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Lindstrom et al.

Clubbing @ Casa da Música, 23 de Janeiro.

O Clubbing regressou à Casa da Música. Na primeira edição de 2010 fomos até à constelação de Andrómeda com Lindstrom, assistimos à moda do vampirismo via expressionismo germânico no telão, quase fomos assaltados pelo Spank Rock, demos um pé de dança no La Movida cortesia dos Makossa&Megablast e ficámos sem saber quem é o Gustav.

Desde a primeira vez que fomos ao Clubbing, assistir ao robofónico Karl Bartos e aos explosivos Motor, isto já há quase três aos, num par de concertos memorável, já muita coisa mudou no evento mensal mais irreverente da Casa da Música. O Clubbing cresceu, cresceu, estagnou e, infelizmente, entrou numa fase de alguma decadência. A julgar pela primeira edição da falsa nova década, o Clubbing vai atrás do que é seu. Concertos que são oportunidades imperdíveis de viver agora embrulhados com aprumo numa caixa de vanguarda decorada por um operador móvel. Isto, claro, para todos os gostos. Ao contrário do antigamente, em que cada edição girava em torno de um fio condutor comum a todos os convidados, o Clubbing de hoje assemelha-se mais a um barquinho de sushi: cada um só come o que quer (e paga o mesmo no fim).

Havendo algum solo comum neste Clubbing seria a nacionalidade: boa parte dos convidados eram austríacos, combinando com o país-tema para 2010 da Casa da Música. A noite começou na Sala Suggia com a projecção de “Nosferatu”, filme-charneira do expressionismo alemão que quase encheu a sala principal da Casa da Música (apesar dos desistentes), acompanhada pelo score musical interpretado ao vivo por Wolfgang Mitterer, virtuoso compositor e organista austríaco. A projecção de filmes no Clubbing é inédita, mas não na programação da Casa da Música que, no final de 2009, fez algo parecido com “Metropolis”, outro clássico do expressionismo germânico (com um sub-contexto mais socio-político e menos “Twilight”) projectado na íntegra com a banda-sonora interpretada ao vivo pelo Remix Ensemble. O casamento Nosferatu-Mitterer não teve o brilhantismo da performance do grupo de música contemporâneo da Casa da Música, mas valeu pelo valor inusitado de aperitivo ao que se seguiria. Outra diferença entre as duas actuações: em Novembro, o público pagante sabia ao que ia, naquela noite de Janeiro muita gente tomou o género cinematográfico de “Nosferatu” por uma espécie de comédia de situação muda e com vampiros.

Ao mesmo tempo, na Sala Roxa, o radialista e all-around-cool-guy Álvaro Costa apresentava mais uma edição do seu programa de rádio ao vivo, presença residente no Clubbing desde há várias edições a esta parte. A RDB estava demasiado ocupada a ver um filme cujo nome lembrava um famoso vidente francês, mas soube depois que o apresentador da “Liga dos Últimos”, em dia dedicado à década de 70, apelidou Jimi Hendrix de “nigger from outer-space”, o que nos despertou a vontade de saber que qualificativos Álvaro Costa dedicaria a Dâm-Funk. Pouco depois, de regresso à Suggia, a Áustria voltava ao palco pelo talento de Gustav, mas a RDB estava demasiado ocupada a beber uns copos e a fazer social networking. Viríamos a saber mais tarde que Gustav é, na verdade, uma mulher (salvo o erro) que “faz música para iPods” (seja lá o que isso for, Last FM).

Antes, ainda pelas 23h30, Gary War e a sua banda (um baixista e um gajo a bater numa tábua da Roland com pauzinhos do chinês) encheram o Cybermúsica com o seu surf-pop roufenho a que já se chamou Hypnagogic Pop. Ex-membro da banda de Ariel Pink – auto-proclamado rei da música granulada – Gary War fez sucesso internético com um vídeo em tons esbatidos que seguia a lógica Flickr de usar poses estudadas e triângulos equiláteros só porque sim. A música de Gary War, que veio ao Porto na recta final da sua tour europeia, parece algo que Paddy Kingsland faria em 2009, ano em que o norte-americano lançou “Horrible Parade” pela Sacred Bones. Ainda estamos a pensar se o famoso handicap acústico do Cybermúsica prejudicou ou favoreceu o concerto de Gary War, ou seja, se mutilou a sua performance ou promoveu a sonoridade ripada de um VHS com mais de dez programas do “Passeio do Alegres” gravados consecutivamente uns por cima dos outros (nota mental: que engraçado seria ver o Gary War no programa do Júlio Isidro!).

Na sala 2, habitual palco principal do Clubbing, estavam prometidas ementas de diferentes condimentos. A certeza: o norueguês Lindstrom, que tem ábum novo, “Real Life Is No Cool”; a dúvida: Spank Rock (com DJ Teenwolf), que vem de Philadelphia e se rege pelo lema “chilling out, maxing and relaxing all cool” como o seu conterrâneo Will “Fresh Prince” Smith; e a incógnita: os vienenses Makossa&Megablast, os primeiros a subir ao palco. Comecemos por aí. Os M&M são uma dupla, mas no Porto apresentaram-se em formato “quadriband” (pun intended) com uma MC “toda boa” e um percussionista “mesmo brutal” (comentários 100% factuais). Apesar de serem o terço da programação mais fraco, os M&M trouxeram o seu próprio VJing, ao contrário de Lindstrom e Spank Rock, e ainda bem que o fizeram uma vez que aquele consistia essencialmente numa explosão de Word Art e visuais psicadélicos que pareciam saídos dos presets do plug-in pack azeiteiro do Adobe After Effects 1.0 (sim, aquele que saiu em 1993). Os M&M são austríacos, mas isso não os impediu de trazer uma MC latina que debitava “hijos de puta” e “muchachos” com grande destreza, incendiando no processo o público presente (muito heterogéneo, diga-se, e que ia de estudantes de Erasmus a pais de amigos nossos, passando pela malta com dreads que ouve de tudo). Os M&M entraram como anónimos e saíram como estrelas depois de uma actuação (de press-play no CD-J) que misturou house, música étnica e reggaeton. O Makossa gostou tanto de vir ao Porto que sacou da sua Cybershot para imortalizar o momento.

Pela uma da manhã subia ao palco Lindstrom, a atracção principal de uma noite que lá fora estava amena, apesar de ser Inverno no Porto. Depois de alguns instantes à conversa com um técnico da Casa da Música, o noruguês do space-disco começou o seu live act, arrancando batidas e tecladinhos durante pouco mais de uma hora. A sala 2 esteve composta, mas não cheia e entusiasmou-se quase tanto como o próprio músico que transmitia grande intensidade de cima do palco, contrastada pelo baixo volume na sala. Só como exemplo: era possível comentar o concerto para o amigo ao lado sem berrar ao ouvido. Ainda assim, o nível era tanto que, a determinada altura, Lindstrom viu-se forçado a pontapear uma coluna de munição que o incomodava, mas, em movimento fluído e único, nunca parou de manter a qualidade. Os motivos de interesse não estavam só em cima do palco: na primeira fila, bem perto da RDB, encontrava-se, para espanto de todos, um senhor com um caderno liso a desenhar Lindstrom, ora mais figurativamente, ora de maneira mais caótica e abstracta (no que parecia um daqueles exercícios de “desenhar o som”).

Não obstante a árdua tarefa de retratar o cabeça de cartaz, este espectador-atracção ainda conseguia baloiçar o corpo. A determinada altura, há um grupo junto ao palco mais interessado no artista gráfico do que no musical. Indiferente a tudo isto, Lindstrom revisitou alguns do seus temas mais conhecidos e que lhe garantiram um parágrafo no imaginário “Grande Livro da Música de Todos os Tempos”. Curiosa foi a aparição, junto ao palco e quase no final da actuação de Lindstrom, dos Makossa&Megablast. Gostamos de imaginar que, depois de muitos hi-fives trocados nos bastidores alguém no grupo (possivelmente o tipo dos bongos) se lembrou que até curtia o retro-vanguardismo de Lindstrom e convenceu os amigos a assistir à recta final do concerto do escandinavo mais cósmico da península.

Outro exercício interessante é teorizar sobre as possíveis conversas no backstage entre artistas tão diferentes como Lindstrom e os M&M. Imaginação à parte, Lindstrom deu, certamente e apesar dos breaks demasiado longos, o concerto da noite e o público despediu-se do produtor norueguês com uma enorme ovação (o artista retribuiu levantando o seu copo de cerveja já em direcção ao backstage). Depois foi a vez de Spank Rock fazer-se acompanhar de DJ Teenwolf e aumentar perigosamente os níveis de depravação na sala 2. O tesão era tanto que houve invasão de palco (com direito a “alte roce” e tudo!) a fazer lembrar, dizem-nos, o concerto de tributo aos Supertramp na Alfândega do Porto aqui há uns anos.
Como se tudo isto não bastasse (e para nós bastou), o Clubbing contou ainda com Ninjasonik e Octa Push nos bares e o DJ Norberto Fernandes no restaurante da Cada da Música (um pesadelo de naming: primeiro era o “Kool”, numa referência básica ao famoso arquitecto do OMA, e agora é simplesmente o “Restaurante Casa da Música”). A RDB não assistiu a nenhuma destas actuações: nem ao colectivo nova-iorquino Ninjasonik (do qual DJ Teenwolf é membro), nem à dupla dubstep portuguesa Octa Push (apesar de sermos testemunhas da performance de bar no Clubbing com menos público de sempre) e muito menos ao DJ set de três horas de Norberto Fernandes que, estamos em crer, transformou o “Restaurante Casa da Música” no hall do Casino de Espinho – sem ofensa. Mas o que vimos fez a nossa noite.

Para o mês há mais Clubbing, mas já decidimos que vamos dar o nosso lugar aos mais novos (desculpa, Aoki!). O de Janeiro deixou boas recordações.



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