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LEFF 2011 – Destaques & Premiados

Da Rússia à Noruega. Tudo sobre a edição 2011 do Lisbon & Estoril Film Festival.

Depois do Festival de Cinema Francês, do Doclisboa e do Ciclo de Cinema Espanhol, o Lisbon & Estoril Film Festival encerrou portas no dia 13 de Novembro com a atribuição oficial dos prémios. A longa-metragem de estreia da realizadora russa Angelina Nikonova, “Twilight Portrait”, recebeu o Prémio de Melhor Filme em competição. Marina é assistente social e vítima de violação por parte um polícia. Quando encontra o seu agressor inicia com ele uma estranha relação, tentando ajudá-lo através dos seus conhecimentos profissionais e fechando o ciclo da brutalidade. Tudo se passa numa Rússia fria e corrupta. É um filme desconfortante, com um argumento, no mínimo, ousado, que ou revolta ou atrai. Mas não se sai deste filme de ânimo leve.

 

O Prémio Especial do Júri – João Bénard da Costa, foi atribuído a “Une Vie Meilleure”, do francês Cédric Kahn, também vencedor do Prémio Cineuropa. Um filme espantoso sobre as condições sociais na França contemporânea, onde os personagens valem por si mesmos e conseguem vencer a realidade que os corrompe. O realizador quis explorar uma relação que não fosse de sangue, mas que se fizesse tão ou mais forte pelas circunstâncias da vida. Neste caso, o amor entre um menino e o seu padrasto. É o amor que Yann sente pelo seu enteado que o acaba por salvar. Um sistema opressor e carnívoro que se aproveita da fragilidade e dignidade dos personagens que, no entanto, nunca se resignam e acreditam em si próprias.

Na Secção Competitiva foram ainda atribuídas duas Menções Especiais. Uma à primeira longa-metragem do albanês Bujar Alimai, “Amnistia”, uma história de pessoas perdidas que se encontram entre a paixão e a boa moral, numa Albânia à procura de uma identidade própria.

A segunda foi atribuída ao, para mim, grande filme da competição: “Oslo, 31 de Agosto” de Joaquim Trier. Segunda longa do realizador, é um trabalho sobre a (im)possibilidade da escolha, sobre o arrependimento e a (in)capacidade de nos relacionarmos com segundos, sem os desiludir. Anders é ex-toxicodependente, mas isso não é relevante. O que importa é que é um personagem com tempo, com demasiado tempo e poucas ambições na vida. Dada a sua disponibilidade e amabilidade, escuta aqueles com quem se cruza, porque sente já não ter nada para contar. O som é magistralmente trabalhado e nós ouvimos com os seus ouvidos, como quando escuta conversas separadas num café ou quando sai para a rua e, em vez de ouvirmos os carros que cruzam a estrada, continuamos absortos no seu mundo interior, que transporta demasiados pensamentos para se concentrar na sonoridade à sua volta. É também dotado de uma fotografia exemplar que acaricia o nosso desconforto. Há espaço para os pequenos gestos. Os primeiros vinte minutos são dedicados à longa conversa que tem com o amigo, onde percebemos a sua intenção e para onde o filme caminha, mas isso é de menor importância, pois o que conta não é o destino final, mas a viagem.

30 de Agosto é o dia em que Anders se despede da cidade e dos amigos e recorda conversas passados. 31 é o dia em que se entrega ao seu mundo interior. Mas a câmara ainda lá está e mostra-nos os lugares que visitou no dia anterior, a vida que continua para além das pessoas que partem. Anders Danielsen Lie protagoniza o filme, quase sem ajuda e na perfeição. De cara crispada, deixa escapar sorrisos desmaiados em algumas ocasiões, como quando vai à pendura na bicicleta, numa das cenas mais belas do filme. O seu personagem é um desistente, recordando ao amigo o que este uma vez lhe disse: “Aqueles que se querem auto-destruir não devem ser impedidos pela sociedade”. Ninguém quer que Anders parta, mas ninguém acredita na sua recuperação. A irmã está tão amedrontada com a sua saída da clínica de desintoxicação que nem o consegue encontrar, mandando a namorada no seu lugar. Os pais estão em Nice a passear. O amigo diz-lhe para se encontrarem numa festa, na qual nunca aparece. Todos esperam, envergonhadamente, o dia em que a espera termine. É por isso que não o conseguem encarar. Porque a espera é uma etapa demasiado dura.

O Prémio Meo, do Júri do Encontro de Escolas Europeias, foi atribuído a duas curtas-metragens. “Here I Am”, de Bálint Szimler, da Universidade de Teatro e Cinema de Budapeste, cuja sinopse diz: “Viktor não consegue dormir e vagueia pela cidade. Encontra-se com vários amigos e estranhos. Procura algo. Tal como todos nós”.

“Aman (Safe and Sound)”, de Ali Jaberansari, da Escola de Cinema de Londres, foi a outra premiada. Sobre ela pode ler-se: “Quando Aman se vai casar à aldeia, decide passar por segurança, pedindo a farda emprestada a um amigo para impressionar a família. Mas um acontecimento inesperado vai levar Adam a questionar a sua moral e os seus desejos”.

Foram ainda atribuídas Menções Honrosas a duas curtas: “Frozen Stories”, de Grzegorz Jaroszuk, da Escola Nacional Polaca de Cinema, Televisão e Teatro, onde “os piores empregados de um supermercado têm que encontrar um objectivo para as suas vidas”; e “L’estate che non viene” de Pasquale Marino, do Centro Experimental de Cinematografia – Escola Nacional de Cinema, de Roma – “uma tarde de Maio, Nicholas, Daniel e Lollo ainda podem fazer algo para salvar a sua amizade: lutar contra o destino que os quer separar”.

O Prémio L’Oreal destaca talentos promissores do cinema nacional e foi recebido pelo actor Miguel Nunes.

A curta-metragem “Encadeados” de Ana Delgado Martins conseguiu o Prémio Canon.

Destaque ainda para a masterclass do director de fotografia Christopher Doyle. Ele que não consegue escolher o seu trabalho mais perfeito, porque o melhor é o que vem a seguir, e acha sempre que poderia ter feito de maneira diferente, refaz as imagens dos filmes à medida que o tempo passa, e descobre uma forma que agora lhe faz mais sentido. Foram selecções destas remontagens que nos trouxe. Wong Kar-wai perguntava-lhe várias vezes: “É isto tudo o que consegues fazer, Chris?”, ao que ele lhe respondia: “Sim, é!”. Mas, entretanto, foi crescendo, tendo novas experiências, e decidiu “retrabalhar sobre o que está feito, dar uma nova oportunidade” a si próprio.

Chris nasceu em Sidney, na Austrália, mas vive em Taipei desde os anos 70 e considera-se asiático. No dia 24 de Dezembro de um qualquer ano, de férias na sua terra, acordou na praia de manhã, pegou na sua máquina fotográfica e filmou o que viu. Vemos o vídeo, um passeio pelas ravinas, que às vezes mais parece ser no Texas, e percebemos a importância que o mar e o deserto têm no seu percurso – “é por causa do mar que Lisboa me fascina tanto”. Trabalha com pessoas de quem gosta e mantém-se fiel a si próprio, tanto no trabalho como na vida. Por não ter educação formal, diz que apenas responde ao espaço que encontra e o que sempre lhe chamou a atenção foi a luz. Hoje ela está tão interiorizada nele que já não precisa de pensar, é automático. Explica como a luz daquela sala bate nos nossos rostos e como está a ter visões perfeitas. O importante é “celebrarmos o que conhecemos, é termos uma história para contar, é a integridade das nossas intenções. Fazemos o filme que podemos com os meios que temos, e não o que queremos. E quando não há dinheiro, trabalhamos com a luz que existe, que o espaço nos dá sem lhe pedirmos”.

O primeiro filme norte-americano que fez foi o “Psycho” (1998) de Gus Van Sant. “Foi estranho porque na Ásia é tudo mais orgânico. O ambiente em que vivemos e trabalhamos molda o nosso ser criador. O que tento fazer é dar forma às palavras, é celebrar a visão cultural e, para mim, os detalhes são importantíssimos. O vento, a natureza… O cinema é sobre regenerações, é um círculo que dá, recebe e volta a dar.”

Sente-se fortemente influenciado pela literatura e pela música. Aprecia imensamente Pessoa e todas as suas personas, o modo como se conseguiu desconstruir.

Vimos ainda excertos de “Last Life in the Universe”, “Os Limites do Controlo”, “2046”, “Paris, je t’aime”, entre outros. A masterclass durou mais de duas horas e Chris continuaria a mostrar-nos o seu universo, não fosse a organização pedir-lhe que se apressasse. Antes de terminar, reforça uma vez mais o que nos foi dizendo várias vezes ao longo da noite: “No cinema há só três pessoas: quem está à frente da câmara, eu e vocês.”

Tempo ainda para falar do novo filme de Philippe Garrel, fora de competição, “Un été brûlant”.

Com evidentes traços da nouvelle vague, toca uma estética que é tanto de Godard como de Antonioni, e da “Política do Autor”. Um filme que pretende ser político, mas que está repleto de ideais vagos e não toma partidos. Um microcosmos de artistas boémios e dos seus dramas burgueses. Louis Garrel, de novo, o protagonista. Desta vez representa o papel de um pintor supostamente apaixonado pela arte, mas que apenas pinta as pessoas do seu pequeno mundinho. Personagem trágico e atormentado, desinteressado pela vida, simboliza um “amante regular” que se rege pelo amor livre, mas que acaba por ser escravo do ciúme e da solidão. O ambiente já não é o da boémia parisiense, mas o dos terraços de uma Roma em ruínas. Bellucci é a encarnação dessa Itália. A sua personagem Angèle personifica a figura da mulher em decadência, feita de carne, seios e lábios. Lembra, a espaços, Anita Ekberg em “La Dolce Vita”.

A par do amor entre Frédéric e Angèle existe uma outra relação, a de Paul e Élisabeth, pautada pelo amor político. Ambos a (tentar) trabalhar como figurantes, ele é a favor da revolução, ela é o seu símbolo num filme em que entra.

Tendo perdido o seu melhor amigo recentemente, Philippe queria mostrar a amizade entre dois homens. Mas a verdade é que não sabemos como e porquê Frédéric e Paul se aproximam e comportam-se como meros conhecidos durante todo o filme. Não existe possibilidade de identificação com os personagens. Passados vinte minutos, sabemos que dali não vamos a lugar nenhum. Philippe quis condensar em hora e meia o amor na sua totalidade, sem nunca se aproximar de qualquer verdade.

Com a complexificação do mundo, dividido em muito mais que esquerda ou direita, Stalin ou Hitler, os personagens não sabem por que lutar, não encontram um sentido para a existência e esperam que o amor os salve, enquanto se auto-destroem por puro prazer. É um filme entediante, pretensioso e de um romantismo ultra-exacerbado. A narrativa é completamente desprovida de acção, no sentido literal. Não há dramas nem conflitos porque estes seres não têm vontade própria.

Definitivamente, para Philippe, o requisito essencial a um artista é a perturbação e auto-comiseração.

Para terminar, um outro filme que esteve em competição: “La Guerre est Déclarée”.

Roméo e Juliette são um casal apaixonado. Vivem uma daquelas paixões que, com sorte, se tem uma vez na vida. Têm um filho, Adam. Os primeiros meses correm bem, até se aperceberem que algo se passa com a criança. Depois de muitos exames, é-lhe diagnosticado um tumor cerebral maligno, de uma espécie rara de difícil tratamento. Apesar da tragédia que se instalou sobre as suas vidas, o casal mantém-se junto e coeso.

É um filme doce, ao estilo “Amélie Poulain”, com um narrador que nos relata os acontecimentos e pensamentos dos personagens durante toda a acção. O que é uma pena porque não acrescenta nada ao filme e dá-nos a história de mão beijada, quando as imagens falam por si só.

Adam vive no hospital até aos cinco anos. Acompanhamo-lo até aos três. Por essa altura os seus pais já venderam a casa e mudaram-se para o hospital. É uma bela cena essa em que conversam no corredor, onde mostram os seus medos, o cansaço e se apoiam um no outro. O filme poderia ter acabado aí, quando ele a pega às cavalitas, cabendo ao espectador julgar o seu futuro. Um final em aberto. Mas não. O narrador estraga-nos a surpresa, a carícia dessa cena, e faz o resumo dos seguintes cinco anos. Percebe-se a escolha pelo “escarrapachar” dos acontecimentos, já que este é um filme autobiográfico. A realizadora e actriz Valérie Donzelli, a própria que interpreta Juliette, e o actor Jérémie Elkaim (Roméo) tiveram um filho que passou por uma grave doença, e quiseram fazer dessa experiência dolorosa, algo positivo. Talvez demasiado positivo. Ninguém consegue ser tão forte perante tamanho infortúnio. Não é um filme realista, nesse sentido. É um filme bonito, quase imaginário, de uma forma hipotética de lidar com o infortúnio. Tem o seu valor. Enquadrar-se-ia perfeitamente numa Festa do Cinema Francês. Nesta competição esteve um pouco deslocado. Talvez esta não tenha sido a melhor maneira de pegar num argumento, que à partida teria tudo para dar um excelente filme.

Este ano, e como vem sendo habitual, as antestreias chamaram muita gente ao Festival, que por esse motivo acolheu sessões especiais da maior parte desses filmes. “Restless”, “Melancholia” e “Carnage” esgotaram várias horas ou mesmo dias antes. “Oslo, 31 de Agosto” teve a sala lotada, talvez por ter recebido as melhores críticas. Mas a maior parte dos filmes em competição não recebeu muita gente, o que é uma pena porque esta é, ou deveria ser, a secção mais importante do Festival e há aqui muita qualidade. Para mais, as antestreias vão estar nas salas, ao contrário dos outros. Mas os horários também não foram bem distribuídos, colocando as antestreias em horário nobre, o que só se percebe numa perspectiva financeira, que não deveria ser a política de um Festival que pretende mostrar novas cinematografias.



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