leo_middea

Leo Middea | Entrevista

"Eu estar fora do Brasil é por uma ambição minha em querer trazer exatamente esta minha raiz para a maior parte do mundo que eu conseguir."

A propósito de “Vicentina”, álbum editado em 2020, conversámos um pouco com Leo Middea, um brasileiro em Lisboa, com a música que liga os dois lados do atlântico a pulsar-lhe nas veias.

RDB: Quem é o Leo Middea?
LM: Um compositor brasileiro que é influenciado pelas tonalidades do mundo.

RDB: Fala-nos um pouco sobre o teu percurso, que te acabou trazendo até Lisboa em 2017.
LM: Assim que eu lancei meu primeiro álbum (‘Dois’ 2014) , não haviam muitos espaços no Rio de Janeiro que topavam fechar um concerto meu. E nessa busca de ter algum lugar para apresentar meu disco eu acabei desistindo de bater na mesma tecla de ser na minha cidade, e comecei a tentar um outro lugar. Consegui contatos em Buenos Aires e fiz uma turnê de quase 30 concertos. Meu primeiro concerto foi fora do país,  me encorajando e me mostrando a apresentação das minhas músicas para outra cultura, abrindo minha cabeça para diversas possibilidades.

Assim que eu voltei da Argentina as coisas começaram a melhorar no Brasil, até que chegou o momento que fui realizar um retiro de silêncio na Índia, numa cidade chamada Bangalore, lá , durante esse retiro eu tive essa intuição de ir para Portugal. Eu segui e simplesmente vim, na cara e na coragem. Estou aqui até hoje e feliz com minha decisão. Muitas coisas bonitas aconteceram por aqui!

RDB: Vens de um país com uma riqueza musical incrível e com uma dinâmica completamente distinta daquela que existe por cá no que à música diz respeito. Foi um “choque” muito grande?
LM: Não foi um choque tão grande pois me surpreendeu ver quanto os portugueses consomem a música brasileira. Isso faz com que até muitos músicos portugueses se influenciem na nossa música, o que é muito bonito de ver essa união de Brasil e Portugal.

RDB: Entretanto encontras-te “abrigo” na HAUS, dos Paus. Como tem sido a experiência?
LM: Tem sido ótima! Todo mundo que me recebeu na HAUS me recebeu extremamente bem e sinto uma energia ótima vindo dessa casa. Muitas coisas bonitas hão de vir com certeza!

RDB: Qual a história por de trás do título escolhido para o álbum, “Vicentina”?
LM: Vicentina era uma amiga italiana da minha avó que já faleceu há muitos anos e ela foi protagonista num momento extremamente marcante na minha memória que foi ela me dizendo aos quatro anos de idade que eu iria ser cantor, sem nem ao menos ter demonstrado dom artístico naquela época, só vim a tocar algum instrumento dez anos mais tarde. Quando eu estava no processo de gravação do álbum, me deparei que já era meu terceiro disco e essa tal profecia dela estava super certa. E como forma de homenagem a sensibilidade dela, coloquei o seu nome.

RDB: O toque brasileiro salta de imediato à vista nas tuas canções, mas depois quando começamos a escutá-las com atenção reparamos que há algo mais. E creio que chamá-lo de toque europeu até nem é o mais preciso. É mesmo um toque português que já se encontra enraizado. Foi algo deliberado ou é uma consequência natural da tua vivência por Portugal ao longo destes anos?
LM: Um amigo meu comentou a mesma coisa quando ouviu pela primeira vez o disco ‘Vicentina’. Se a música é a fotografia da vida não há como fugir, eu estou aqui , então tudo vai acabar me influenciando, as próprias composições mencionam vários lugares da cidade. O produtor do disco ‘Paulo Novaes’ é brasileira mas o ‘Polivalente’ que foi o arranjador é português, então essa mistura é realmente inevitável. É algo que eu acho muito bonito e espero que venham muito mais parcerias nessa mistura Brasil – Portugal.

RDB: Em setembro fizeste a série “Shows na Varanda”. Como surgiu a ideia?
LM: A ideia inicial era fazer apenas um concerto, porém num jantar com um amigo, o Rogério Candian, ele comentou comigo; “ Por que não uma temporada ao invés de um só concerto? “. Eu adorei a ideia dele, mas fiquei com muito medo de não ter público todos os dias, me arrisquei e deu super certo. Durante o mês de setembro fiz concertos na varanda todas as sextas e todos os dias foram lotados! Foi lindo demais e histórico pra mim. Rendeu até uma reportagem em uma televisão brasileira.

RDB: Há um vídeo teu a interpretar a «Sorrindo pra Saudade» em 2017. É uma versão nua e crua, mas não menos bela. Fala-nos um pouco de como essa canção cresceu (é o termo certo?).
LM: Ela surgiu logo após a minha mudança para Portugal. Esse vídeo foi feito dias depois de ter a composto, fiz esse vídeo caseiro e postei no facebook. Meses depois alguém publicou no youtube e a partir daí muitas pessoas começaram a conhecer a canção. Ela retrata nitidamente a saudade mas também retrata essa minha questão com o amor próprio para poder embarcar em uma nova aventura em que se acredita.

RDB: Lisboa é uma parte indissociável de “Vicentina”. O que gostas mais desta cidade?
LM: Eu gosto muito da arquitetura no geral e dos miradouros, ver o Rio Tejo de cima para mim é algo enriquecedor. Agora o que eu tenho mais gostado é esse movimento da Câmara de colocar ciclovias na cidade. Essa é uma ação incrível.

RDB: Saudade é uma palavra que encerra em si um sentimento que muitas vezes se torna ambíguo, agridoce. Sentes saudades do Brasil?
LM: Sempre. Em qualquer lugar que eu esteja do mundo eu teria saudade. Não há como negar, é minha raiz, o início da minha história , meu berço. Eu estar fora do Brasil é por uma ambição minha em querer trazer exatamente esta minha raiz para a maior parte do mundo que eu conseguir. Quando toquei em Paris, eles elogiaram as diferenças de ritmos pois não os conheciam, e é exatamente sobre isso.  A minha raiz não é só o Brasil, é o Rio de Janeiro, a Taquara (o bairro que vivi) , esse é meu mundo e o qual quero compartilhar. Por conta disso a saudade é acariciada e amenizada.

RDB: É uma pergunta que se está a tornar um pouco cliché nos tempos que correm, é certo, mas a verdade é que ainda surgem respostas e abordagens que surpreendem. Como tens encarado estes longos meses, repletos de incertezas e dúvidas?
LM: O que eu mais tenho feito é me reinventar em frente a esta pandemia. A falta de trabalho físico me fez tentar coisas online. Em maio eu iniciei um projeto chamado “Serenata Delivery” a qual eu fazia chamadas de vídeos ou músicas exclusivas para alguém. Isso fez-me estabilizar e me tranquilizar um pouco.

RDB: Já há planos para 2021? Quais são? Dar a conhecer “Vicentina” por esse país fora?
LM: Ainda não tive a oportunidade de fazer a tour desse disco aqui em Portugal e com certeza para 2021 uma das minhas metas é conseguir apresentar esse disco na maior quantidade de lugares possíveis!



Também poderás gostar


There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This