Kanye West | “Yeezus”

Kanye West | “Yeezus”

Um espelho do eterno espírito demolidor de West

“Could let the dream killers, kill my self esteem or use the arrogance as a steam that powers my dream… and my ego” entoava Kanye West numa faixa de colabração com Beyoncé em 2009 denominada, apropriadamente, «Ego». Porque todos aqueles que veneram e abominam o rapper não conseguem dissociar o artista da persona pública que reflecte uma arrogância e sentido de superioridade aviltantes. É impossível defender West na sua miríade de faux-pas que o acompanham desde o seu surgimento já há mais de uma década. Mas é possível tentar compreender o homem atrás da máscara, ainda que ele tente tornar essa tarefa num feito impossível.

O que é surpreendente em Kanye West é que, no meio das luzes da ribalta das quais se alimenta numa fome inesgotável, a sua honestidade e reconhecimento das suas falhas prevalecem por detrás de toda a falsidade que faz questão de o rodear. E numa época em que o seu “irmão mais velho” Jay-Z parece compreensivelmente deleitado por uma conquistada satisfação de uma nova fase de vida, contraditoriamente West – que também se tornou pai há poucos dias – parece mais irado e desesperado que nunca. Talvez por isso “Yeezus”, o seu novo disco de originais, seja um dos mas acutilantes golpes que a música contemporânea viu nos últimos anos: um disco que parece violar tudo aquilo que veio antes, uma pérfida tabula rasa imposta por um Deus vingativo e impiedoso. Ou seja, ele mesmo.

Começa abruptamente com «On Sight» e é um ritmo violento que se marca compasso para o resto do álbum. Electrónica industrial e suja, muitas vezes fazendo recordar as experiências dos Nine Inch Nails e outros nos anos 90 e numa contraposição directa com a experiência digital de “808s & Heartbreak” e o onírico fausto de “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, aqui misturada com o rap autoritário de marca Kanye West. Assim é pelo menos a primeira metade, completamente disruptiva e perturbadora, seguindo imediatamente para o hino bélico que é «Black Skinhead».

A raiva ateada por uma visão muito própria do tabu racial vai-se acumulando até chegar em gritos a «I Am a God», talvez o mais discutido tema do disco. Aqui o desconforto exaltado por uma produção perfeitamente exímia e milimétrica chega ao seu apogeu e o ego de Kanye atinge proporções verdadeiramente aterradoras, acabando por transfigurar-se e consumi-lo totalmente numa catarse demoníaca que não deixa de ser extasiante. Os gritos de tortura infernal que chegam mais perto do final causam reais arrepios na espinha e deixam a sensação de que se vivenciou uma experiência sobrenatural e tenebrosa. A afirmação politico-social continua com a gargantuana «New Slaves», que serviu de apresentação pouco convencional do disco, com West a ir contra-corrente e renegar associações a grande corporações na sua estratégia de marketing (ou ausência dela), num novo acto de fascinante contradição. Ambas as canções acabam com um final reformatado para trazer alguma luz à escuridão imposta, ora na voz de Frank Ocean ou Bon Iver, que não anunciados permeiam todo o disco, mas cujas contribuições são vitais para apaziguar a ira de Kanye.

E se a violência vai amainando a partir daqui, o exorcismo de demónios continua e o rapper vai consecutivamente despindo a pele com uma crueza invulgar. «I’m In It» começa perfeitamente pornográfica e herege, exalando sexo por todos os poros. No entanto, regride para uma culpabilização e vulnerabilidade pós-coitais totalmente imprevistas e quase infantis – “I’m so scared of my demons, I go to sleep with a nightlight” – como um equivalente musical de “Shame”, a dilacerante obra-prima de Steve McQueen. A desilusão segue com a atormentada «Blood On the Leaves», protagonizada por Nina Simone – uma fixação de West que já havia figurado recentemente em “Mercy” – e um sample de uma das mais importantes músicas do movimento social negro do século passado, «Strange Fruit», totalmente eviscerado por metais que acompanham o discurso sincopado e visceral de Kanye. Em «Guilt Trip» temos mais um mea culpa que musicalmente remete à nova vaga do hip hop, encabeçada por The Weeknd e Drake, mas que teve origem no próprio Kanye West. A revolução de rasgo industrial volta antes do final com «Send it Up», uma das quatro co-produções com os Daft Punk juntamente com as três primeiras faixas que, interessantemente, não podiam ser mais díspares da sonoridade retro de “Random Access Memories”.

«Bound 2» é a única canção do disco que parece caber no disco anterior de West, o opus dramático universalmente celebrado que foi “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”. Ambos mostram um artista num pedestal aparentemente inabalável de criatividade e vontade de quebrar e redefinir limites não só do género em que navega como em todos os outros que ousam revoluções numa época de estagnação. No entanto, os dois discos de originais não podiam ser mais desiguais – entremeados já com o estrondoso sucesso colaborativo com Jay-Z, «Watch the Throne», e uma compilação por ele encabeçada “Cruel Summer” – e este macabro “Yeezus” é um novo animal, totalmente selvagem e indomado, cujas garras só agora começaram por se deixar expor. Um espelho do eterno espírito demolidor de Kanye West, um dos últimos verdadeiros originais da nossa era.



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