Kings of Convenience @ Aula Magna

Invasão pacifica de simplicidade e bom gosto.

“Já passaram 5 anos desde a nossa última actuação em Portugal. Já tínhamos saudades vossas”. Foi assim que Erik Glambek deu as boas-vindas ao público que esgotou (e transbordou) a Aula Magna e que claramente partilhava o mesmo sentimento do duo norueguês. Durante mais de uma hora e meia, os KOC comprovaram em palco que a música não precisa de ser “complicada” para ser bela. Um dos concertos do ano em três actos: o aquecimento, a consagração e a invasão.

1º Acto – Aquecimento

A última e única actuação dos KOC em terras lusas teve lugar no saudoso Festival Hype @ Meco em 2002. Mesmo englobados num festival de índole electrónica, a acústica altamente viciante do projecto norueguês triunfou e conseguiu captar a atenção de um público exigente que tem acompanhado a carreira do duo.

Mas os KOC de 2002 são bastante diferentes daqueles que subiram ao palco da Aula Magna. As razões: em 2002 apenas tinham um disco de originais para apresentar, o extraordinário “Quiet Is The New Loud”, agora têm um reportório bastante mais alargado, através da edição do segundo disco “Riot on na Empty Street”; em 2002 Erlend Oye ainda não era “ninguém”, hoje é um dos mais respeitados autores e dj’s europeus (o “look like geek” mais fashion do momento) já com uma experiência de “estrada” e de entertainer bastante respeitável; em 2002 seria impossível encher uma Aula Magna, hoje já podiam tocar no Coliseu.

Embora as diferenças sejam notórias, a música dos KOC manteve-se inalterada. A simplicidade acústica e o timbre sussurrante com que interpretam os temas transformam as suas composições em momentos únicos de beleza, que rapidamente contagiam todos aqueles que se encontram em seu redor.

Foi desta forma simples e embaladora que Erik Glambek e Erlend Oye se apresentaram na Aula Magna. Exemplares na pontualidade (algo quase inédito em Portugal), o duo iniciou a sua actuação com um tímido e nervoso «Until you Understand» para depois “penetrar” no seu mais recente disco com dois lindíssimos temas: «Love is no big truth» e «Cayman islands».

A postura calma e tranquila do duo em palco fazia antever um concerto simpático mas sem grande chama. Felizmente, um dos hábitos mais característicos do povo português – chegar atrasado – motivou uma expressão de Erik Glambek que na realidade quebrou o gelo e serviu de ponte para um “segundo acto” bem mais interessante: “Vamos tocar a quarta música -­ o ambiente começou por estar um pouco nervoso, agora está a aquecer”.

2º Acto – A consagração

Com o público cada vez mais à vontade, as “novas” interpretações de «Winning A Battle» e «Gold In The Air of Summer» (com piano à mistura) empurraram os KOC para um grande concerto que rapidamente se tornou memorável. Em «Singing softly to me», a interacção com o público começou a sentir-se através de “estalidos dos dedos”. A partir deste momento, nada foi como dantes.

Um das surpresas da noite aconteceu logo a seguir. Erlend Oye abandona o palco e coloca-se no meio do público que enchia as doutorais, deixando Erik Glambek sozinho em palco a interpretar «Corcovado» de Tom Jobim, num português esforçado e surpreendente que motivou o primeiro grande coro da noite. O público estava finalmente rendido ao duo norueguês.

Sempre “navegando” entre os dois discos de originais editados, a noite prosseguiu com «Homesick», «Stay out of trouble», «Know how» e «The Boat Behind», uma nova música da banda que foi antecedida por um discurso de Erlend Oye sobre os portos, o amor e os barcos.

Com o concerto no seu momento mais alto, são chamados ao palco dois ilustres convidados que participaram no último disco dos KOC: um baixista italiano e um violinista alemão. Resultado: a melhor sequência da noite com «Misread» e a fantástica «Toxic Girl». Chegámos ao final do 2º Acto. O que se passou a seguir irá de certeza ficar na memória dos intervenientes.

3º Acto – A invasão

A Aula Magna estava ao rubro e o calor era intenso. Naturalmente motivado com a excelente aceitação do público, Erlend Oye apelou ao público para subir ao palco: “Não faz mal pois não, senhor guarda?”. A invasão pacifica do mesmo não demorou muito tempo e, um minuto depois, um quarto da Aula Magna estava em cima do palco, rodeando os músicos, mediante o olhar estupefacto de algumas pessoas que se encontravam sentadas nas doutorais e que de um momento para o outro apenas podiam ver pernas e corpos dos fãs completamente em êxtase.

«I’d rather dance with you» foi cantada e dançada por todos numa comunhão bastante difícil de descrever e que ficará na memória de quem esteve presente, mesmo daqueles que não tiveram a oportunidade de estar em cima do palco.

Depois da tempestade, a bonança. Já com o público sentado em cima do palco, num cenário nunca visto na Aula Magna, houve ainda tempo para «Paralell Lines», «Waiting In Vain» (uma versão sublime e crua do clássico de Bob Marley) e «Little Kids» que terminou de novo em festa com Erlend Oye a dançar com o público e com uma enorme ovação por parte de todos os presentes (até mesmo aqueles que estavam sentados nas doutorais e não viram parte do concerto).

2006 ainda vai na sua primeira metade mas sem dúvida que este concerto ficará na memória de todos os presentes como um dos melhores do ano. Vamos esperar que não demorem mais 4 anos (e não cinco como Erik Glambek disse no início do espectáculo) a visitarem-nos. A simplicidade é necessária de vez em quando…



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