pelo caminho. Por lá passaram William Monahan (The Departed) ou John Sayles (Lone Star), com histórias que chegaram a incluir uma raça de dino-cães soldados – humanos, cruzados com o ADN de cães de caça e de dinossauros. Havia de ser um filme bonito.

Até que o projecto chega às mãos de Colin Trevorrow em 2013. Realizador do curioso Safety not guaranteed, uma comédia indie com laivos de ficção científica que teve uma óptima aceitação da crítica, Trevorrow impressionou suficientemente o produtor executivo Spielberg para que este o fosse buscar.

A acção passa-se 22 anos depois do primeiro filme (as duas sequelas são esquecidas). O bilionário Simon Masrani (Irrfan Khan, que conhecemos de A Vida de Pi), agarrou na ideia de John Hammond e tornou-a real – um parque de diversões com dinossauros, chamado Jurassic World, que atrai 20 000 visitantes diariamente à Isla Nublar.

Entre os visitantes estão Gray (Ty Simkins, o puto de Iron Man 3) e o seu irmão adolescente Zach (Nick Robinson). São convidados da sua tia Claire (Bryce Dallas Howard), a directora de operações do parque. É suposto Claire acompanhá-los na visita, mas a sua agenda sobrecarregada leva-a a delegar a responsabilidade.

Claire está mais preocupada em trazer às pessoas dinossauros maiores, mais ferozes, mais impressionantes – “Ninguém se impressiona com um dinossauro hoje em dia”, diz. Assim, o cientista Henry Wu (B.D. Wong, o único repetente do primeiro filme) criou um cocktail genético que gerou o Indomitus Rex, um super-dinossauro maléfico que faz o T-Rex parecer uma lagartixa com mau feitio.

Jurassic Park / Jurassic World

Outra das novidades do filme é que os Velociraptors estão perto de serem domesticados, ou pelo menos já consideram os humanos mais do que apenas uma refeição (não muito) rápida. Owen Grady (Chris Pratt) é um encantador de Raptors cujo trabalho chamou a atenção do militar Hoskins (Vincent D’Onofrio), que pretende usar a ferocidade dos bichos como arma de destruição massiva (à la Alien).

Não é preciso ser muito inteligente para perceber que vão acontecer três coisas: primeiro, o Indomitus Rex escapa da sua jaula e corre à solta pelo parque, paltando os dentes com os vários seguranças que encontra pelo caminho. Segundo, os putos perdem-se na visita e ficam à mercê do bicho. Terceiro, Claire e Owen vão ter de unir esforços para travar o I-Rex, antes que ele faça dos 20 000 turistas da ilha um buffet livre.

Dito isto, como é que o filme compara com o seu antepassado de 1993, Jurassic Park? Para já, ao contrário de Trevorrow, Spielberg prefere uma abordagem mais paciente e gradual. A primeira parte de Jurassic Park é contida, construindo laboriosamente o enredo, retardando o aparecimento do primeiro dinossauro até todo o público estar em pulgas para o ver. A mesma abordagem contida é usada para dar a conhecer o T-Rex: vibrações num copo, passos estrondosos e uma cabra a desaparecer precedem o aparecimento do T-Rex em todo o seu esplendor.

Em Jurassic World, Trevorrow põe logo a carne toda no assador, dedicando pouco tempo à construção das personagens. Os dinossauros são extremamente credíveis, mas os personagens nem por isso – Pratt e Bryce são hologramas aguados de si próprios, templates vazios de heróis de filmes de acção. Os actores fazem o melhor possível, mas não têm muito com que trabalhar. Da mesma forma, a empatia que sentimos para com as crianças em fuga é praticamente zero. O filme é previsível, cheio de clichés e piscadelas de olho a filmes antigos de Spielberg, que quando muito revelam uma certa falta de ideias.

Mas o que é que isso interessa? É um filme de dinossauros! Se deixarmos o nosso cérebro no bengaleiro do cinema, os efeitos visuais continuam brilhantes. Jurassic World é eficaz como filme-de-pessoas-a-fugir-de-coisas. O seu melhor – a acção – consegue muitas vezes distrair-nos do seu pior – a história. Apesar de ser um novato, Trevorrow é um realizador competente quanto baste para fazer o filme funcionar.

Jurassic World é um filme inconsequente, divertido de se ver, mas não está sequer no mesmo campeonato de Jurassic Park. Ao contrário do Indomitus Rex, nunca consegue fugir da jaula de tributo e de auto-referência em que se encontra. Dado o seu sucesso nas bilheteiras, já se fala numa sequela mas, honestamente, quer-nos parecer que esta ideia já deu o que tinha a dar.

 



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