Kasabian + RHCP + Soulwax @ RIR

O dia mais alternativo no parque da Belavista.

Sobre o festival, todos já falaram disso. Já todos lemos a incrível quantidade de pessoas presentes, já todos ouvimos sobre o aspecto social da coisa, já todos sabemos a dimensão do projecto Rock in Rio. Não é disso que vamos falar – não é isso que aqui importa analisar nem é apanágio caseiro apostar na redundância e na simples enumeração de estatísticas para descrever um evento, por muito amplo e grandioso que ele seja (e como o Rock in Rio, indiscutivelmente, o é).

Vamos falar, sim, dos outsiders deste Festival, que um certo condicionalismo melómano nos impede de catalogar de musical. Seria redutor e, acima de tudo, desajustado. Aqui, as pessoas trazem a família e a música é, longe de uma prioridade, um acessório nesta verdadeira feira que é o Rock in Rio.

A noite de 3 de Junho foi, ainda assim, pautada por algumas apostas mais arrojadas a nível musical. O nosso destaque recai nos Kasabian e Red Hot Chili Peppers no Palco Mundo e Soulwax versão nite versions, isto na tenda electrónica do espaço. Nenhum dos projectos é estreante em palcos nacionais, mas ainda assim o seu regresso a terras lusas merece o aplauso global.

Depois de um concerto na edição 2005 do Festival Sudoeste, os britânicos Kasabian regressaram a Portugal para estabelecer a ponte entre a infernal (calor, muito calor) tarde e a ambiência nocturna do dia 3 de Junho no Parque da Bela Vista. Prometem novo disco para o presente ano, mas o prato forte da actuação recaiu, obviamente, no homónimo álbum de estreia, com as suas composições de base assumidamente rock sem descurar algumas piscadelas de olho às pistas de dança. “Rock n’ Roll is back”, anunciou o vocalista Tom Meighan no começo do concerto – estava dado o mote para a actuação de uma hora dos Kasabian.

A sonoridade ao vivo dos ingleses não difere fortemente da combinação Primal Scream + Happy Mondays + Oasis que já conhecíamos em disco, mas, em palco, as canções da banda ganham um fôlego maior, uma maior frescura, inclusive. A recta final do espectáculo, com os melhores dois temas da banda («Club Foot» e «L.S.F.»), sintetizou isso mesmo. Depois do Sudoeste e do Rock in Rio, falta apenas um concerto em nome próprio para a ligação Kasabian-Portugal ficar definitivamente composta. O embarque, esse, está à disposição de todos.

Com novo disco (duplo) nas mãos, os Red Hot Chili Peppers (RHCP) encerraram a noite no Palco Mundo, numa demonstração de bom gosto. O começo, fortíssimo, deu-se com «Can’t Stop» e, de rajada, o single de apresentação do novo “Stadium Arcadium”, «Dani California». Escusado será dizer que os RHCP agarraram o público logo aos primeiros acordes, isto depois de um já de si brutalmente animado concerto dos nacionais Da Weasel.

Depois de uma dupla data no Pavilhão Atlântico há alguns anos atrás, o regresso de Anthony Kiedis, Flea e companhia a Portugal saldou-se numa vitória clara – não golearam, mas mostraram que continuam em pleno séc. XXI a ser uma banda fundamental no panorama rock norte-americano. A combinação punk-funk-rock dos Red Hot Chili Peppers continua a mover multidões, e o concerto no Rock in Rio 2006 não foi excepção.

Num alinhamento baseado na última década de carreira da banda, os Red Hot Chili Peppers provaram, se dúvidas houvesse, que o regresso do guitarrista John Frusciante à banda trouxe de volta a verve que muitos pensaram perdida. De facto, a banda sempre se caracterizou pela sua inovação e singularidade, e as largas dezenas de milhar que marcaram presença neste Rock in Rio puderam comprovar, in loco, a força com que a banda se apresenta em pleno Séc. XXI.

“Stadium Arcadium”, a novidade, faz-se representar pelo já citado «Dani California» mas também por temas como «Charlie» ou «Snow». Surpresa, ou nem tanto: boa parte do público canta já estas canções como suas.

John Frusciante arrisca uma passagem por «How Deep is Your Love», dos Bee Gees, Flea deseja boa sorte à Selecção Nacional de futebol para o Campeonato do Mundo que aí se avizinha. Chad Smith, um dinamismo notável na bateria. E Kiedis, Kiedis, um vocalista surpreendente, camisa preta e gravata vermelha a começo rapidamente substituídos por trajes menos formais. E uma energia… contagiante.

Algumas vezes os exageros virtuosos de Flea e Frusciante parecem isso mesmo, exagerados. Nem tudo é perfeito por aqui, óbvio, temas menores como «Throw Away Your Television» podiam ser evitados, por exemplo. Mas fica uma certeza, mais segura especialmente depois da sequência final «By The Way» + «Under The Bridge» + «Give it Away» – melhor Rock não se ouviu neste… Rio.

Paragem seguinte na tenda electrónica para escutar os Soulwax no seu modelo nite versions, ou como o rock também se fez para dançar. E muito, e muito. Antes, com Zig Zag Warriors e Dj Kitten, já o espaço havia registado um bom número de corpos em movimento, mas foi com o formato rock da dupla 2 Many Dj’s que o êxtase global verdadeiramente ocorreu. Os temas são óptimos, os músicos idem – culminar perfeito para um dia longo e intenso.

Não obstante a maior parte da oferta musical do Rock in Rio (conformista, datada e previsível), foram estes outsiders que mostraram que, afinal, há mesmo necessidade de arriscar um pouco nas escolhas de bandas para festivais. Foram estes outsiders que, com os seus bons momentos, provaram que mais risco impõe-se nos promotores de eventos musicais de larga escala. Sem minimizar e desprezar a (louvável) causa humanitária do projecto, impõe-se um novo slogan para a próxima edição nacional do Rock in Rio: “Por um Festival (Musicalmente) Melhor”.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This