Lisboetas

Ante-estreia do filme de Sérgio Tréfaut.

No mês em que o IndieLisboa assinala a sua 3ª edição, estreia nos cinemas o filme que arrecadou o galardão de “Melhor filme português” na edição inaugural do festival. “Lisboetas”, o documentário de Sérgio Tréfaut, tem estreia marcada para dia 20 de Abril. A rua de baixo associa-se mais uma vez ao novo cinema nacional e tem convites para oferecer para as antestreias de Lisboa e Porto.

Depois de uma época de grande emigração, Portugal tornou-se num dos países preferidos para imigrantes de diversas nacionalidades. “Lisboetas” pretende retratar a vida dessa enorme comunidade de pessoas na capital e lançar o debate sobre um tema muito importante da sociedade portuguesa contemporânea: Será que este fluxo de pessoas irá mudar Lisboa e Portugal?

Para ficarmos a conhecer melhor este projecto, colocámos algumas perguntas ao realizador, o luso-brasileiro Sérgio Tréfaut. Fiquem com a entrevista e depois não se esqueçam de participar no passatempo.

RDB: Quem é o Sérgio Tréfaut?

Sérgio Tréfaut: Nasci no Brasil em 1965, filho de pai português e de mãe francesa. O meu pai era um exilado político que regressou a Portugal em 1974. Vivi nestes três países (Portugal, Brasil, França), mas a cidade em que passei mais tempo foi Lisboa. Cerca de 25 anos.

Fala-nos um pouco do teu percurso. Como surgiu o cinema?

Sou formado em filosofia pela Sorbonne. Trabalhei um pouco em jornalismo, um pouco em cinema e teatro, um pouco em programação cultural (organizar festivais, exposições). O documentário era uma paixão dos meus 16 ou 17 anos. Fiquei literalmente transformado quando vi a integral de um ciclo do cineasta holandês Joris Ivens na Cinemateca Portuguesa. Ele era o pai do documentário e passou também a ser um dos meus pais. Poucos anos mais tarde, muitos dos meus amigos trabalhavam em cinema e por isso achei que não deveria ser tão impossível passar a fronteira.

Quais foram as primeiras impressões do nosso país?

As primeiras impressões de Portugal datam de 1974. São as de uma criança de 9 anos que chegava do Brasil e de um universo cultural cosmopolita. Apesar da febre ligada à revolução, Portugal era para mim um país a preto e branco, muito tosco e afectivamente reprimido, onde só as tias velhas podiam mostrar carinho. Não tinha o conservadorismo brutal de um regime militar, mas o tinha o conservadorismo bonacheirão de uma ignorância orgulhosa. E creio que já nessa época senti algumas das ambivalências que ainda hoje constato: sendo um país atado, era também um país muito resignado.

Em “Lisboetas” abordas o tema da emigração/imigração, de como aqueles que têm chegado a Portugal podem vir a mudar o nosso país. Acreditas que sim?

A transformação do país nos últimos dez anos é uma realidade. Qualquer pessoa que não seja cega e surda sabe disso. Basta andar na rua. Mas creio que a chegada dos imigrantes, com todo o enriquecimento que ela significa, poderia ser mais bem aproveitada pelo estado e pelo país.

Englobas-te nesse grupo?

Se me vejo a mim próprio como imigrante? Tenho uma identidade um pouco ambivalente. Por um lado tenho documentos portugueses, sou português, filho de pai português, etc. Até a minha mãe tem nacionalidade portuguesa desde 1958. Mas quando entro num táxi em Lisboa, a primeira pergunta que me costumam fazer é se sou de São Paulo ou do Rio… Por isso e por razões afectivas fortes, sei que me sentirei sempre “de fora”. Ainda que conheça as ruas de Lisboa como um taxista…

Achas que Portugal é um país de oportunidades?

Portugal apareceu como um país de oportunidades para muitos imigrantes na década de 90. Isso tem a ver com a integração de Portugal na União Europeia e uma série de grandes empreendimentos de construção civil realizados nesse período. Mas esse boom económico parece ter acabado. No entanto é possível que as condições de vida em Portugal, ainda que pouco aliciantes, sejam melhores do que o que se vive noutros países. Cada imigrante tem a sua própria experiência comparativa e tira as suas próprias conclusões.

O povo português continua a olhar desconfiado para um emigrante. Concordas com esta afirmação?

Ainda está para nascer uma pessoa que não tenha preconceitos. Nem o Papa, nem a Madre Teresa de Calcutá ou o Dalai Lama estão livres de preconceitos. Todos nós temos a nossa parte de racismo, quer queiramos quer não. Seja qual for a nossa cor de pele ou origem. A cultura portuguesa tem características contraditórias. “O outro” não é sistematicamente visto como “um inimigo” ou “um ser inferior”, mas muitas vezes como “um bicho curioso”, “um pobre coitado como nós”.

Por isso, em alguns aspectos existe muita abertura. Mas existe também uma aceitação banalizada da injustiça e do viver mal. Dito isto, em casos piores há, como você diz, desconfiança, medo e até desprezo – normalmente fruto da tal ignorância orgulhosa.

Achas que com o passar do tempo, os emigrantes vão começar a ocupar posições de maior importância na nossa sociedade?

É possível que sim, se tiverem preparação e se a sociedade for mais bem organizada no seu todo. A questão mais importante que Portugal tem por resolver é a mesma há 30 anos: uma muito maior exigência com a educação. Nos dias de hoje isso engloba não apenas o ensino secundário e superior, mas um outro aspecto fundamental que tem vindo literalmente a apodrecer: a programação da televisão.

Desejas voltar para o Brasil?

Sai do Brasil com 10 anos… Voltar para o Brasil é para mim um desafio maior do que escalar o Evereste. Mas um dia tentarei. Embora eu não saiba exactamente o que isso significa.

Planos para o futuro? Projectos?

Tentar mostrar em Lisboa a instalação documental Novos Lisboetas – um trabalho encomendado pelo Parc de La Villette em Paris, mas que não tem nenhuma imagem em comum com o filme.

Terminar a minha primeira longa metragem de ficção, Business Class, que conta a chegada de uma imigrante ucraniana a Portugal… e ir viver um ano para o Cairo, onde me espera um documentário sobre as pessoas que vivem dentro dos cemitérios :Os vivos e os mortos.



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