Link Wray

R.I.P: 1929-2005

Antonio Meucci, Frank Wills e Link Wray. Que têm estes três nomes em comum?

Aparentemente nada; mas os três pertenceram a homens que, apesar de terem contribuído, cada um à sua maneira, de forma decisiva no desenvolvimento da sociedade como hoje a conhecemos, acabaram por ser ignorados e esquecidos pela própria história.

Antonio Meucci, cientista italo-americano do século XIX, foi o inventor do telefone, engenho que patenteou um ano antes de Graham Bell, depois de ter criado um aparelho para comunicar com a esposa, entrevada no andar de baixo da sua casa. Apesar de em 2002 ter sido aprovada a resolução que determina Meucci como o inventor oficial do telefone, esta não foi mais do que uma pequena vitória, uma vez que a versão romanesca do inglês Bell prevalecerá sempre na memória colectiva da sociedade.

Frank Wills era o segurança do edifício Watergate na noite de 17 de Junho de 1972. Durante a sua ronda, ao descobrir uma porta com fita-adesiva na fechadura que a fazia manter-se aberta, chamou a polícia, que deteve em flagrante os cinco bandidos que haviam invadido o Gabinete do Partido Democrata, com o objectivo de roubarem informações políticas. O acontecimento desencadeou o escândalo Watergate, que culminou com a demissão do presidente Nixon. Apesar da sua intervenção ter marcado uma página na história, Wills foi trucidado pela sociedade e veio a falecer na pobreza, sem nunca ter tido o reconhecimento devido.

É no entanto ao terceiro homem que este texto é dedicado – Fred Lincoln Wray Jr, mais conhecido como Link Wray, nascido em 1929, nos Estados Unidos da América. Apelidado de “o padrinho do power chord”, Link Wray permanece no entanto praticamente desconhecido, apesar de ter determinado em muito o caminho do rock’n’roll actual. É ele o elo perdido entre os guitarristas de blues dos anos 60 e os “deuses” da guitarra que apareceram depois: Jimi Hendrix, Jeff Beck, Jimmy Page…

Com efeito, depois de Link Wray nunca mais a guitarra eléctrica foi a mesma. Principalmente, após o estrondoso sucesso de 1958, «Rumble». Wray deu um novo sentido à guitarra, acrescentando-lhe a distorção e o feedback. Além disso, foi ainda o pioneiro dos power chords, a base da maioria do rock contemporâneo.

Normalmente, quando se fala da história do rock e da guitarra eléctrica, os nomes que surgem logo ao de cima são os de gente como Jimi Hendrix, Eric Clapton ou Pete Townshend. No entanto, apesar de alguma obscuridade, Link Wray sempre foi citado como grande influência pelos grandes nomes da música, como Bob Dylan, Neil Young ou Marc Bolan. Pete Townshend confessou mesmo, certa vez, que se não tivesse ouvido «Rumble», nunca teria pegado numa guitarra.

Em Portugal, Link Wray também não passou despercebido aos ouvidos mais atentos. Paulo Furtado prestou-lhe tributo no segundo registo do seu alter-ego The Legendary Tigerman, «Fuck Christmas I Got The Blues», gravando uma versão do êxito «Rumble». Aliás, o próprio nome da sua banda, Wraygunn, tem origem no nome do músico: Wray de Link Wray e Gunn de Peter Gunn, o mítico tema de Henry Mancini, que por justaposição confluem no nome Wraygunn.

Também Carlos Pereira, frontman da banda de blues Charlie And The Bluescats, considera Wray como “um dos guitarristas essenciais da história da música popular”, um dos guitarristas que influenciou a sua forma de ouvir e tocar guitarra. Aliás, em discurso directo, Carlos Pereira confessa mesmo que “depois dos blues é ao surf e à spy music que dedico a minha atenção e é aí que Link Wray (a par de Dick Dale e não só) está omnipresente”.

A sua carreira começou nos idos anos 50, como membro da Lucky Wray and the Palomino Ranch Hands, uma banda que mantinha com os seus dois irmãos, Doug e Vernon. Depois de gravarem um EP, Link Wray começou a ter problemas com a tuberculose e cantar tornou-se cada vez mais difícil. O músico acabou por se ver mesmo privado de um pulmão, que lhe valeu o apelido de “One-Lung Link”. Mas o que parecia ser uma desgraça, acabou por trazer uma inesperada vantagem, uma vez que Wray acaba por desenvolver um estilo muito próprio, de um rock instrumental na guitarra eléctrica. Surgiria assim a sua formação final, Link Wray And His Raymen.

Link Wray tinha o dom dos predestinados, que marcou a música por seguir o seu caminho e criando o seu próprio percurso. Isso foi algo que o músico sempre defendeu, “seguir o seu próprio som”, uma vez que, segundo ele, os grandes músicos de jazz não o estavam a fazer – trilhar novos campos sonoros.

Misturando o blues, o country e a surf music, Link Wray criou um artigo genuíno, que influenciou directamente o punk dos anos 70, o glam-rock dos anos 80 e o hard-rock dos anos 90.

O seu êxito «Rumble» foi retirado na altura das playlists radiofónicas, uma vez que fora conotado como responsável pela violência delinquente das ruas norte-americanas. Meio caminho andado para ser elevado a ícone juvenil da contra-cultura dos anos 50.

Link Wray colocou o rock no mapa, muito antes de este estar na moda. Muito antes de Elvis Presley, Link Wray apareceu com brilhantina no cabelo, blusão de cabedal e óculos escuros, complementando a guitarra a tiracolo. E, ao contrário do que seria de esperar, a história tem-lhe prestado muito pouca atenção ao longo dos anos.

Veterano da guerra, depois de ter servido na guerra da Coreia, Wray nunca escondeu as suas raízes e evocava, frequentemente, as suas descendências índias; aliás, «Hawnee», «Apache» e «Comanche» são alguns dos títulos de músicas suas.

No entanto, nos anos 80, esse orgulho patriota não o impediu de se mudar para a Dinamarca, onde se casou e onde viveu até ao passado dia 5 de Novembro, com 76 anos, morrendo vítima de complicações cardíacas.

Apesar de a História não lhe ter feito a justiça merecida, o seu legado é intransponível. Sempre que uma guitarra eléctrica soar, estaremos a ouvir o legado de Link Wray. E isso ninguém lhe pode tirar.



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