“Lionel Asbo” | Martin Amis

“Lionel Asbo” | Martin Amis

Ver comboios passar com um sumo de laranja na mão

Ao longo da sua carreira literária, Martin Amis tem habituado os leitores a livros cheios de delírios sobre o pós-modernismo e as maldades que o capitalismo tem feito à sociedade moderna. Depois de “Dinheiro”, editado em 2012, a Quetzal Editores continua a publicação da obra do escritor britânico, agora com a edição de “Lionel Asbo”.

Imaginem um cruzamento entre “Trainspotting” e “Laranja Mecânica” e terão uma ideia mais ou menos aproximada da vertigem que os aguarda quando folhearem estas páginas. A história gira em torno de dois polos familiares totalmente distintos, a imagem perfeita de uma pilha a funcionar em diferentes níveis energéticos.

De um lado temos Lionel Asbo, conhecido pelo Malvado Sr. Mostarda, um tipo de 21 anos que adormece e acorda a pensar em violência. É dono de Joe e Jeff, dois psicopáticos pitbull que são as ferramentas do seu ofício e a quem alimenta a bifes com toneladas de tabasco, para estimular o lado mais negro da animália. Prefere pornografia à companhia feminina, passando grande parte da vida na prisão, a viajar entre penas, um sítio que para ele é como uma primeira casa: «Numa prisão uma pessoa sabe onde está.»

Do outro lado está Desmond Pepperdine, um miúdo com 15, que anda enrolado com a avó de 39 anos (mãe de Lionel), doida pelos Beatles e que escolheu “When I`m Sixty-Four” como tema de eleição. Uma circunstância que o faz sentir sempre indisposto na presença do tio, «não incomodado. Adoentado.» Des é acompanhado por uma voz interior – a do seu avô -, que o impele a escrever um diário sobre a morte da mãe, quando tinha apenas 12 anos de idade. Desde então, Lionel assumiu o papel de tutor, numa vila – Diston – onde a média de filhos por casal – ou por mãe solteira – anda nos seis. Diga-se, em jeito de adenda a este cenário de liberdade sexual desmedida, que Lionel e Cilla (a mãe de Des) eram conhecidos na família como “os gémeos”. Não por serem gémeos, mas apenas por serem os únicos irmãos que, por um imenso acaso, tinham o mesmo pai.

A vida decorre normalmente – Des entre a casa e a escola e Lionel entre grades –, até que o impensável acontece: Lionel recebe a notícia de que ganhou 139 milhões de libras na lotaria. Mas mudará isso a cor do sangue que corre na sua veia criminosa? E conseguirá Des fazer frente a um tio que nos salta à vista como o indomável Begbie de Trainspotting?

Sátira a uma sociedade moderna onde o dinheiro e a fama parecem ser os alimentos que estão no topo da roda alimentar, “Lionel Asbo” oferece momentos de grande hilaridade, sobretudo antes das bolas da lotaria ditarem a sua sorte. Porém, mais do que a história de Lionel Asbo, esta é a história de Desmond Pepperdine, um improvável e muito respeitável cidadão do mundo.



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