Lisa Sereno @ Casa Capitão (21.01.2026)
A melancolia é o melhor do pior dos sentimentos.
Pela calada, Lisa Sereno, já na recta final de 2025, deu-nos a conhecer um dos álbuns mais bonitos editados cá no burgo. E eis que, já com 2026 a aproximar-se do final do primeiro mês, chega a oportunidade de ver, ouvir e absorver a melancolia que estas canções vertem. Uma melancolia quente, que contrasta com o frio e a chuva que se fazem sentir lá fora, cortesia da Depressão Ingrid.
«Mystery» abre a noite. Ouvimos com cuidado para não partir, porque é assim que soa. “You leave, you break me / I try to win, but I always lose / You leave, you break me”
«Giver» começa simples, guitarra primeiro, seguem-se os teclados, a bateria (suavemente) e o baixo. Depois, entrelaça-se tudo de forma perfeita, ligado pela voz intemporal de Lisa Sereno.
Chega a altura das apresentações: Débora King nos teclados e a nota de que é o nome verdadeiro. Depois há também João Hasselberg no baixo, João Sousa na bateria, Pedro Branco na guitarra. Eis a banda Número 1. Sim, há uma banda Número 2 que a acompanhará na data seguinte.
«Mondays» surge com um rendilhado simples. Um equilíbrio difícil e por vezes periclitante, mas belíssimo.
«Strong» é um fio condutor, “Teach me to pursue it”. É uma canção sobre a procura de um rumo, da felicidade. “Guide me through the darkness / Be the mentor of my life”. Já «Belong» versa sobre o sentimento de pertença e é também aquela que apresenta uma matriz folk mais clássica. Em comum nestas canções há uma beleza etérea que facilmente nos atira para outras décadas, mas que, em. simultâneo conseguem manter um vínculo forte com o presente.
«Fool» irrompe em jeito de balada, daquelas que quase nos puxa para um slow, bem junto de alguém especial. A melancolia é o melhor do pior dos sentimentos. Sentirmo-nos tristes e felizes ao mesmo tempo é confuso, mas delicioso ao mesmo tempo, doce até, diria…
«Chance», versa sobre conseguir mudar o resultado de uma leitura da palma da mão e é interpretada por Lisa Sereno, apenas acompanhada por Débora King em palco, e com a conduta de circulação de ar a rivalizar no ruído, mas mesmo assim bela.
Há também tempo para uma canção nova, daquelas mesmo a estrear. Até então escutada por absolutamente mais ninguém, com Sereno só, à viola. É uma canção a ganhar forma; no corpo e nas palavras, e é um privilégio escutar uma canção assim, como é corajoso mostrá-la.
«Água» é outra canção nova. Aqui a inspiração veio da humidade e do bolor das casas portuguesas. O dedilhar na viola é mais incisivo e mostra-nos uma canção mais evoluída na sua composição, se bem que magnificamente crua, nas pausas e “micro-quebras” que apresenta e isso é fantástico.
Antes de «My Loneliness», cruamente bela e sensível ao toque, há tempo para uma canção que não pertence ao álbum, já com a banda de regresso, e é uma pena.
«Giver» irrompe com peito cheio, com Lisa Sereno a marcar o tom, aqui expandindo-se ao longo de uma planície sonora delicodoce, com espaço para a guitarra de Pedro Branco
«Tan Line» leva-nos aos 50 o que reforça a aura intemporal que instalou desde o primeiro momento.
Foi verdadeiramente bonito.
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