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“Linhas de Wellington”

O “épico” que não chegou

“Linhas de Wellington”, o novo filme com o carimbo de Paulo Branco, começa por narrar a derrota das tropas anglo-portuguesas na Batalha do Buçaco e a consequente retirada com a estratégia de atrair o exército francês para as Linhas de Torres, cuja execução foi ordenada pelo general Wellington. E não se tire o mérito: este tipo de orçamento permite uma caracterização quase exímia de tais acontecimentos, a juntar ao rigor histórico do retrato, que o produtor assegura resultarem de uma longa e diversificada pesquisa.

Enquanto testemunho histórico, o filme poderá ter o rigor de um livro de História de Portugal do ensino escolar sobre as invasões francesas. Mas será esta, porventura, a sua maior fraqueza: toda esta fidelidade eclipsa o pouco Cinema que por aqui emana.

Somos confrontados com várias histórias, que superficialmente se tocam. Mas, e se a falta de unidade na narrativa é em si um sintoma, também as respectivas histórias individuais acabam por não ser mais do que pequenos vislumbres de uma realidade remontada. Não existe particular profundidade dramática em nenhum destes episódios: surgem por vezes rasgos que sugerem uma tragicidade histórica que não são, em si, matéria de Cinema. As personagens não são mais que adereços: veja-se o veterano John Malkovich, que aqui desempenha uma história bastante diferente do que toda a sua envolvente (quer a nível de espaço, quer a nível de dimensão), ou a fugaz aparição de Catherine Deneuve e Isabelle Huppert, reféns de uma penosa cena de refeição onde os diálogos submetem as imagens a uma ditadura de retórica que não passa da epiderme.

Será nesta abordagem de “épico” que, nuclearmente, se situam os maiores deslizes: a abordagem omnipotente, cobrindo ambas as frentes da batalha (e, de resto, todo o leque de personagens que por ali passeiam), consegue sugar do filme toda a sua dimensão antropológica, ainda que actores como Nuno Lopes ou Gonçalo Waddington tudo façam para o transportar para outro nível. A própria realizadora, que cose com as ideias deixadas por Raúl Ruiz, não aparenta possuir especial controlo sobre a matéria.

Já no final, materializa-se uma cena extraordinária: um conjunto de personagens caminha por uma colina, apercebendo-se do rasto de destruição deixado para trás pelas batalhas travadas. Curiosamente, é aqui que temos contacto com outra dimensão e nem são precisos diálogos: o regresso a casa. Só é de lamentar que a narração não tenha começado por aqui.

A antestreia do filme vai ter lugar no dia 1 de Outubro, pelas 20h00, no TEATRO-CINE de TORRES VEDRAS.



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