Literatura cor-de-rosa

A fábrica dos sucessos ou a máquina de encher chouriços?

INGREDIENTES

Primeiro aproveitam-se meia dúzia de ideias banais marinadas em insípido estilo.
De seguida demolha-se o preparado em vocabulário moderado q.b;
Finalmente, adicionam-se umas quantas personagens mal amanhadas.

PREPARAÇÃO

Mistura-se bem o produto final para que tudo fique irreconhecível. A seguir coloca-se numa forma de sucesso garantido e cozinha-se em lume brando até ficar «al dente».
Tempera-se a gosto para ludibriar o palato e serve-se morno para agradar a todos.
Por fim, apresenta-se em rica porcelana para fazer esquecer o fraco substrato. Espera-se uns instantes e saboreia-se o sucesso que era, de antemão, esperado.

A receita, como repararam, é sobejamente conhecida. Não são necessárias referências. Está ao alcance de todos. No entanto, apesar de banal, o sucesso é quase sempre garantido. Como resultado temos um enorme caldo feito de insonsos chorrilhos a que os media dão cobertura e que as tabelas de vendas mostram o reconhecimento público.

A escrita banalizou-se. A literatura tornou-se ligeira. Light! Foi purgada. Embelezada e perfumada. Perdeu profundidade e fulgor mas está mais colorida. Demasiado! Tornou-se cor-de-rosa. Não há dúvida que ela criou alguns hábitos de leitura e conquistou leitores, mas não os enriqueceu. Não ata nem desata. Não aquece nem arrefece. Não põe a pensar nem faz sonhar… entretém. Sabe a pouco. Não alimenta mas ludibria o apetite. Não cria clássicos, mas antes êxitos editoriais. Catapulta os seus autores para os tops e concede-lhes uma notoriedade tão efémera quanto os textos por estes produzidos. Talvez por isso as letras sejam agora das Margaridas, dos Maneis e dos Franciscos. Todos sabem que eles nunca serão Camões nem Balzacs. Nunca nos darão Lusíadas. O que fazem é de leitura fácil e rápida porque também o são as suas ideias e prosa. Diz pouco. Faz sentir ainda menos. Ninguém, porém, parece importar-se. Porquê? Porque os números suplantaram as letras. Ninguém quer saber das histórias pois preferem os extractos.

Estamos diante de uma fábrica de sucessos ou, simplesmente, duma máquina de encher chouriços, os quais acabam, acriteriosamente, no prato do incauto gourmet , para degustação, apresentados como delicado prato quando não passam de iguaria pouco condimentada que se limita a enganar o apetite e não a apaziguá-lo com algo de substancial? Deixe-se de coisas e siga a sugestão: deixe o cor-de-rosa para a moda e o light para os refrigerantes. Cada coisa no seu lugar! Leia um livro que mereça e dignifique o papel em que está impresso. Sentirá a diferença! De certeza que não gosta assim tanto do cor-de-rosa, não é verdade?



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