rdb_artigo_lastpoets

Last Poets @ Casa da Música

1 de Maio, 22h00.

Em pleno Dia do Trabalhador, os míticos The Last Poets estiveram no Porto, inseridos em mais um ciclo “Música e Revolução” da Casa da Música (que, pelo seu carácter transversal, se vem afirmando com um dos mais interessantes momentos da programação anual da Casa). Formados em finais da década de 1960, em Nova Iorque, os The Last Poets constituem um grupo fulcral para, através dos seus poemas e das suas músicas, termos uma visão mais alargada da história social e musical dos EUA dos últimos 40 anos. Não foram, contudo, assim tantos aqueles que decidiram vir até à Sala Suggia assistir a este concerto, acabando por ficar a sala principal da Casa da Música meia vazia, o que certamente penalizou um concerto que poderia ter sido bastante mais forte, se tivesse beneficiado do “ambiente certo”.

Ao vivo, acompanham três dos The Last Poets originais (Umar Bin Hassan e Abiodun Oyewole nas vozes e Bon Babatunde Eaton na percussão), o teclista Robert Irving III, o baixista Jamaaladeen Tacum e o baterista Ronald Shannon Jackson, uma formação sólida, capaz de fornecer, sem excessos de virtuosismo, as bases de funk e jazz que acompanham as palavras de crítica e intervenção que desde sempre constituem a imagem de marca do grupo.

O concerto começou com uma base instrumental, inicialmente apenas percussão e voz, com Don Batunde Eaton a incentivar à festa, num registo quase afro-beat. Progressivamente, os restantes músicos foram subindo ao palco, tecendo uma malha robusta de funk contagioso. Este início foi, contudo, “quebrado” com a entrada dos dois vocalistas que fizeram então uma longa introdução, recordando alguns dos nomes que, ao longo dos últimos 40 anos, estiveram ligados aos The Last Poets (cujo aniversário é celebrado nesta tour). Foi então necessário regressar ao início, começando a construir-se lenta e progressivamente o ritmo do concerto. Musicalmente muito bem apoiados, Bin Hassan e Oyewole vão alternando o registo assumindo, ora um, ora outro, “a voz principal” dos temas. Ao vivo, os dois Poets complementam-se, sendo que enquanto Umar Bin Hassan tem um registo mais próximo do que podemos entender com um declamador e é também o mais expressivo na performance, enquanto Abiodun Oyewole arrisca frequentemente aproximações à soul e tem um fraseado que toca a métrica rap. De qualquer modo, a voz é definitivamente o centro do espectáculo, e os poemas dos Poets falam-nos da guerra, de racismo, de ódio, de conflito, mas também de afectos e relacionamentos. Um dos momentos altos do concerto acontece com «Rain of Terror», com direito uma longa introdução em que falam do Iraque e de Obama (um tema recorrente ao longo do espectáculo, sendo perceptível o nível de confiança/esperança e de entusiasmo que os músicos depositam no novo presidente dos E.U.A.).

Tantas vezes apelidados de pais do rap, um dos momentos mais interessantes do concerto aconteceu com a emotiva homenagem dos The Last Poets a Jimmy Hendrix e à herança negra nos blues e no rock’n roll, mostrando que as fundações da música negra urbana de hoje são mais profundas e que importa não esquecê-lo.

Quase duas horas depois, o concerto termina, com os músicos convidados a abandonarem o palco, ficando apenas o trio-base de fundadores dos The Last Poets, para interpretarem o fortíssimo «This is Madness» (do segundo álbum do grupo, de 1971), terminando o concerto “regulamentar” em grande forma. Apesar de a Sala Suggia não estar, como referimos, completa, os presentes foram suficientemente barulhentos e persistentes para convencer o grupo a regressar ao palco para um último tema, num registo mais livre, numa espécie de jam session combinando jazz e spoken word (no estilo que por vezes apelidam de jazoetry).

No final, saímos com a sensação de que este concerto poderia ter sido muito mais se a afluência tivesse sido maior e sobretudo se o espaço fosse mais adequado à dança. 40 anos depois, os The Last Poets continuam rebeldes e empenhados na revolução e a sua música é, como diziam a certa altura do concerto, para pensar, mas também para se desfrutar e dançar.

Já cá fora, na praça da Casa da Música, houve tempo ainda para um contacto directo com os músicos e para trocar algumas impressões sobre a música e percurso da banda, bem como sobre o contexto político actual nos E.U.A. e no resto do mundo.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This