Liars @ Club Lua

Os bateristas também têm sentimentos.

1ª Parte – Deerhunter

Para quem não conhecia (que até era o caso de a maioria dos presentes), ver cinco miúdos (literalmente) com t-shirts dos Cramps e dos Cult(!) a subirem ao palco para abrirem o concerto dos Liars poderia ser assustador. Mas os Deerhunter não são aquilo que parecem – quem diria que aqueles franzinos rapazes eram capazes de soltar tanta energia?

O seu vocalista, Bradford Cox, parecia uma daquelas personagens de inadaptados que Johnny Depp encarna tão bem e que escolheu o indie rock para carpir todas as suas mágoas. E quando toda a infortúnia do mundo lhe tombava sobre as costas, as músicas dos Deerhunter perdiam a limpidez das melodias power-pop e explodiam em guitarras angulares e reverbs na voz, como uma espécie de Linda Martini (ainda mais) melancólicos.

A actuação iniciou-se, porém, num registo bem fraquinho, com dois temas de qualidade algo duvidosa, tal era a insalubridade das canções. No entanto, ao terceiro tema, Bradford Cox submeteu-se a um exorcismo vocal de gritos e guturais, que libertou a banda para um concerto que chegou a ter momentos trascendentais. Num percurso cíclico, a actuação acabou por terminar, novamente, num decrescendo qualitativo.

Para quem são quase desconhecidos do público em geral, os Deerhunter cumpriram (e bem) a sua função e deixaram ainda muito boa gente com água na boca para descobrir o resto da sua música.

2ª Parte – The Liars

Desde que no final dos anos 60 a indústria se prestou a subdividir o rock em géneros, de forma a segmentar o mercado, que se tornou hábito corrente rotular todas e quaisquer bandas que surjam. Contudo, por vezes aparecem projectos que se divertem a trocar as voltas a essas pessoas e a deixá-los com um nó no cérebro.

Um desses exemplos são os nova-iorquinos The Liars, que a cada disco que lançam parece quererem fazer tudo aquilo a que o público menos está à espera. Pelo menos foi o que aconteceu com “Drum’s Not Dead”, terceiro registo de originais da banda, que surgiu aos escaparates no início do ano, derrubando convenções e descontruindo sonoridades passadas.

Apesar de ser um dos instrumentos fundamentais numa banda, na manutenção do ritmo certo, a bateria geralmente tem pouca predominância junto aos demais instrumentos. Apostados em inverter essa tendência, os Liars gravaram “Drum’s Not Dead”, álbum que prolonga o universo urbano-industrial do disco anterior, mas sobre uma dinâmica mais escura, sombria e, infelizmente, pouco coerente.

Sob uma tela na parede era projectado um caracol molengão, à medida que Julian Gross e Aarons Hemphill se agarravam à bateria e à percussão, respectivamente. Assim de repente, pareciam uma versão dos Safri Duo, mas em versão mal vestidos. Depois, entrou em palco Angus Andrew e o concerto rebentou.

Angus Andrew é um espectáculo dentro do próprio espectáculo – salta, grita, baba-se e cospe-se muito, dança e até encena um estrangulamento com a corda da guitarra que se havia partido. Parece que está possuído e a pulsação vibrante da percussão de Hemphill e o tribalismo da bateria de Gross parecem mante-lo em transe.

E a música? Bem, a música acontece a espaços. È certo que “Drum’s Not Dead” é um álbum complicado de reproduzir ao vivo, mas mesmo em disco apresenta buracos e momentos menos conseguidos. Por isso, o concerto é inconstante, apesar de violento, diabólico e brutal, sem momentos para descansar do headbanging impulsivo ou do psicadelismo surreal e quase assustador.

Perto do final, já depois de se ter visto livre do fato-macaco que trazia vestido sob um fato completo, Angus Andrew voltou ao palco com um vistoso vestido escarlate, como uma femme fatale saída de um qualquer film noir. Ainda faltava terminar a sua combinação de feitiçaria musical e no encore houve tempo para uma versão destrutiva de “Territorial Pissing”, dos Nirvana.

À terceira visita a Portugal, os Liars voltam a dar um concerto inesquecível e num registo completamente distinto dos anteriores. No entanto, terá sido talvez o menos conseguido dos três. E nem digo isto por não terem tocado “The Other Side of Mr. Heart Attack”.



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