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Laboratório das Artes

A partir desta edição, a Rua de Baixo dedica um conjunto de reportagens à cidade de Guimarães. Com 2012 no horizonte, começamos com o Laboratório das Artes, um colectivo com dez anos de vida e que coloca Guimarães no mapa das artes plásticas. Tubos de ensaio substituídos por pincéis...

Em noites de calor, Guimarães sai à rua – ok, podíamos começar esta história trivial por dizer que “em noite de calor, Braga sai à rua”; ou “em noite de calor, o Porto sai à rua”; ou ainda “em noite de calor, Lisboa sai à rua”. Mas é Guimarães que nos interessa, por agora. E, por isso, e para que não restem dúvidas, em noites de calor, Guimarães sai à rua, com os cães, com os carrinhos de bebé, com os amigos, com as namoradas, as amantes, os pais, os netos.

E em noites de calor, Guimarães pára, obrigatoriamente, no café Milenário, para uma cerveja (claro!), para um refrigerante (menos apelativo, mas gostos são gostos…), para um café (com este calor damos louvores aos corajosos…) ou para dois dedos de conversa com os amigos (apoiamos seriamente). Café centenário, recentemente intervencionado, é uma espécie de ex-libris da cidade, com paragem obrigatória em cada noite – uma equivalente, vá lá, à Brasileira em Lisboa, ao Piolho no Porto, à Brasileira de Braga. E é lá, claro, que combinamos encontro com um colectivo de quatro artistas plásticos que acabam de alugar casa nova, mesmo ao lado do café – uma boa vizinhança é sempre meio caminho andado para a busca da desejada felicidade. “- 21h? – Perfeito!”. Um café, uma olhadela rápida (e tardia) pelos jornais do dia (na noite já). Há um colectivo que vale a pena conhecer – mas que demora um pouco a chegar.

Breve história

O atraso é sinónimo de trabalho, entre aulas, explicações, jantar com família. Um a um, lá vão chegando à hora combinada. Primeiro Jorge Fernandes, depois José Emílio Barbosa, por fim, ainda entalado com a velocidade do jantar, Luís Ribeiro (fica a faltar Nuno Florêncio, a quarta perna desta mesa perfeita). Tempo ainda para tomar alguma coisa, que o calor aperta, mesmo a esta hora tardia.

Algumas considerações rápidas antes de seguirmos viagem para a nova casa do Laboratório das Artes (estamos em pulgas para a conhecer!): o grupo surgiu há 10 anos, numa altura em que “Guimarães, enquanto cidade artística, estava confinada a um só espaço, a Galeria Gomes Alves”. O intuito era dinamizar as artes plásticas na cidade e dar espaço a novos artistas de exporem os seus trabalhos, numa realidade complicada como a portuguesa, numa realidade árdua como a de Guimarães. Tudo começou pela ocupação de uma loja comercial, onde o proprietário os convidou a apresentarem trabalhos realizados na ESAP Guimarães. “Foram oito meses cheios de actividades”. Mas ao fim desse tempo surge o primeiro revés – a mudança de espaço (aliás, os dez anos de vida do Laboratório das Artes confundem-se com as sucessivas mudanças de casa. Com este novo espaço, já vamos na quarta casa…). “Seguiu-se uma casa senhorial, com três pisos, cinco salas cada piso”. Uma excelente oportunidade para exposições, num contacto mais directo com o público. Mas, a pergunta: como cativar o público? “Foi a par e passo, devagar, a sensibilizar e educar os públicos”, com a felicidade de existir uma excelente rede de conhecimentos com as pessoas de Guimarães.

Seguiu-se nova mudança de casa, uma galeria transformada em residência artística que assustou a proprietária, que pensou existir um processo ilegal de subaluguer e os pôs a correr do local. “Não faças dos teus pensamentos blocos de cimento”, lia-se numa das exposições do colectivo. Mas a proprietária já tinha um muro construído há muito tempo.

Exposições patentes

Chegados a 2010, sem espaço (físico), com uma relevância enorme na difusão das artes plásticas e experimentais em Guimarães, há que procurar nova casa – até porque as garagens começam a ser demasiado pequenas para todo o espólio de um grupo com dez anos de vida.

Jorge roda a chave, uma escadaria aparece em frente. Estamos na porta ao lado do café Milenário, um edifício com três pisos (mas sem cinco salas cada um, que a casa senhorial já ficou lá atrás). Subir/seguir é obrigatório.

Piso 1, uma sala ampla de exposição, um amontoado de sacos de serapilheira, uma instalação de Pedro Valdez Cardoso. “Foi convidado a criar uma instalação que resultasse da aproximação da arte e medicina”, diz Jorge Fernandes. Uma “Lição de Anatomia”. “É uma simulação de uma trincheira de guerra, uma espécie de partes de corpos humanos fragmentados, remete para a nossa história”.

Piso 3 (subimos sem parar pelo piso 2): uma sala ampla, com colunas a ligarem o chão ao tecto. “Aqui temos outra exposição – “Olhar Amplo” -, do José Almeida Pereira, que procurou criar uma ligação com a função do espaço” (em tempos, este foi um conhecido salão de jogos da cidade, o “Apolo”). “Usou algumas imagens retiradas da NASA e diferentes bandeiras representadas nas janelas do espaço, onde, através dos elementos astrais, entra luz no espaço”, revela Luís Ribeiro, calcorreando o espaço. As duas exposições ficam patentes até dia 25 Junho (e acho que não precisamos de escrever aqui que são altamente recomendáveis…).

Espaço multidisciplinar

Fechamos a visita pelo piso 2 (ok, não se preocupem, ainda sabemos que começa no 1, segue-se o 2 e apenas no final o 3…). É o espaço mais multifuncional de todo o edíficio, é bar, é espaço de concertos, é local de conversas, é acolhedor para conferências. “É um espaço multidisciplinar onde fazemos várias propostas, desde concertos mais experimentais até conversas com artistas”, revela Luís, entre bancos que mais parecem baldes ao contrário e uma parede totalmente intervencionada. “Este é o desígnio do Laboratório, ser um espaço de experimentação constante. Tudo começou pelas artes plásticas mas hoje já criou as suas ramificações, que tornaram o projecto mais coeso, com filmes, conferências, concertos, que tornaram o laboratório real”, revelam, entre olhares cúmplices – aliás, nada disto teria resultado se não fossem grandes amigos e não existisse “uma profunda amizade”. São os próprios que o dizem, mas não precisavam de dizer. O sorriso e a paixão com que falam do projecto revela tudo. Um tudo que começou há dez anos e que, acreditamos nós, terá pelo menos mais dez anos pela frente. A postos para as novas aventuras, rapazes? Agora já têm uma casa, já não há mais desculpas…



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