Laura Veirs

Estreia intimista em Portugal.

Com um aspecto de artistas itinerantes que passam a vida de guitarra às costas ganhando apenas o suficiente para comer, Laura Veirs e o namorado (que também é o músico que a acompanha) conquistaram os portugueses que assistiram ao concerto no dia 27 com a sua simpatia genuína. Laura Veirs provou do que é capaz uma rapariga provinciana munida de uma guitarra e uma voz sublime.

São quase 22 horas (hora prevista para o início do concerto) e não estão mais de quinze pessoas na sala. Meia hora depois a coisa lá se compôs um pouco e uma miúda simples com cabelo meio desgrenhado e preso à pressa pega na guitarra muito discretamente. As pessoas começam a aproximar-se: uns sentam-se no chão perto do palco, outros ficam mais atrás de pé e outros no andar de cima, sentados nas mesas com um copo, uma chávena de café ou um cigarro.

Num ambiente de saloon americano, Laura Veirs começa a cantar, acompanhada à bateria pelo namorado: o músico e produtor Tucker Martine.

Apesar do desconsolo numérico da presença de três ou quatro dezenas de pessoas era notória a proximidade cúmplice de quem partilha o mesmo gosto musical calmo, simples e tranquilo. Tentando vencer a timidez Laura começa por explicar que sofreram uns contratempos na British Airways onde perderam três malas que continham toda a roupa dela, os cd’s que traziam para vender, os pedais da guitarra e ainda algumas partes da bateria.

Isso não invalidou de forma nenhuma o concerto que teve tanto de simples como de magnífico para quem possuia tão poucos meios para além da própria voz. Contrariamente ao habitual, neste concerto a voz parecia ganhar uma qualidade que não se consegue apreender num álbum. A voz extremamente pura, cristalina e versátil foi o seu principal instrumento (paralelamente ao seu assobio gracioso e afinado), substituindo muitas vezes os solos de guitarra e sons como violino, violoncelo, piano e electrónicos que aparecem nas músicas dos álbuns. Isto notou-se bastante em “Shadow Blues”.

De facto, se no início da sua carreira musical as músicas eram mais cruas e acústicas, a evolução que foram sofrendo foi no sentido de se tornarem mais complexas e elaboradas instrumentalmente com o recurso a mais e mais variados instrumentos e sons electrónicos. Talvez por isso se esperasse mais do que um baterista e a sua própria guitarra. Havia com certeza quem aspirasse a ver um violino ou mesmo um violoncelo e sentisse falta de temas como: “ Chimney Sweeping Man”, “Blue Ink” ou “Lake Swimming”.

Se não podemos afirmar se o concerto perdeu ou ganhou por ter sido tão simples, constatamos que se afastou  das músicas tal como as conheciamos nos álbuns produzidos. Não sabendo se Laura Veirs se limitou a dar a volta à questão da “falta de material” ou se pretendia um concerto daquela simplicidade, fica a certeza que conhecemos naquela noite a essência da sua música que provou não precisar de uma grande panóplia de instrumentos e efeitos para se revelar perfeita e intensamente genuína e interessante. Os sons que vêm a mais na produção são interessantes mas não indispensáveis, o que não acontece com a música de outras bandas e artistas. Aqui, a essência da música é suficiente para ser muito boa. Os pormenores de produção não fazem a música, são acessórios que nos discos fazem sentido mas nos concertos são dispensáveis tanto quanto pudemos ver.

No ambiente acolhedor e familiar do concerto trocam-se ideias e comentam-se acontecimentos banais, pergunta-se como vão as coisas e combinam-se novos encontros. Foi assim durante uma hora e vinte minutos. As intervenções do público foram uma constante e, quem falava não precisava de microfone nem de gritar, ouvia-se tudo muito bem tal era o silêncio e a concentração tranquila de quem assistia ao concerto.

Uns mais ensopados, outros apenas com os casacos molhados não passaram despercebidos ao olhar de Laura Veirs que agradeceu o facto de terem enfrentado quase um temporal de chuva e vento em ruelas estreitas ladeadas pelo castelo de S. Jorge para ali estar. Agradecimentos continuos revelaram a humildade e modéstia de quem faz música mais por gosto e por vocação do que por qualquer grande objectivo comercial.

Neste concerto Laura Veirs veio apresentar o seu último álbum Year of Meteors de 2005. Do último álbum acabou por tocar apenas três músicas entre as quais “Parisian Dream”, tocou três músicas novas do álbum que sairá em Março: “Nightingale” foi a mais marcante talvez por ser bastante triste e melancólica. O repertório foi composto por músicas de todos os álbuns.

Foi com músicas melancólicas que começou o concerto, como “Rapture”, deixando o ritmo aquecer ao longo do tempo, terminando em festa com temas como “Cast a Hook in Me” ou “Jailhouse Fire” ao som das guitarradas mais ao estilo country, o seu estilo preferido dentro da música que faz meio indie, meio rock-folk.

Contra o seu aspecto simples fechamos os olhos e entramos noutra dimensão embalados por uma voz sublime acompanhada pelos suaves acordes da guitarra. Sozinha conseguia fazer o espectáculo mas, a bateria introduzia vida e ritmo em músicas que, não o exigindo, se sentiam mais completas assim.

Durante os encores tudo funcionou de uma forma estranhamente esperada e de acordo com a vontade do público e dos artistas. Quando terminou o concerto continuaram todos sentados sem uma única pessoa se  atrever a mover. Ela voltou com o baterista para mais duas músicas. Quando foram embora agradecendo de uma forma verdadeiramente sentida, as pessoas não se moveram dos lugares e continuaram a bater palmas cada vez mais efusivamente até que Laura Veirs voltou, desta vez sozinha e um pouco antes de começar a tocar, cedeu ao pedido de uma rapariga do público que pediu que tocasse a “Through December”.

Brindou-nos então com um momento que, talvez por ser o último, foi de uma intensidade singular. Depois deste momento as pessoas levantaram-se então, satisfeitas e começaram a dispersar.

A satisfação de quem gostou do que não sabia bem o que ia ser. Como Laura Veirs disse: “You’re too much”.

Fica a promessa de novo encontro na Primavera onde poderá apreciar o nosso céu azul e o nosso clima caracteristicamente agradável. Esperemos que para a próxima tenha a quantidade de público que merece, já que a qualidade ficou comprovada.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This