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Lisbon & Estoril Film Festival 2012 – Reportagem

Dez dias de muito e bom cinema

Terminou no passado Domingo a 6ª edição do Lisbon & Estoril Film Festival. Foram dez dias de sessões que preencheram vários tipos de exigências, ainda que a adesão, a nível geral, tenha demonstrado os preços e horários um pouco limitados: muitas sessões estiveram de sala quase vazia, outras, ainda que pontualmente, estiveram esgotadas. O melhor do cinema dividido por secções.

COMPETIÇÃO

O Prémio LEFFEST de melhor filme (com o apoio Jaeger-LeCoultre) foi para o italiano Leonardo di Constanzo, com o filme “L’intervallo”. O filme trata de um conto moderno acerca de um adolescente encarregue de manter uma jovem de 15 anos refém num complexo abandonado. Inicialmente sem explicações, vai surgindo uma ligação entre os dois, tendo a inocência espaço para brotar num cenário assombrado, num conto de resignação. É pena que com o desenrolar da película esta revele não ter tantos planos de intencionalidade (nem tão assertivos) como se sugere, ainda que se trate de uma obra recomendável.

O Prémio Especial do Júri João Bénard da Costa separou os louros por “Djeca – Children of Sarajevo”, de Aida Begic, e “Student”, de Darezhan Omirbayev.

“Student” inspira-se no livro de Dostoievski “Crime e Castigo”, com a acção a desenrolar-se no Cazaquistão de hoje. É a história de um estudante de filosofia que não aceita bem as diferenças sociais, sente que o ser humano pode ser muito cruel e então acha-se o salvador dos oprimidos, e muito bem. Mas este jovem é enfadonho, cabisbaixo, interioriza demasiado, o que leva uma pessoa ao desespero chegando a irritar o espectador, já que não desenvolve nenhuma atitude especial para além de assassinar duas pessoas, uma justamente e a outra injustamente. A partir do assassinato, a parte mais tensa, o sentimento de culpa apodera-se do protagonista e o aborrecimento de nós. Contudo, os cenários precários dos edifícios, as ruas e o comércio dão uma noção interessante da envolvente.

Curiosamente, o prémio de Primeira Obra (com o apoio Jameson) foi atribuído a dez realizadores, mais especificamente ao documentário “Winter Go Away”. E, diga-se, dificilmente poderia ter sido mais justo. O documentário revelou-se um acutilante testemunho acerca da realidade da Rússia actual à luz da última eleição de Putin, sem ornamentos – há espaço para as diferentes perspectivas, para a discussão e, sobretudo, para a compreensão. Um pouco a antagonia do regime de Putin, que vai ditando o rumo do filme sem deliberadas manipulações ou sentimentalismos – pretende-se mostrar a realidade dura e crua e é aqui que se constitui um documento de grande relevância política e sobretudo social de extrema pertinência.

Já o Prémio Cineuropa foi para “Rengaine”, de Rachid Djaidani. O Júri decidiu ainda premiar a interpretação de Melvil Poupaud em “Laurence Always”, de Xavier Dolan, e a pintura de Miquel Barceló em “Sueño y Silencio”, do castelhano Jaime Rosales. Relativamente a este último, trata-se de um curioso ensaio da fractura do núcleo familiar em torno do luto. Ainda que com pontuais rasgos de uma grande sensibilidade (de destacar a cena do funeral), a câmara do realizador é bastante formatada e pontualmente inerte. Filmado num glorioso cinemascope em preto-e-branco, a película aparenta vezes demais ter extrema dificuldade em agarrar o espaço cénico (o que é curioso, dada a dimensão do formato), ainda que sejam de ressalvar as excelentes interpretações.

Pelo caminho ficou “Después de Lucia”, de Michel Franco, uma história de desmoronamento e alienação humana centrada no núcleo familiar. A inversão dos papéis é notável na exposição de uma dura realidade. À saída da sala ouvia-se: “agora é preciso digerir”. Um verdadeiro tour-de-force.

“Low Tide”, de Roberto Minervini, começa por expor o isolamento de um jovem adolescente, com uma relação ausente (ou talvez inexistente) com a mãe. A questão é que, uma hora depois, ainda não arrancou deste ponto e por aqui se situa até ao final, em que finalmente se vê uma ideia: até lá, flutua-se num limbo sem ideias e sem mensagem, através de uma colagem de planos que acompanham sobretudo a personagem principal no seu dia-a-dia solitário. Já “Avalon”, de Axel Petersén, segue a história de Janne e a sua família, envolvido no negócio do divertimento nocturno. A película recorre a uma dicotomia entre a comédia ligeira e um registo trágico, mas acaba por se situar no meio e por adquirir por osmose o grande vazio de Janne.

FORA DE COMPETIÇÃO

Fora de competição, a selecção apresentou uma grande diversidade. De notar “Dans la Maison”, o novo filme do francês François Ozon, um ensaio quase ilumístico, poder-se-á dizer; ou um processo recíproco, de um caminho de aprendizagem com consequências fora de controlo.

Ainda a exibição da primeira obra de Brandon Cronenberg, “Antiviral”, uma obra que se revelou a decepção do festival: tão estéril quanto os espaços clínicos que dominam a tela. O realizador parece ter saltado o capítulo da apropriação do espaço em cena, uma vez que as personagens circulam espacialmente sem realmente existirem e as frequentes sequências que revelam uma tentativa de explorar novos territórios acabam por ser só isso mesmo, carregadas de inconsequência.

SESSÕES ESPECIAIS

Em “Io sono l´amore” de Luca Guadagnino, uma paisagem revestida por neve rodeia uma casa exuberante em Milão. Uma família tradicional milanesa aparentemente feliz, com dinheiro, nome e status. A matriarca, Emma, é representada por uma elegante e arrepiante Tilda Swinton. A descoberta do amor e a tragédia apoderam-se do filme num ritmo crescente. O argumento não é inteiramente inovador, embora a narrativa tenha sido bem estruturada fluindo com naturalidade. O espectador jamais perde a atenção, mantendo sempre um olhar deslumbrado pelo bom gosto estético e pelos detalhes, as câmaras captam ângulos pouco óbvios. Perante está obra não se pode ficar imune ao poder do bom cinema contemporâneo.

O surrealismo de Luis Buñuel em “Le Fantôme de la liberte” leva-nos a uma cagada social. Em substituição ao jantar formal com as simples cadeiras a rodear a mesa, tem-se brilhantes retretes que convidam a uma tertúlia de verborreia. Também os supostos franciscanos merecem destaque, assumem-se como carmelitas, jogam poker e como fichas usam os escapulários das diferentes virgens. Além disso, ainda são convidados para assistir a uma cena de sexo sadomasoquista. Pode-se frisar a cena em que um sobrinho e a sua tia se envolvem depois de reprimir o desejo incontrolável. Este filme, o penúltimo de Buñuel, é a sucessão de catorze intrigas desconcertantes, que são encadeadas entre elas por algum personagem de cena para cena. É, então, uma narrativa linear composta por fragmentos independentes, em que o início nada tem a ver com o meio ou o fim, constituindo uma dinâmica diferente do habitual.

“Go Go Tales” de Abel Ferrara é uma comédia com piadas pouco hilariantes, tenta atingir uma vertente dramática mas não consegue. Strippers mexem-se e remexem-se no varão captadas desde todas as perspectivas e enquadramentos possíveis. Quase que poderia ser o Crazy Horse (Cabaret de Paris) se não fosse a sua falta de glamour. Jay é o proprietário do clube, interpretado por Willem Dafoe, um homem optimista, viciado no jogo e que pretende que o seu clube de striptease saia da decadência em que se encontra. O melhor da exibição deste filme é que coincidiu com a presença próxima de Abel Ferrara, Willem Dafoe e Paulo Branco para um debate com o público.

 

HOMENAGENS

O primeiro filme de Monte Hellman a ser exibido na respectiva homenagem foi “Ride in the Whirldwind”, de 1965. Uma abordagem pouco relevante ao estilo western, ainda que a segunda metade revele crescente interesse, quando a acção se transfere para um espaço de um rancho familiar bem delimitado e se envolvem personagens exteriores à trama, especialmente nas cenas de interior.

Outro filme do mesmo realizador é “China 9, Liberty 37”. O pistoleiro Clayton está prestes a ser enforcado. Ao último momento surge a possibilidade de se safar, com a condição de assassinar o fazendeiro Matthew para beneficiar uma empresa ferroviária. Clayton vai em busca de Matthew, é bem recebido em sua casa com frango e tudo, por isso em vez de o matar come-lhe a mulher. É aqui que começam os conflitos, à simples vista parece o típico filme de cowboiada, mas não é bem assim. Monte Hellman deixa clara a diferença, aqui não há bons nem maus, há personagens e cada um é digno da sua realidade e integridade. É um filme melancólico, há a destruição completa de uma família sem dó, nem piedade e sem culpado. Tem influência italiana, acabando por fugir aos cânones do western americano, assumindo assim um lado alternativo dentro do estilo.

Da argentina Lucrecia Martel, “La Niña Santa” teve direito a exibição no Nimas. Uma obra onde existem duas forças antagónicas a assombrar a película: de um lado um profundo carácter religioso e de outro a emancipação sexual. Não deixa de ser perturbador observar como elas coexistem e os limites se esbatem. E a abordagem é aparentemente silenciosa, no retrato de uma revolução interior que possui a sua maior expressão mais nos silêncios do que nos diálogos.

Em “La cienága” uma família composta por Mecha e o marido, ambos alcoólicos, e os seus quatro filhos, passam as férias de Verão na casa de campo La Mandrágora, Nordeste Argentino. A piscina está podre, o cheiro é nauseabundo, o calor torrante e as visitas são a prima de Mecha com o marido e os também quatro filhos. As crianças convivem entre elas, invulgares e contentes com espingardas à séria pela serra acima, os adolescentes passam os dias em cima da cama a transpirarem, Mecha igual mas a beber vinho. O ambiente chega a ser degradante. Lucrecia para o recriar fundamentou-se em memórias da sua infância e adolescência, sente-se o provincianismo tradicional argentino e isso é maravilhoso. Os personagens são comuns, muito reais e a câmara de 35 mm persegue-os com certa proximidade calorosa recriando uma intimidade reconfortante, mas que nos deixa desorientados no espaço físico. Nunca se sabe bem o que realmente vai acontecer, isso deve-se a uma estratégia de narração que caminha ao lado da imprevisibilidade e que nos deixa sempre a ansiar um êxtase que nunca chega.

CINEASTAS RAROS

O espanhol Adolpho Arrieta foi um dos cineastas raros apresentados, considerado por muitos o pioneiro do cinema underground espanhol. Uma das sessões mostra as primeiras experiências cinematográficas de Arrieta, com a exibição de três curtas-metragens, uma das quais “La Imitación del ángel” de 1967, não tem praticamente som, foi filmada em Madrid com uma 16mm, atinge uma beleza fascinante, seguindo uma linha indisciplinada mas dotada de linguagem poética. O experimentalismo desta obra é invasivo.

Por outro lado, o arménio Artavazd Peleshyan também ocupou esta secção, com carácter documentarista. Numa das sessões assistiu-se a seis curtas-metragens. Partindo desde “Land of the People”, um ensaio sobre a vida humana e o trabalho, onde o pensamento humano congrega a sua expressão. Passando por “Skibs, the Beggining”, ensaio filosófico sobre a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, até “Vremena Goda”, sobre os pastores que vivem no planalto arménio, estes homens lançam-se por uma ravina abaixo incrivelmente ingreme e interminável, cada um com uma ovelha ao colo, descem por ali abaixo a uma velocidade respeitável ficando com certeza com o rabo assado. Em comum os seus filmes têm a falta de diálogos; embora tenham sons e música, são de uma genuinidade e autenticidade fora do comum. O seu estilo também é famoso pelas montagens, combinando a perceção de profundidade com elementos mais próximos.

RETROSPECTIVAS

Uma aposta ganha, a inclusão do realizador do Taiwan Hou Hsiao Hsien nas Retrospectivas do LEFFEST. Em “Millenium Mambo” assistimos a uma narrativa observada à distância de 10 anos, mas cuja envolvência excede esta dimensão; tudo isto sob uma atmosférica quase nostálgica construída a nível sonoro e a nível cromático. Se quiséssemos condensar o dream-pop em vídeo, talvez o resultado não andasse longe disto.

 

Na mesma categoria esteve incluído o realizador Brian de Palma, criador de uma obra cinematográfica muito vasta e sólida que vale a pena investigar. Os seus filmes denunciam um experimentalismo próprio do cinema da nova vaga, liderado sempre por um certo suspense. “Dressed to Kill” conta a história de um terapeuta de Manhattan que entra em pânico quando um paciente seu, psicopata, decide roubar-lhe a navalha e matar todas as mulheres com que se envolve. Uma mulher no duche, que recorda a cena do “Psycho”, sexualmente frustrada, um museu, depois do sexo a descoberta de uma doença sexualmente transmissível, sangue jorrado, facadas profundas e muito gore. Nota-se a herança que Hitchcock deixou a Palma, com quem trabalhou. Porém, o realizador consegue apresentar-se como autor independente, explícito e irreverente.

SIMPÓSIO INTERNACIONAL

Raul Ruiz foi um cineasta chileno. Os seus filmes são o testemunho do surrealismo, e do experimentalismo que o habitavam. “L’Hypothèse du Tableau Volé” é um filme difícil de decifrar, um coleccionador de arte vai deambulando pelas diferentes divisões de uma mansão, explicando os seus quadros, com a peculiaridade de serem composições vivas, representadas por pessoas verdadeiras, cenários reconstruídos ao pormenor, permitindo assim a análise pelo coleccionador de diferentes ângulos. Um percurso labiríntico que nos leva à meditação da arte, da história e da problemática da interpretação.

“Francisca”, de Manoel de Oliveira, é uma história fundamentada em factos verídicos de meados do séc. XIX, uma juventude residente na cidade do Porto, boémia e intelectual. O escritor Camilo Castelo Branco é um dos jovens, amigo do aristocrata José Augusto que certo dia resolve fazer-lhe uma visita entrando com o seu cavalo pela sala adentro, sem qualquer constrangimento. Ambos os amigos se movem por um desejo, Francisca. Um desejo pela mesma jovem, mas de essência distinta. José Augusto diz a Camilo: “Esta mulher que não te ama mas cujo amor elevas tão alto… vou eu fazê-la amar-me; mas não a possuirei, ela será infeliz e assim vingar-nos-ei. A ti, por não a teres tido; a mim, por nunca a ter desejado senão através de ti.”. Esta frase comanda o enredo e com ela expõe-se a dimensão perversa presente no filme.



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