KW + the next Step

Kamasi Washington @ Casa da Música (06.06.2016)

O Jazz voltou a estar na moda

Chegado à Casa da Música, já Kamasi Washington, o bom gigante com sorriso de Cheshire Cat, esperava os convivas para a festa que se avizinhava, com a amabilidade e disponibilidade que só os grandes conseguem ter, gesto que repetiu, com toda a banda The Next Step, no final do concerto, em pleno Bar dos Artistas.

A generosidade foi presença permanente durante o espectáculo. A entrega, energia e o virtuosismo irmamente distribuído por todos os músicos, inexcedíveis até ao derradeiro instante, contribuíram para uma memorável sessão de longas e emocionantes jams, intercaladas pelo carinho do público e pela comunicação constante vinda do palco.

Infelizmente, o som podia ter sido melhor. Parecia demasiado estridente e com um volume exagerado, com ambas as baterias sem qualquer isolamento e as teclas pouco audíveis ao longo do espectáculo. Detalhes que em nada beliscaram uma noite inesquecível de Jazz e celebração.

Foi frequente observar a lotada Sala Suggia em momentos de contemplativo silêncio, perante o puro poder que recebiam de Kamasi e da sua família musical e de sangue. Todos os músicos partilham vida, palcos e estúdios desde a adolescência.

O seu pai, com a clássica flauta transversal e o sax tenor, trouxe um travo melódico da geração anterior, de Hubert Laws ou Pharaoh Sanders. O contrabaixo de Miles Mosley foi protagonista por inúmeras vezes, literalmente com um simples estalar de dedos ou um toque numa pedaleira, trazendo o instrumento para o séc. XXI e projectando-o para um futuro onde tudo é possível, excepto uma nota ao lado.

A dupla de bateristas Ronald Bruner Jr. e Tony Austin foi incendiária e absolutamente infalível, verdadeiros timoneiros do barco de luxo que são os The Next Step, modelando os ritmos conforme a inspiração mandava ou a improvisação pedia, controlando na perfeição o jogo de intensidades e cambiantes que cada solo imprimia à execução do impecável alinhamento.

A vocalista Patrice Quinn, voz angelical e poderosa, brincou graciosamente com as oitavas sempre que solicitada, com destaque para a inevitável “The Rhythm Changes”, que fechou o concerto numa passada rápida e incontrolável.

O alinhamento imitou o álbum, abrindo hostilidades com esse portento chamado “Change of the Guard”, dedicada ao malogrado Austin Peralta. Antecedido duma bateria em ritmo marcial, que desemboca na melodia de sopros imediatamente reconhecível, ouvimos pela primeira vez as teclas discretas de Cameron Graves, cujos solos mais longos ficaram para o final, mas aqui se espraiou em devaneios multi-rítmicos, ainda em aquecimento para o combate que começava.

“Re Run Home”, com nova introdução vocal, é um regresso ao passado, onde o jazz ainda se inventava, mas com os dois pés no futuro, pela intensidade e frescura de arranjos e execução, como se a música estivesse a ser criada naquele instante preciso.

A improvisação prolonga-se, sem pressa, e já 40 minutos passavam quando chega a homenagem à Avó Henrietta, “Henrietta Our Hero”, numa toada mais suave, temperada pela flauta do patriarca Washington e pela voz de Patrice Quinn.

O mano Miles Mosley tomou o palco em seguida, com uma improvisação entre o hiphop e o rock, contrabaixo transmutado em máquina de ritmos, guitarra e violoncelo, tocando e cantando o seu original “Abraham”.

Depois de uma espectacular batalha de baterias, em que o resto da banda aproveitou para retemperar forças, “Askim” reduziu o palco a cinzas e nem se deu pela falta dos coros e da orquestra da versão de estúdio.

“One more?”, perguntou Kamasi depois do longo aplauso e do regresso à boca de cena. Foram duas mais e o encore terminou com um supersónico “Impressions”, do pai do saxofone como hoje o conhecemos: John Coltrane.

O concerto de ontem na Casa mais não fez do que relembrar-nos porque The Epic (Brainfeeder, 2015) é um dos melhores álbuns deste século.

A música é genuina, sem o pretensiosismo e exibicionismo que tantas vezes ainda rodeia o Jazz e os seus praticantes, tornando-a assim abrangente e acessível, sem que tal signifique abdicar do rigor técnico e da linguagem que o torna um estilo tão amado, quase um século depois da sua explosão por terras do Tio Sam.

O público, à espera de ser conquistado, compreende e naturalmente deixa-se levar.

O Jazz voltou a estar na moda. Deixou de ser pertença de uma elite que colecciona artefactos como troféus e concertos como quem pratica a filatelia, para voltar a ser interpretado como nunca devia ter deixado de ser: livremente, com espaço para crescer e desenvolver ideias, para além das leis do mercado e de pré-concepções datadas, de que os consumidores só ouvem músicas de 3 minutos e, de preferência, com o máximo de acordes e compassos familiares.

O hiphop deixou para segundo plano os samples e voltou a ser tocado ao vivo, apoiado no Jazz e nos seus músicos, tornando mais desafiante e excitante cada novo evento, que assim se torna único e irrepetível, como outrora o foram os concertos de Miles, Coltrane, Pharaoh Sanders ou Sun-Ra.

A Brainfeeder, com o visionário Flying Lotus na sua liderança, tem sido exemplar nessa mudança de mentalidades e educação de públicos, músicos e mercados.

Kamasi tem essa aura de prodígio de outros tempos mas, filho do fim do século anterior, é muito mais consciente da mudança dos tempos e dotado do talento para adaptar a histórica linguagem jazística ao público que lhe chega, sedento de alguma profundidade na Arte, incessantemente divulgada, por todas as formas que lhe permitem estar “ligado” ao Mundo.

Kamasi Washington não é apenas mais uma voz no coro progressivamente indistinto da música contemporânea. É pura criatividade e ousadia.

The Epic é só o começo.

 



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