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Linda Martini @ Lux

Juventude Sónica, sem dúvida.

Os Linda Martini são, muito provavelmente, uma das bandas portuguesas actualmente com maior culto. A enorme fila que esperava quem quisesse entrar no Lux para ver o concerto não enganava ninguém: ao segundo LP (só?), a legião de fãs da banda é verdadeiramente impressionante. Foi, portanto, um Lux cheio e devoto o que os recebeu na apresentação de “Casa Ocupada”, novo disco da banda que sucede a “Olhos de Mongol” (antes já precedido por um homónimo e promissor EP), provavelmente um dos maiores discos que Portugal viu nascer na última década. Pelo meio houve alguns EP’s, um deles ao vivo lançado pela Optimus Música, a perda de um membro (Sérgio Lemos, guitarrista), e muitos, muitos concertos; a banda nunca esteve parada e é surpreendente ver que este é apenas o seu segundo álbum, tendo em conta a popularidade que atingiram. Merecida, diga-se.

Este concerto de apresentação em Lisboa do novo trabalho era, portanto, muito ansiado; nem que fosse pelo facto de ser para muitos a primeira oportunidade de ouvir o material novo da banda, já que, curiosamente, os concertos de apresentação do disco que andaram a decorrer um pouco por todo o país ocorreram antes do lançamento do mesmo, que apenas sai agora, em Novembro. Aliás, apenas teve acesso ao concerto quem fez a pré-compra do álbum, o que atrasou um pouco a entrada na discoteca alfacinha, já que era preciso trocar à entrada o talão de compra por um bilhete. Ainda assim, pouco passava das onze quando a banda, perante um Lux cheio e sedento de rock, entrou em palco. Resumindo e concluindo, o novo álbum ao vivo soa muito bem, e facilmente se imagina daqui a pouco tempo o público a cantar alguns dos seus temas com a mesma energia e devoção com que cantaram no Lux canções como “Amor Combate” (claro!) ou “Cronófago”, para dar exemplos.

Desde logo, a simpatia dos músicos mostrou bem que iria ser uma noite íntima, entre banda e fãs. Hélio Morais, baterista, desde cedo incitou ao crowd-surfing, que lá mais para o fim viria a acontecer, e Cláudia Guerreiro, baixista, frequentemente dedicava uma canção a alguém do público. “Eu sou a gaja das dedicatórias”, diz ela a certo ponto.

Começaram logo com “Nós os Outros”, canção nova que abriu o set com energia e rapidez, dando logo o mote para o que seria a noite: guitarras eléctricas ao poder. O público não a conhecia, mas a sua reacção foi entusiasta; e, efectivamente, desde logo foi possível ver que ao vivo as novas canções transmitem a mesma energia que as antigas. “Mulher-a-Dias”, segundo single do álbum (foi precedido por “Belarmino vs”) que foi tocado logo de seguida, provou isso mesmo; à segunda canção, o público já estava rendido.

Foi na quarta canção que abandonaram os temas novos para matar a sede a quem queria ouvir algo mais conhecido (“Será que tocam os clássicos? Devem tocar, não? Espero que sim!”, perguntava a um amigo um jovem atrás de mim, antes do início do concerto). “A próxima canção começa com Partir e termina com Ficar…”, diz Hélio, perante uma esperada reacção fervorosa do público. “Partir para Ficar” foi mais um belo momento, recebida por um público que observava silenciosamente cada riff de guitarra que se ia desenrolando à sua frente. Tamanho momento de devoção por parte de uma audiência é surpreendente para uma uma banda que, para todos os efeitos, ainda é jovem.

Duas canções depois viria aquele que foi, sem sombra de dúvida, um dos maiores e mais aplaudidos momentos da noite: “Amor Combate”, cantada a duas vozes por público e banda, que observava do palco com um sorriso de orelha a orelha. Canção já icónica para uma geração de ouvintes, que certamente era para muitos a mais esperada da noite. Tocada na perfeição com que a tocaram e com tamanho acompanhamento, foi um momento certamente inesquecível para grande parte do público.

As músicas novas continuaram de seguida a desenrolar-se umas a seguir às outras, todas elas funcionando na perfeição. “Elevador”, “Juventude Sónica”, “Belarmino” e “100 Metros Sereia” (a encerrar o corpo principal do set), em particular, foram verdadeiras muralhas de guitarra e ruído. A banda estava a gostar tanto quanto o público, levantando as guitarras no ar, balançando o corpo da mesma forma que os que ouviam e não tocavam. É surpreendente que gente tão jovem toque tão bem e chegue já tão longe. Claro que, pelo meio, não faltaram “Cronófago” e a épica “Este Mar”, canção instrumental que tem tanto de energética quanto de bela, sendo facilmente uma das melhores da banda, e que ao vivo chega a quase colocar uma lágrima ao canto do olho. Momentos como aquele valem por um concerto inteiro.

Quando voltaram para o encore, ouviam-se gritos de “Só mais uma!”. Divertida, Cláudia responde “E que tal duas?”, frase recebida com aplausos e mais gritos. E de seguida veio aquela que é, talvez, a mais genial, mais apoteótica, mais espantosa canção da banda: “Dá-me a Tua Melhor”. Talvez o grande momento de todo o concerto, já com crowd-surfing e alguma moche por parte do público mais à frente perante uma canção que ao vivo é tão arrebatadora quanto em disco: é impossível não gritar aquele refrão, não mexer o corpo ao som daquelas explosões de som, impossível não ficar com um sorriso na cara quando chega o fim. Canções assim fazem uma carreira.

E terminaram com “O Amor é Não Haver Polícia” (talvez “A Severa” tivesse proporcionado melhor final, mas perdoa-se), mais um dos vários momentos de devoção da noite. Tocada na perfeição, com banda e público ao máximo, provavelmente já com a ideia bem assente da excelente qualidade do concerto que acabou de se viver. Óptimo final para uma noite cuja única falha que se pode apontar é, claro, o facto de o alinhamento não ter tido mais canções antigas. Mas, sendo aquele o concerto de apresentação do novo álbum, não se podia pedir mais. O alinhamento poderia ter sido melhor tendo em conta a (ainda curta) carreira da banda, mas os temas novos soaram lindamente, e todo o concerto foi excelente e coeso do início ao fim (e, mesmo assim, os clássicos mais obrigatórios estiveram lá).

Os Linda Martini não estão cá há muito tempo, e já chegaram longe. O concerto que deram no Lux confirma aquilo que muitos já sabem: são dos melhores tanto em disco como ao vivo. Foi uma noite de ruído, de guitarras, de devoção e de muralhas sónicas. O novo trabalho ao vivo resulta muitíssimo bem, e parece manter a qualidade a que já nos habituaram (ainda que ninguém espere, certamente, algo ao nível de um “Olhos de Mongol”… coisas daquelas simplesmente não se repetem). Tocam muito bem, já  demasiado bem até, e ao vivo constroem um espectáculo sonoro irrepreensível. Tamanha qualidade do concerto não foi, certamente, surpresa nenhuma para quem já os conhece. Agora, é deixá-los crescer. Sim, ainda mais. Se agora já são o que são, imagine-se daqui a mais uns anos…



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