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“Le Havre”

Capra-corn portuário.

A história de um engraxador, já entradote, ex-escritor, Marx de seu nome, que toma como missão salvar (mantendo a ideia do filme, enviar para “porto seguro”) um rapazote que veio parar à Europa num contentor e as autoridades andam a tentar recambiar para o seu pobre país de origem poderia ter desembocado, tendo em conta o contexto político e social actual, naquela claustrofobia que marca parte da obra de Aki Kaurismäki, e se encontra, por exemplo, no anterior “Luzes no Crepúsculo”. Nesse filme, quase tudo corre mal ao seu protagonista, ao ponto de angustiar o espectador. Em “Le Havre” dá-se exactamente o contrário, mas, de algum modo, a angústia mantém-se.

Ora, o protagonista de “Le Havre”, interpretado por André Wilms, para além de estar a contas com a própria pobreza e de ter de tomar conta de um miúdo fugido à justiça, tem a mulher no hospital, doente com cancro. E tudo isto se resolve a seu contento, numa sucessão de pequenos milagres. Como escreveu Vasco Câmara no Facebook do Ípsilon, e, presume-se, escreverá na futura crítica ao filme, só no cinema é que assim sucederia. Kaurismäki e o espectador sabem-no bem: a realidade, aí volta-se a recordar o contexto social e político, não é esta.

As línguas mais venenosas chamavam ao estilo de Frank Capra nos anos 30 e 40, Capra-corn, mal traduzido, Capra-lamechas. Em “Le Havre” — com a sua união dos derrotados da vida, os pobres, a mulher da tasca, a padeira e o merceeiro bondosos, o polícia de coração mole, cujo expoente é o concerto rockabilly de Little Bob a lembrar o momento em que George Bailey recebe trocos de todos os amigos e consegue saldar as dívidas em “Do Céu Caiu uma Estrela” — Kaurismäki assina o seu Capra-corn. Mas nada disto é inocente ou particularmente esperançoso.

O efeito de sobreposição da “lamechice” de “Le Havre” com as notícias que se conhecem do dia-a-dia, em que actos de altruísmo e o sentimento de comunidade não são exactamente a regra, provoca a tal angústia, que, apesar de tudo, contamina o filme aqui e ali: quando o homem da pasta (um gangster?) é assassinado ao início; na sinistra personagem interpretada por Jean-Pierre Léaud, delatora e catalisadora de alguns males.

A realização é Kaurismäki vintage, que se conhece e reconhece, o estilo depuradíssimo: a iluminação rígida que marcas as sombras e as cores; a inexpressividade dos actores; os grandes planos de objectos, de copos e cigarros, de notas, quase sensuais; o gosto pelo absurdo; a homenagem ao cinema (o inspector Melville vem directamente dos filmes do realizador francês com esse nome); o amor ao rockabilly. Como de costume, o reencontro com o realizador finlandês é um momento de felicidade.

Estreia: 16-02-2012



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