Literatura e Internet

Será que existe alguma coisa em comum ?!

LITERATURA NA WEB

A Internet está, quando bem utilizada, ao serviço das ideias e das letras que as divulgam. É, ou pode ser, um maravilhoso mundo para quem escreve. Ela encurtou o espaço que separa o escritor do público. Conquistou-lhe leitores, permitiu-lhe ser uma voz activa e interveniente, concedeu-lhe um espaço e ofereceu-lhe gratuitamente divulgação.

Por default (como nos computadores) a maioria acha-se possuidora de dotes literários de fazer inveja a Saramago, os quais injustamente não foram, ainda, contemplados com a almejada edição. Situação idêntica ocorre com a capacidade vocal que os portugueses se reconhecem (mesmo que mais ninguém o faça), a qual lhes permite encetar uma carreira musical com potencialidades só comparáveis às de Pavarotti (que, ainda por cima, deixou recentemente o lugar à disposição – Será um português a ocupá-lo?). Transformará esta tendência a Web no novo el dourado literário? A terra prometida para os aspirantes a escritores?

Peguemos no caso dos blogs e a sua recente diáspora portuguesa. Os Blogs existem para quem gosta de escrever. Depressa ou vagarosamente… Para quem gosta de escrever, ponto final. Sempre que lhe apetece. Quando lhe apetece. Parágrafo.

São já alguns os exemplos de sucesso literário provenientes do ciberespaço, em que o caso mais flagrante (aprecie-se ou não o género) será o do Meu Pipi, o qual exportado da Web directamente para o papel se transformou rapidamente num sucesso de vendas. No entanto, se as obras finais são vitórias, também as desistências assim devem ser entendidas. Elas são os mecanismos de uma democrática censura que vai excluindo os menos capazes para a tarefa. Dão o tempo de reflexão que permite avaliar se é melhor desistir ou ser persistente. Só os mais aptos resistem. De entre eles, o tempo encarrega-se de fazer a selecção final, só deixando ficar para a história os de génio.

Isto porque o íngreme percurso da escrita é o da procura da voz interior e este é um caminho árduo, solitário, individual, cheio de percalços, fadigas, hesitações e contratempos. Só os mais capazes sobrevivem. Dos fracos não reza a história. Embora também possam fazer parte do processo acabam, inevitavelmente, por desaparecer. Facilmente comprovamos isto ao navegarmos na Web com a constatação da enorme chacina ente as iniciativas literárias (individuais ou colectivas), como por exemplo no caso dos já mencionados blogs.

A mesma blogosfera que permite a livre e democrática expressão de ideias sob a forma escrita, vai fazendo vítimas e provocando abandonos à medida que vai crescendo. Umas por opção, outras por desilusão.

Estatisticamente, o tempo médio de vida de um blog reduz-se a um punhado de meses e o tempo em que as actualizações são constantes a outros tantos. O tempo faz grassar a mortandade na blogosfera à medida que a novidade o deixa de ser (Cf. Mortandade na Blogosfera em http://prosasolta.blogspot.com).

Facilmente se conquistam os quinze minutos de fama a que, segundo Andy Warhol, todos temos direito, o mais difícil será não só prolongá-los como transformá-los num modo de vida: ser escritor e viver da escrita. Ironicamente, para o público só o fim da jornada conta (apresentado nos escaparates das livrarias), quando para o escritor é o que está antes dela que lhe dói.

A Internet dá-nos a possibilidade de assistir à evolução, aos «fait-divers» e por vezes à ascensão e queda de novos talentos e consolidação de antigos. É uma global montra de talentos embora, também possa ser o seu cemitério. É a literatura na Web.

LITERATURA ON-LINE, EM DIRECTO

A Internet permitiu, para além da rapidez da circulação das ideias expressas nos textos que amplamente divulga, o aparecimento de novos projectos literários e de novas formas de os materializar.

Com os Surfistas, Rui Zink lançou o primeiro e-book (ideia recente fruto das possibilidades geradas pela Net em que os ecrãs electrónicos substituem o papel tradicional) literário português. Surgem assim os e-readers (leitores electrónicos). O método tradicional e o mais recente têm, no entanto, segundo Zink, em comum a palavra.

Rui Zink foi o primeiro autor português a utilizar este recurso. Na opinião do autor, Os Surfistas são uma «comédia de homenagem aos Lusíadas».

Os Surfistas de Rui Zink apresentam, no entanto, uma outra particularidade acrescida. Numa tónica marcadamente humorística e escrito sob a forma de folhetim, Zink contou com a participação dos «navegadores» da net, que iam decidindo da evolução do enredo, capítulo a capítulo (fruto de 38 votações efectuadas pelos internautas), acrescentando-lhe sugestões e comentários, os quais fizeram, segundo o autor, com que o percurso inicial fosse alterado. Fê-lo no portal do Clix durante três meses. O resultado final é constituído por quase quatro dezenas de capítulos, gerados por uma imaginação colectiva, embora de tónica desigual deixando, assim, os Surfistas aquém das expectativas.

Se os primórdios portugueses deste género derivam a paternidade de Rui Zink, existem, actualmente, alguns projectos que se inspiram nesta tendência como é o caso de Há Coincidências (http://hacoincidencias.blogspot.com/) – Literatura (?) pseudo – pop (segundo os responsáveis do projecto) e o conto interactivo do Novos Autores (http://pwp.netcabo.pt/novosautores/). As regras são simples. Este último, por exemplo, instituiu como princípios de participação ler os textos colocados e continuar o conto, dando continuação à linha da história mais do agrado e não responder aos seus próprios textos aguardando que alguém o faça. Para agilizar as respostas, pede-se a todos que na medida do possível não “postem” textos muito longos, rondando aproximadamente 300 palavras. O primeiro conto, tem como base a História de Maria. O primeiro post, dá já indicações do personagem principal, assim como refere alguns outros que poderão ou não, ser utilizados no futuro. A criação de situações, lugares e personagens, depende unicamente da imaginação dos participantes. Simples? Será o futuro? Veremos! É certamente literatura on line e em directo.



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