Kenji Mizoguchi

Kenji Mizoguchi – Um olhar sobre o ciclo de cinema

O realizador dos esquecidos.

Até dia 19 de Julho o Espaço Nimas exibe os 9 filmes de Kenji Mizoguchi, que desde Maio, nesta sala, têm sido exibidos em grupos de três.

É uma boa oportunidade para ver rever um favorito ou assistir pela primeira vez a uma longa metragem deste realizador japonês.

Este conjunto de filmes pertence, maioritariamente, à última fase da carreira de Mizoguchi, entre 1951 e 1956, e a mais especial (o filme Conto dos Crisântemos Tardios é 1939). Por vezes alvo de constrangimentos criativos, nestes últimos anos da década de 50, Mizoguchi gozou de total liberdade artística, garantida pelo amigo e admirador Masaichi Nagata, dono dos estúdios Daiei*. Também nestes anos a comunidade cinematográfica europeia descobriu-o, tendo sido premiado em vários festivais, como Cannes e Veneza.

Sobre o tema, este grupo de filmes divide-se em histórico (“jidai-geki”) e contemporâneo (“gendai-geki”)*. Para os filmes de tema histórico a inspiração vem de antigos textos, como contos ou peças de teatro. Os filmes de tema contemporâneo centram a sua narrativa nos anos 50, reflectindo o diálogo na sociedade japonesa entre a ocidentalização e a tradição, fruto do pós-guerra.

Entre eles une-os a luta dos personagens principais contra as convenções socais – diferenças de classe e diferenças de género – e que, irremediavelmente, serão esmagados por elas. Mizoguchi escolhe as classes mais desfavorecidas da sociedade, os Agricultores, os Assalariados e as Mulheres.

As Mulheres são as mais desfavorecidas de entre os desfavorecidos. Para garantir a sua sobrevivência a sociedade só lhes permite duas funções: viver sob a protecção de alguém – a esposa, ajudando o marido ou recebida por familiares ricos – ou encontrar uma forma de subsistência no universo das Gueixas – como dona de uma casa de gueixas, ou como gueixa, cujo o rendimento muitas vezes era entregue à família para sustentar pais e irmãos.

As Mulheres e mais em particular o universo das Gueixas, são temas muito explorados pelo realizador ao longo da sua carreira. A motivação provavelmente encontra-se na vida pessoal, quando a sua irmã mais velha, com 14 anos, é entregue para adopção e depois vendida a uma casa de gueixas, para mais tarde tornar-se protegida e mulher de um nobre japonês*.

Neste ciclo, três filmes são sobre a vida das mulheres Gueixas. Mizoguchi tanto aborda a tradição das gueixas de Quioto (“Festa em Gion”), como a vida num bordel em Tóquio, no que para mim é o filme com as personagens mais diferentes e intensas de Mizoguchi “A Rua da Vergonha”.

A acção de “A Rua da Vergonha” centra-se num bordel em Yoshiwara, em Tóquio, nos anos 50. Na “Casa do Sonho” trabalham 5 mulheres, a quem realizador se dedica a caracterizar com elevado pormenor. Todas são movidas por desejos diferentes, mas todas estão sob o signo da tragédia familiar e que há boa maneira de Mizoguchi, assistiremos às tentativas de superarem obstáculos, para no fim sucumbirem com o peso das convenções sociais. Fica na memória a provocadora Mickey, a resistente Hanai que cuida do filho e de um marido tuberculoso, ou o momento em que Yumiko ao ser renegada pelo filho, persegue-o numa paisagem árida e industrial.

É tão forte a relação deste realizador com o universo feminino que basta ver dois ou três filmes para conhecermos mulheres fascinantes. Kenji Mizoguchi retratou mulheres profundamente apaixonadas (Osan de “Os Amantes Crucificados”), mulheres que se sacrificam (Anju de “O Intendente Sansho” ou Yokihi de “A Imperatriz Yang Kwe-Fei”), mulheres que resistem às provações (Otoku de “Conto dos Crisântemos Tardios” ou Shizu de “A Senhora Oyu”) e mulheres honestas e sinceras (Yokihi de “A Imperatriz Yang Kwe-Fei” ou Otoku de “Conto dos Crisântemos Tardios”).

Se nas mulheres depositou as virtudes, nos homens colocou os vícios: a corrupção pelo poder e dinheiro (Sansho de “O Intendente Sansho” ou família Yang de “A Imperatriz Yang Kwe-Fei”), a luxúria (“Festa em Gion”), o egoísmo e a ganância (Genjuro e Tobei de “Os Contos da Lua Vaga”), a vaidade e a cobardia.

Mizoguchi concedeu a algumas das suas personagens um destino diferente. Em “A Rua da Vergonha” a fria e calculista Yasumi consegue dinheiro suficiente para sair do bordel e tornar-se dona de uma loja de roupa. O jovem Zushio de “O Intendente Sansho”, contrariando as regras sociais, consegue ascender ao cargo de governador e derrubar o homem que o manteve durante anos como escravo.

É verdade que Mizoguchi não oferece o “final feliz” que tantas vezes desejamos para as personagens, mas creio que para este realizador a crueldade do mundo não permite a consumação da Felicidade. Em “A Imperatriz Yang Kwe-Fei” o amor do Imperador por Yokihi só se concretiza depois da morte de ambos, em que os ouvimos rir ao celebrar o seu reencontro. Com esta cena, parece-me, o realizador reforça a ideia que a Felicidade não pertence ao plano terreno.

Um outro tema que pontua quase todos os filmes é o teatro e a música de tradição japonesa. Em “A Senhora Oyu” o realizador filmou um espectáculo de teatro Nô e um espectáculo de Kyogen. Em “Conto dos Crisântemos Tardios” a acção passa-se em torno de uma família de actores de teatro Kabuki. Em vários momentos Mizoguchi utiliza a música como elemento potenciador dos sentimentos. Recordo o momento em que Anju descobre que mãe está viva por uma cantiga que refere a ela e ao irmão em “O Intendente Sansho”, ou o momento em que o Imperador escuta Yokihi a tocar no Ruan (instrumento de cordas chinês) uma melodia escrita por ele.

Da mestria do realizador recordo os primeiros planos de “Conto dos Crisântemos Tardios” em que a câmara desliza por fora da estrutura do teatro, seguindo os actores como se uma casa de bonecas se tratasse, ou plano de Yokihi caminhando para o seu final trágico em “A Imperatriz Yang Kwe-Fei”.

O mais importante é que se assista aos filmes de Kenji Mizoguchi, aproveitando esta belíssima oportunidade. Se tivesse de escolher 3 filmes deste ciclo para se ter uma boa visão deste realizador seria “A Imperatriz Yang Kwe-Fei”, “Os Contos da Lua Vaga” e “A Rua da Vergonha”.

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*“Kenji Mizoguchi. As Folhas da Cinemateca” 2005

 

Ilustração de Joana Fernandes



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