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Kurt Vile + b fachada

Os heróis de Kurt Vile. Frágil, 9 de Dezembro de 2009.

No Frágil, às 23:30, não cabia nem mais uma alma. É certo que Kurt Vile não é mais que uma figura de culto em Portugal, mas exigiam-se melhores condições nesta que foi a estreia do músico norte-americano, em Lisboa. Entre falta de espaço e problemas de som, b fachada – uma das coqueluches da FlorCaveira – e Kurt Vile arranjaram forma de nos presentear com dois belos concertos.

Primeiro b fachada. Não deixa de ser simbólico que tenha vindo do meio do público, do centro do povo – esse local onde toda uma aldeia se encontra –, aqueles que canta nas letras das suas excelentes canções. Depois de um falso arranque – os tais problemas de som – fachada apresenta as tais canções. Canções cheias de humor, ironia e verdade – esta última foi “roubada”, como se perceberá mais à frente. Canções com que facilmente nos identificamos. “Canções de Viola Braguesa”, o EP que o apresentou ao mundo, e de “Um fim-de-semana no Pónei Dourado”, o muito elogiado álbum de estreia. Bem disposto, o músico tem tiradas como “sinto-me com um megafone à frente e a cantar no balcão central”, numa clara alusão ao “futebolês”, ou “para todos os que não crêem: são só dois acordes – quatro já seria jazz -, põem uma letra por cima e já está”. No final, na ressaca do concerto ouvíamos a melhor definição para a actuação de fachada: “este homem canta a verdade, quero lá saber que sejam dois acordes!”.

Kurt Vile também surge em palco vindo do meio da plateia – ao que parece não havia outra maneira de o fazer –, mas para fazer algumas afinações finais ao nível do som. É um sujeito tímido e desajeitado que mais parece saído dessa Seattle dos anos 90, o local e o tempo certos para os inadaptados poderem ser alguém na vida. Curiosamente respira-se muito melhor – referimo-nos de espaço – antes do espectáculo de Kurt Vile que à saída do de b Fachada. Os problemas de som, esses, mantinham-se.

Não fosse um sampler e um saxofone e poderíamos resumir isto à essência do rock n’ roll: duas guitarras e uma bateria. Vile gosta dos anos 60. Aprecia os Stones e adora os Kinks. Nota-se. Entra por territórios blues, usa a distorção para prolongar as músicas até ao seu orgásmico final e adiciona-lhes laivos de psicadelismo – algumas canções são Vile mais voz arrastada e imperceptível mais sampler mais guitarra. Nas partes menos cantadas e mais berradas parece um Julian Casablancas (Strokes) menos contido. Depois há Dylan… quando há harmónica. Basta dar uma vista de olhos aos myspace do artista. Estão lá todas estas referências e muitas outras. De Robert Johnson aos Stooges, passando por uma dispensável dose de “cocaína no cérebro”. Kurt Vile ouviu muita música em miúdo. Na verdade este sujeito não inventou nada, mas é muito bom a “imitar”, ou se preferirem a reinventar a música dos seus ídolos. Sim, um rapaz assim tem que ter ídolos e heróis.

Há pouco espaço em palco, mas Vile racionaliza-o ao máximo. Senão vejamos: há uma canção que começa com bateria e guitarra, há um berro, entra um saxofone, a guitarra segue-lhe as pisadas e às tantas temos uma barulheira infernal em palco – descrito assim até parece estar no palco de um Coliseu.

Nota máxima à iniciativa – mais eventos como estes são bem-vindos –, nota menos positiva para as condições. Os problemas de som haveriam de se fazer sentir até ao fim. No encore Kurt haveria de referir: “finalmente posso tirar este prato [de bateria] daqui”. Falta de espaço, pois claro.



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