“Livre” | Cheryl Strayed

“Livre” | Cheryl Strayed

O lugar onde nasce o tutano da vida

Em 1854, foi publicado um dos livros que, com a sabedoria do tempo, se tornou numa referência tanto para o mundo ecológico como para o movimento hippie: “Walden”, de Henry David Thoreau. Inspirado pela filosofia de Confúcio, Thoreau retirou-se em 1845 para a floresta, onde construiu a sua casa, os móveis e aprendeu a viver com o mínimo necessário à sobrevivência. Não foi, contudo, um projecto eterno ou fechado ao exterior – durou dois anos -, já que recebia e fazia visitas – a cidade estava a curta distância -, sendo a essência da aventura compreender melhor a sociedade e descobrir as necessidades essenciais – e mais verdadeiras – da vida.

Aos 26 anos, Cheryl Strayed não pensava certamente muito nos ensinamentos de Confúcio mas, com um casamento atirado às urtigas, os laços familiares cheios de nós cegos, o trabalho sem luz ao fundo do túnel e a cabeça feita em água, tomou uma decisão impetuosa: embrenhar-se por conta própria na natureza selvagem, percorrendo a pé, durante três meses, o Pacific Crest Trail (PCT), desde o deserto de Mojave, ao longo da Califórnia e do Oregon, até ao estado de Washington. Qualquer coisa como mil e setecentos quilómetros.

Quinze anos depois de uma epifania vivida no seio da mãe natureza, Cheryl escreveu “Livre” (Editorial Presença, 2013), que está entre um registo de memórias e uma narrativa aventureira. Um livro autobiográfico, escrito sem grande pudor e de grande exposição pessoal, que mostra a faceta de Cheryl como adepta do sexo desenfreado e das drogas duras, adúltera, despreocupada com os outros, antes de encontrar a redenção na imensidão do silêncio pintado com o verde das árvores e o branco da neve.

No início do percurso, não há uma grande excitação mas sim um desassossego taciturno. Com um monstro – nome com que é baptizada a mochila – às costas e um passado nulo enquanto caminhante, Cheryl lança-se numa aventura de proporções épicas sem qualquer experiência ou preparação, perdendo as unhas dos pés, calçando umas botas demasiado pequenas e conhecendo outros caminhantes, que lhe ensinam o espírito de companheirismo e a ajudam a transformar a mochila em algo que não um peso-pesado.

Escrito de forma humana sem cair em divagações à la Nicholas Sparks ou algo do género, “Livre” é o relato individual de uma epifania, que mostra que há alturas na vida em que se tem mesmo de descer até ao fundo do poço para voltar a emergir com vontade de arrepiar caminho. «Que loucura foi deixar que tudo isso acontecesse», escreve às tantas Cheryl Strayed. Bendita loucura, onde estaríamos nós sem ela…

 

«Fui para os bosques viver de livre vontade,

Para sugar todo o tutano da vida…

Para aniquilar tudo o que não era vida,

E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!»

 

In “Walden”, de Henry David Thoreau

 



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