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Larry Levan

A importância de um legado.

Não é raro, ao ler ou consultar revistas, fóruns ou blogs dedicados ao fenómeno da dita música de dança, ver com frequência mencionado o nome de Larry Levan. Apesar de falecido há quase 17 anos (em 8 de Novembro de 1992, tendo nascido 38 anos antes, a 21 de Julho de 1954), continua a ser falado; e sendo a cultura de clube um meio por vezes tão efémero, no sentido em que, o que é hoje válido, amanhã pode já não o ser, quais as razões que levam a que Larry Levan continue a ser relembrado, mesmo tendo passado tanto tempo após o seu desaparecimento físico? O que de tão excepcional existia neste homem, que iniciou a carreira de DJ em 1971, para que se continue a falar nele?

Uma das principais razões será por continuar a ser considerado um dos melhores DJs de sempre, tanto por quem na altura frequentava o Paradise Garage (clube Nova-Iorquino, ao qual o nome Larry é indissociável), como pelos DJs que eram seus contemporâneos. É comum lerem-se relatos de como os seus sets eram fantásticos e que conseguia mexer com as emoções do público. Ou seja, ouvi-lo era quase sempre uma experiência inesquecível.

Esforçava-se ao máximo para contar uma história através dos seus sets e era perceptível conseguir perceber o seu estado emocional através da música que escolhia, sendo que, não raro, quem o ouvia, ficava de certa forma refém desses seus estados de espírito. Basicamente, gostava de criar drama e tensão na pista de dança, gostando de mexer com as mentes, provocando-as, por vezes até irritando, mas mesmo assim conseguir com que as pessoas saíssem do Paradise Garage com a sensação que tinham ali vivido alguns dos melhores momentos das suas vidas.

Ainda hoje é notório, através dos vários relatos que se vão lendo acerca dos noites no Paradise Garage, que Larry era adorado, alvo de devoção quase religiosa. Estando à frente de uma cabine de som como a do Paradise Garage (considerado, na altura, o clube com o melhor sistema de som no mundo) e tendo a seu dispor todas as potencialidades que esta lhe apresentava, como um perfeccionista, sempre tratou de tirar o maior proveito disso em favor dos seus sets; conseguindo fazer com que um tema, que muitos consideravam mediano, soasse muito bem naquele sistema de som. Havia até quem produzisse temas feitos de propositadamente de modo a soarem bem no Paradise Garage – tal como admitiu o produtor Arthur Baker acerca da música «Walking On Sunshine» de Rockers Revenge.

Era Levan quem na maioria das vezes ditava o que seria ou não um “hit” nos meses futuros noutras pistas de dança, o que fazia com que vários DJs o fossem ouvir, assim como existiam vários produtores que lhe entregavam em 1ª mão demos de produções suas para que Larry as testasse no Paradise Garage. No fundo, era um DJ residente que se esforçava ao máximo para que nenhuma noite fosse igual à anterior, que adorava mostrar coisas novas a quem o ouvia, que arriscava e não tinha qualquer medo de reacções negativas, tentando estabelecer tendências – precisamente o contrário do que é hoje normalmente associado ao DJ residente de um clube (salvo raras excepções).

Outra das razões da cimentação da sua figura seria a unanimidade acerca do seu bom gosto e grande ecletismo musical. Tentava seleccionar tudo o que achava melhor dentro dos vários estilos, fosse Disco-Sound, Funk, Soul, Hip-Hop, Rock, Electro, Reggae, Dub e, numa fase mais posterior, House. Nos 11 anos em que o Paradise Garage funcionou (entre 1976 e 1987), e mesmo após o fecho deste, muita coisa se ouviu através das mãos de Larry Levan. Não esquecer que essa época, em termos musicais, foi das mais fervilhantes e ele estava sempre em cima do acontecimento.

Para a evolução da sua cultura e abertura de espírito, foi essencial o facto de frequentar, logo no início da década de 70, clubes e festas como o Gallery de Nicky Siano ou o Loft de David Mancuso; locais onde era dada primazia à qualidade da música ouvida, assim como à qualidade com a qual era reproduzida (sobretudo no Loft). Tudo era feito para conseguir pôr as pessoas a dançar e fazê-las regressar a casa com um enorme sorriso nos lábios.

Nesta altura, Levan andava quase sempre acompanhado pelo seu grande amigo Frankie Knuckles, que mais tarde veio a ter um papel muito importante na cena House de Chicago (em parte devido ao próprio Larry, que recusou um convite para ser residente no clube Warehouse em Chicago, recomendando, em contrapartida, o nome de Frankie e o resto como se sabe é história).

Convém realçar que muitos dos temas que são hoje considerados clássicos do Paradise Garage continuam ainda a serem tocados e a soar bastante actuais. O mito associado à sua figura é reforçado por, para além de DJ, ter sido um bom produtor e remisturador. Se as primeiras remisturas que fez ainda durante o final dos anos 70 soavam ao trabalho de outro qualquer remisturador da era, nos anos 80 a história foi outra. Para ele, o principal era que os temas soassem bem no sistema de som do Paradise Garage e explorou intensamente as técnicas do Dub aplicadas ao Disco-Sound e ao Electro (outro que o fez com igual intensidade foi François Kevorkian) criando técnicas de produção inovadoras para a época – que podem ser ouvidas em temas como «Seventh Heaven» de Gwen Guthrie ou «Don’t Make Me Wait» dos NYC Peech Boys – e actualmente utilizadas por nomes como Idjut Boys ou Chicken Lips.

Tendo isto em conta, constata-se que a herança que deixou continua bem viva, seja através de DJs/Produtores que foram seus contemporâneos e que ainda estão no activo, como François K, Danny Krivitt, Joe Claussell, Danny Tennaglia ou DJ Harvey (que chegou até a trazer Larry Levan para passar som no Ministry Of Sound, pouco antes do seu falecimento), seja através de uma nova escola, como Rub N Tug, 2manydjs, The Glimmers, Carl Craig, Tim Sweeney, James Murphy, Morgan Geist, Daniel Wang, Andy Blake, Skull Juice, entre outros. Todos estes, à sua maneira, transmitem-nos o legado que Larry Levan nos deixou, ou seja, o de uma noite (ou dia!) bem passado, a ouvir-se boa música, seja ela de que estilo for e sem medos de, por vezes, arriscar vazar uma pista.

Numa era em que cada vez mais DJs optam por se dedicar quase exclusivamente a um estilo, ora jogando pelo seguro, ora passando o que acham que o público quer ouvir, cada vez mais são necessários outros que se inspirem no legado que Larry Levan nos deixou.



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