Ka§par | “Ascensus”

Ka§par | “Ascensus”

O primeiro álbum de Ka§par chega em formato digital pela 4Lux de Gerd, pronto a partir corações e pistas de dança pelo mundo fora

Hoje a música de dança é a música pop de outrora, e quem disser o contrário anda desatento. Basta olhar para o que começou por ser dubstep, agora esquartejado em toda a parte de forma grosseira, da Ana Malhoa aos anúncios de perfumes. Mas há boas notícias: a house pouco mudou, mantendo-se fiel ao legado deixado pelo disco no final dos anos 70. Há, porém, alguns surtos de popularidade que nada ajudam ao género mais fiável da música electrónica, aquele que evoca a melhor companhia para os corpos que se agitam na madrugada. O mais recente é o aparente ressurgimento do subgénero deep house, mas quem conhece a sua música sabe que nunca passou de moda.

Ka§par conhece bem a house, é um dos nossos mais prolíficos DJs e produtores, com uma carreira longa e vários maxis editados na 4Lux, Groovement ou Clone. Mas, como praticamente tudo o que por cá se faz, o reconhecimento nem sempre é comparável à qualidade da arte. Ascensus” poderá mudar isso, mas primeiro tenho que explicar algumas coisas.

É que “Ascensus” pode, assim à primeira vista, ser uma espécie de ideia megalómana e suicida. É um disco duplo (17 faixas mais 4 bónus) inteiramente digital. Aqui ninguém canta, são os samples vocais que Ka§par afina com uma precisão implacável, esculpidos em crescendo para provocar um clímax intenso («Above it All», «Drums in the Deep»). Há acordes e harmonias densas, inteligentes e hipnóticas, mas tão intrinsecamente melódicas como Kerri Chandler ou Frankie Knuckles nos ensinaram («Hypnotherapy», «Got Good Love» – clássico). Há objectos estranhos («Drums in the Deep», «Kamaitaichi») que evocam a psicadelia com a secção rítmica quase desconstruída, provocando uma acesa discussão entre a psique e o coração. Há diversos pormenores e desconstruções várias, precisas. E sim, há aqui a herança do disco que nos deu a música que nos faz dançar.

Que apelo poderá ter, então, um disco de 21 faixas de house para um ouvinte que não está interessado em misturar esta música numa cabine de DJ? É simples: quem torcer o nariz à mais completa lição de música de dança dos últimos anos terá, certamente, poucas esperanças em apreciar toda a música que se faz hoje em dia. Ou que se fez.



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