Liars | “WIXIW”

Liars | “WIXIW”

Um belo álbum de canções, que não desbaratam as idiossincrasias dos Liars

Depois das experimentações de “They Were Wrong, So We Drowned” e “Drum’s Not Dead”, respectivamente segundo e terceiro álbuns da banda, os Liars encontraram a sua estética: um pós-krautrock xamânico, hipnótico e percussivo. Desde então, têm vindo a retrabalhá-la, tornando-a mais acessível a ouvidos mais sensíveis (o que não é surpresa, os Liars sempre tiveram uma veia pop). Mas enquanto “Liars”, a rasgos de guitarra, era a súmula perfeita das aventuras anteriores, “Sisterworld” soava ao fim de um caminho, a um beco sem saída, pior, à normalização da “maturidade criativa”. Temeu-se pelo futuro da banda.

Contudo, ao contrário do que se poderia prever nestas circunstâncias (quantas bandas, ao depararem-se com a perspectiva do esgotamento da sua fórmula, não deram uma guinada acentuada em direcção à inanidade?), a estratégia dos Liars resumiu-se a uma volta de 360º (há algo de circular no percurso dos americanos). Assim como regressou a casa (Los Angeles), depois das temporadas em Nova Iorque e Berlim, a banda parece agora empenhada em não sair da sua zona de conforto. É verdade que há mais electrónica (não muito dançável) no novo “WIXIW” (lê-se “wish you”), onde antes havia muitos tribalismos e guitarras (que não desaparecem), que nalguns momentos traz à lembrança os Portishead de “Third” (eles próprios influenciados pela obra dos Liars — de novo a circularidade); há até mesmo uma acalmia, uma menor propensão para erupções de violência sónica. No entanto, os fundamentos continuam lá, inalterados.

O que é verdadeiramente surpreendente é que a aposta se revele certeira: “WIXIW” é bem mais excitante do que “Sisterworld” (que só saía da mediana nas explosões de «Scissor»), perfilando-se como o par ideal de “Liars”. Mais, é um belo álbum de canções, que não desbaratam as idiossincrasias dos Liars — a voz de Angus Andrew, entre o falsetto e o croon decadente; os padrões rítmicos narcotizantes; os arrepiantes jogos de vozes (próximos da feitiçaria); as dessintonias; um negrume persistente; os ecos do dance-punk que os formou —, uma das poucas bandas que tentaram descobrir novos territórios na música popular este milénio. Nesta altura, seria absurdo exigir-lhes mais do que isso.



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