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Kimo Ameba + Os Passos em Volta @ Galeria Zé dos Bois

Apesar das imperfeições que se podem apontar a uns e outros, os Kimo Ameba e Os Passos em Volta são uma injecção de sangue novo no anémico rock português.

Depois de quase duas décadas de relativo marasmo apenas contrariado pelas normais excepções à regra, a música pop portuguesa atravessa um dos seus períodos mais férteis: um conjunto de pequenas editoras/movimentos conseguiu furar a ditadura da sensaboria, das “instituições nacionais”, das canções repetidas ad nauseam nas rádios, do culto do reconhecido. Através da internet e de muito e aturado trabalho (e do “amiguismo” de certos jornalistas, gritarão algumas vozes, as mais ressabiadas), a Amor Fúria e a Flor Caveira (e, de um modo menos “organizado”, as bandas mais ligadas à Filho Único) conquistaram o seu lugar ao sol. Chega agora a vez da Cafetra Records.

As gentes da Cafetra — Fetra para os mais chegados (todas as bandas da editora têm uma canção com esse título) — são de outra geração, o que se percebe bem nas suas influências. Se as coordenadas da Amor Fúria, por exemplo, são as novas vagas do princípio da década de 80 (principalmente, Heróis do Mar e Sétima Legião), as da Cafetra são as guitarras rasgadas dos anos 90 e, vá lá, de fins de 80 (não é bem assim, podem descobrir-se traços da nu wave nova-iorquina e do pós-hardcore primordial, mas faz de conta), a que se usou chamar “música alternativa”. (É curioso verificar que ambos os casos se enquadram num revivalismo praticado por quem nasceu muito tarde para se poder lembrar, mas adiante.)

Desde janeiro de 2011, a Cafetra já lançou uma compilação, 5 EPs (incluindo “Juno-60 Nunca Teve Fita”, das Pega Monstro, o duo sobre o qual recaíram as primeiras atenções) e dois álbuns: “Até Morrer”, d’Os Passos em Volta, e “Rocket Soda”, dos Kimo Ameba, as bandas à volta das quais os mil e um projectos da editora gravitam. O concerto da ZDB no passado sábado, 11 de Fevereiro, serviu para apresentar o álbum dos Kimo Ameba, que saiu nessa noite (e pode ser ouvido aqui).

Em mais uma noite fria de Inverno, o clima no aquário, outrora conhecido pelas altas temperaturas, estava ameno. A meia-casa sugeriria o termo “morno”, mas isso seria uma injustiça para o ambiente festivo, de encontro de amigos, de festa de escola — no bom sentido: a família Fetra estava toda lá para apoiar; no mau sentido: nalguns momentos, dava ideia que se estava perante uma muito pública private joke que só os iniciados conseguiam entender, ou pondo de outra maneira, parecia um filme escrito pela Diablo Cody  —, que se fazia sentir.

Essa ideia, de tudo ser uma private joke, ficou mais presente no concerto dos Kimo Ameba, concretamente na voz, que se pode descrever como algo entre uma cabrinha possessa e o yodel demente (ou José Figueiras em ácido), e parece quase um exercício de sabotagem à música orelhuda em que assenta. Não sou eu que vou deitar abaixo o gosto pelo absurdo (e uma das características mais louváveis dos membros da Cafetra é essa falta de medo ao ridículo; uma coragem muito pouco portuguesa), mas, em termos puramente estéticos, é uma merda (embora acabe por funcionar melhor em disco). E estraga o som das guitarras rápidas e furiosas, que por vezes se libertam em micro-solos de ruído, do baixo corpulento e da bateria marcial e precisa («Kids Are Daficient» foi quase krautrock). É tanto mais estranho quando se notava que as músicas, mesmo quando os Kimo Ameba trocavam de instrumentos (o que aconteceu amiúde), estavam extremamente bem ensaiadas. (Fica a sensação que a sabotagem é mesmo o efeito pretendido.)

Os Passos em Volta (cujo álbum “Até Morrer” pode ser ouvido aqui são um caso diferente. Primeiro, porque ao tradicional elenco de uma banda rock (duas guitarras, um baixo, uma bateria) contrapõem três guitarras, um órgão e uma bateria (e o ocasional baixo), que se conjugam numa massa disforme e imprecisa, de dinâmicas em oposição, como se coexistissem diversas correntes na mesma canção a lutar pelo seu espaço. Depois, porque isso baralha o jogo de detecção de influências, que, apesar de reconhecíveis — o feedback, o jogo de vozes, o desafinanço vocal e instrumental, a passagem da voz doce para o grito (à Charles Thompson, vulgo, Black Francis) —, aparecem mastigadas, e, portanto, resultam numa música bastante pessoal, a que não são alheias as letras de Éme, entre o confessional e o disparatado (aqui, no melhor sentido).

Apesar das imperfeições que se podem apontar a uns e outros, os Kimo Ameba e Os Passos em Volta são uma injecção de sangue novo no anémico rock português. Mais, as suas imperfeições são as próprias armas para combater o cheiro a naftalina reinante. Esta música cheira a parvoíce, ao vómito das primeiras bebedeiras, ao suor do desconforto adolescente; é nova, no melhor dos sentidos possível.



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