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Leslie Feist – “Metals”

How Come She’s Got Here.

Quatro anos após “The Reminder”, Leslie Feist está de regresso na forma da sua vida e diz, a quem ainda tinha dúvidas, que não anda aqui a brincar aos números.

O terceiro álbum de originais, “Metals” é, sem dúvida, o álbum mais consistente da carreira de Feist, assente numa estrutura forte e em canções com profundidade, enquadradas num todo harmonioso.

No tema de abertura, uma bateria e uma guitarra eléctrica anunciam um recomeço fresco e trepidante. «The Bad In Each Other» é uma ode à incomunicação, que Feist nos comunica soberbamente e, ao mesmo tempo, uma chamada de atenção para o que há de bom, de muito bom, na cantautora canadiana. A sua voz amadureceu e a guitarra nunca lhe assentou tão bem.

Quando terminou a digressão com “The Reminder”, o álbum que a aclamou internacionalmente, tirou um ano e meio de férias, longe da música, e foi para Toronto, o único local onde se sente realmente em casa. Durante essa pausa colaborou no documentário “Look At What The Light Did Now” (2010) – sobre o processo de trabalho com os seus colaboradores – visitou o Egipto e a Cidade do México, andou de bicicleta, plantou tomates. Coisas banais. Quis distanciar-se do seu percurso até então, voltar a estar só, à procura do seu espaço, de um novo começo. Dezoito meses mais tarde, tendo-lhe passado pela cabeça não mais ser capaz de escrever uma música, a inspiração chegou. Em Paris, no estúdio onde gravou o álbum anterior, teve as primeiras ideias. Depois voltou à sua cidade e foi lá que durante o Outono de 2010 escreveu as doze canções que integram o novo álbum. Por isso soam mais intimistas, não foram escritas entre viagens. Nunca antes Feist se isolara para escrever. Agora as suas composições ganham um corpo mais homogéneo e firme, transportam carga energética, enquanto falam do desgaste do tempo nas pessoas, do caos interior quando lá fora troveja. E há várias referências a tempestades e raios em “Metals”.

Em Fevereiro deste ano rumou à Califórnia, fixando-se em Big Sur (essa mesma região onde Kerouac se exilou no início da década de 60), com os seus dois amigos de longa data, os multi-instrumentistas Chilly Gonzales e Mocky, o percussionista Dean Stone e o teclista de Beck, Brian LeBarton. Lá improvisaram um estúdio num celeiro, com um misto de paisagem campestre e marítima envolvente, e gravaram ao vivo, e durante duas semanas e meia, esta dúzia de temas sublimes, com o colaborador de Bjork e Bonnie “Prince” Billy,  Valgeir Sigurosson. Contaram ainda com a participação do Real Vocal String Quartet, constituído apenas por mulheres, tanto na parte instrumental como vocal, e é notória a nova dinâmica que impõem a músicas como «The Undiscovered First» ou «Comfort Me».

A meio de “Metals” aumentamos o volume para gritarmos com o coro: «A Commotion» – um dos temas, se não O tema mais áspero e agreste do percurso de Feist. Há ainda melodias que nos recordam os seus trabalhos anteriores, como «Cicades & Gulls», mas há todo um novo cenário em termos de composição e estrutura, mais ampla, coesa e determinada.

No final, Leslie Feist leva-nos num passeio pelos montes com «Get It Wrong, Get It Wright» onde, através de uma paisagem idílica, resume em três versos o que fez com este trabalho: “Got a nest to build/String and grass/Leave the past”. Depois da tempestade, vem a bonança, e quatro anos à espera deste disco valeram totalmente a pena.



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